A Sociedade da Neve: história real contada de forma mais verdadeira

Cena do filme A Sociedade da Neve
A Sociedade da Neve: direção de J. A. Bayona

PARA ALÉM DA AÇÃO, FICAMOS COM O EMOCIONAL E O ESPIRITUAL

Quando li no serviço de streaming a sinopse de A Sociedade da Neve, dirigido em 2023 por Juan Antonio Bayona, de imediato fui açoitado por uma pergunta incômoda: por que raios alguém se atreveria a recontar essa história tão penosa dos sobreviventes dos Andes? Mas em se tratando do cineasta Juan Antonio Bayona, diretor do excelente O Impossível, deduzi que a justificativa deveria ser das boas! É de fato é!
        O cinéfilo atento já percebeu que se trata de um remake do filme Vivos, de 1993, que por sua vez é um remake de Os Sobreviventes do Andes, de 1976. Conta a história do fatídico voo 571 da Força Aérea Uruguaia que em 1972 transportava 45 passageiros – entre eles 18 jovens jogadores de um time de rugby de Montevideo – quando acabou se espatifando nas montanhas geladas dos Andes. Sobreviveram apenas 16 passageiros, depois de amargarem 72 dias de sofrimento e precisarem se alimentar dos corpos dos companheiros mortos.
        Na minha crônica sobre o filme Vivos, expliquei de que maneira essa história escabrosa virou livro em 1974, depois um filme sensacionalista em 1976 e mais tarde, em 1993, rendeu aquele filme da Disney, com boas doses de verossimilhança e força dramática. Agora, para escrever sobre A Sociedade da Neve, precisei rever tudo isso e, de imediato, encontrei a resposta para a pergunta que me fiz lá no primeiro parágrafo: o principal motivo para recontar essa história é o tempo! O tempo que decanta tudo, que deixa acomodar as impurezas no fundo e as revela. Que faz da verdade uma substância menos turva.
        Os apaixonados por cinema logo perceberão que A Sociedade da Neve é um filme superior ao seu antecessor – não por causa de qualidades cinematográficas, já que ambas as produções são bem realizadas, com apuro técnico e artístico. O novo filme de Bayona tira proveito desse processo de decantação e enxerga os personagens com muito mais maturidade e com uma profundidade mais... espiritual. A razão disso é que o material literário no qual o diretor se baseou não é aquele escrito praticamente no calor dos acontecimentos pelo inglês Piers Paul Read, mas sim o romance La Sociedad de la Nieve, escrito em 2010 por Pablo Vierci.
        Acontece que o escritor e jornalista uruguaio Pablo Vierci vem a ser colega de infância de alguns dos personagens dessa história, tendo dividido com eles os bancos escolares e as aventuras esportivas antes da tragédia. E seguiu mantendo com eles fortes laços de amizade. Seu envolvimento emocional com a história, portanto, é por demais intenso. Por meio de entrevistas com sobreviventes e familiares, ele passou anos revirando depoimentos e desabafos, confissões e elaborações, conversando com todos em um nível emocional. Percebeu que a cada vez que revisitam aquelas montanhas, os personagens enxergam novos detalhes e focalizam os fatos com as lentes da maturidade. Foi assim que depurou uma narrativa intensa e envolvente.
        O diretor Juan Antonio Bayona leu o livro de Pablo Vierci enquanto realizava O Impossível, e adquiriu os direitos de adaptação para o cinema. Percebeu a oportunidade de ir além dos fatos e pôr em tela uma reflexão sobre os vínculos profundos que se estabelecem entre os personagens, não apenas entre os que sobreviveram, mas entre eles e os que morreram nas montanhas. Planejou seu filme para ser mais filosófico.
        Bayona partiu de um roteiro escrito por ele em colaboração com Bernat Vilaplana, experiente montador com trabalhos em diversos filmes. Mas o diretor tomou a sábia decisão de conduzir entrevistas com todos os sobreviventes. Depois de horas de gravação, descartou os primeiros tratamentos do roteiro, ao perceber que seria redundante seguir enfatizando ação e diálogos, para tentar costurar uma história já conhecida do público. Preferiu extrair o conteúdo dramático dos depoimentos que colheu, escavando camadas mais profundas. O processo de reescrita do roteiro foi intenso e seguiu também durante as filmagens, quando os próprios atores provocaram alterações.
        A Sociedade da Neve é um filme tenso e envolvente. Sugere muito mais do que mostra e por isso mesmo é triste e angustiante. Exala respeito aos que morreram e aos que ainda hoje convivem com a dor, buscando significados nas perdas que sofreram. É daquelas produções que ficam muito bem numa sala de exibição, mas que não perdem eloquência quando vistas da poltrona da sala. É uma obra fortemente concentrada em seus personagens, em níveis emocionais, comportamentais e espirituais, mas que não despreza a ação e o encadeamento narrativo como forma de envolver o espectador e entregar-lhe conteúdo. Contada assim, essa história nos chega mais verdadeira, mais honesta, mais... real!
        Com um elenco competente e uma direção impecável – em se tratando do cineasta Juan Antonio Bayona, não poderíamos esperar por nada menos que isso – A Sociedade da Neve merece ser conferido. Se você já conhece essa história triste e trágica, será uma oportunidade para refletir sobre desdobramentos que eventualmente haviam lhe escapado. Se você não conhece, certamente saíra transformado.

Resenha crítica do filme Sociedade da Neve

Título original: La sociedad de la nieve
Ano de produção: 2023
Direção: J. A. Bayona
Roteiro: J. A. Bayona e Bernat Vilaplana
Elenco: Enzo Vogrincic Roldán, Matías Recalt, Agustín Pardella, Tomas Wolf, Diego Vegezzi, Esteban Kukuriczka, Francisco Romero, Rafael Federman, Felipe González Otaño, Agustín Della Corte, Valentino Alonso, Simón Hempe, Fernando Contigiani García, Benjamín Segura, Rocco Posca, Luciano Chatton, Agustín Berruti, Juan Caruso, Andy Pruss, Santiago Vaca Narvaja, Esteban Bigliardi, Paula Baldini, Federico Aznarez, Alfonsina Carrocio, Silvia Giselle Pereyra, Virginia Kaufmann, Felipe Ramusio, Blas Polidori, Emanuel Parga, Iair Said, Louta e Carlos "Carlitos" Páez



Comentários

  1. Conheço esta história triste e dramática e vc conseguiu me convencer de assisti-lo.Seus argumentos são sólidos !

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  2. Assisti ao filme antes de ler sua crítica. E concordo plenamente com suas considerações, esse filme me fez esquecer os outros dois que o antecederam. Grande e digna narrativa de um acontecimento tão trágico.

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    1. Sim, o filme é triste diante de acontecimentos tão trágicos, mas o diretor encontrou o tom certo. Valeu a pena conferir!

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