Midway – Batalha em Alto Mar: fatos históricos e personagens reais

Cena do filme Midway - Batalha em Alto Mar
Midway - Batalha em Alto Mar: direção de Roland Emmerich

UM FILME DE AÇÃO FIEL AOS FATOS

Nas mãos de Roland Emmerich, até a guerra vira entretenimento! E dos bons! Mais conhecido por seus filmes de catástrofe, como O Dia Depois de Amanhã, 2012, Idependence Day e Moonfall, o diretor alemão se tornou uma das máquinas mais lucrativas de Hollywood. Especializou-se num tipo de espetáculo grandioso, que atrai pelo ritmo acelerado e pela profusão de cenas de destruição, às quais jamais poderemos assistir no mundo real – provavelmente estaremos mortos antes de atinar para os acontecimentos ao redor! Em Midway – Batalha em Alto Mar, seu filme de 2019, Emmerich lança mão de todos os seus truques para narrar uma das mais importantes batalhas navais da Segunda Guerra Mundial, mostrando a estratégia e as ações tanto dos americanos como dos japoneses. E faz isso agarrado a uma notável precisão histórica.
        Por vinte anos, Emmerich alimentou o desejo de realizar um filme sobre a batalha de Midway. Não conseguiu a adesão dos grandes estúdios, desinteressados em investir mais de 100 milhões de dólares em um único filme, cujo tema já havia sido visitado em grandes produções clássicas. O jeito foi lançar mão de uma estratégia inovadora de funding, captando recursos entre investidores individuais ao redor do mundo. A ousadia permitiu que Midway – Batalha em Alto Mar enfim nascesse, como um dos mais caros filmes independentes já realizados. Trouxe à tona um drama convencional, costurado para celebrar o heroísmo, a coragem e o espírito de sacrifício em nome da liberdade, mas recheado de imagens digitais espetaculares.
        O filme segue a trajetória de personagens reais, que protagonizaram os principais eventos relacionados à batalha. Começando pelo oficial de inteligência da marinha americana, Edwin T. Layton (Patrick Wilson), cujo trabalho conjunto com os decifradores de códigos foi o germe da derrota japonesa. Temos também o tenente Richard Best (Ed Skrein), piloto que liderou o grupo aéreo do porta-aviões USS Enterprise, um dos grandes nomes no panteão dos heróis americanos da Segunda Guerra. À frente da marinha americana, o vice-almirante William Halsey (Dennis Quaid) e o próprio almirante Chester W. Nimitz (Woody Harrelson), comandante em chefe da frota do Pacífico, são flagrados tomando as decisões críticas no calor das batalhas. Pelo lado do Japão, o contra-almirante Tamon Yamaguchi (Tadanobu Asano) e o almirante Isoroku Yamamoto (Etsushi Toyokawa) são os líderes da ofensiva bélica.
        Midway – Batalha em Alto Mar começou a tomar forma em 2014, quando Roland Emmerich conheceu Wes Tooke um jovem roteirista que também ambicionava escrever sobre aquela batalha icônica. Decidiram desenvolver o roteiro juntos, trabalhando por cerca de três anos. O arcabouço da história estava óbvio: os americanos entram na guerra como azarões, depois de amargar um ataque surpresa. Estão em franca desvantagem, mas por uma conjunção de decisões acertadas, conseguem reverter a situação. Surpreendem os japoneses e dominam as águas do Pacífico. Emmerich fazia questão de enaltecer a luta pela liberdade empreendida pelos americanos, contra a mentalidade fascista que dominava os japoneses, e tratou de abrir o filme com o pavoroso ataque a Pearl Harbor.
        Emmerich e Tooke estabeleceram três núcleos dramáticos: o envolvimento de Nimitz com os decifradores da inteligência naval, o drama dos pilotos do porta-aviões Enterprise e as decisões tomadas pelo almirante Yamamoto, que levaram à derrota dos japoneses. Para costurar o roteiro, decidiram focalizar no heroísmo do piloto Dick Best, cujo drama pessoal serviu para conduzir o envolvimento emocional do espectador. Aliás, com tantos personagens retratando pessoas reais, a decisão narrativa foi a de não adicionar elementos de ficção. O roteirista fez questão de permanecer o mais fiel aos fatos históricos. Todos os acontecimentos narrados ao longo do filme aconteceram realmente – mesmo aqueles que o espectador considere... coisas de Hollywood!
        Muitas das linhas de diálogos usadas no roteiro por Wes Tooke são reais. Isso foi possível porque os fatos históricos relacionados à batalha de Midway foram fartamente documentos por historiadores respeitados. Além de dezenas de livros sobre o assunto, os realizadores puderam pesquisar os depoimentos de várias fontes primárias, registrados em entrevistas. A quantidade de material disponível seria suficiente para escrever uma série completa, com dezenas de episódios! Emmerich e Tooke, no entanto, preferiram honrar a ação corajosa dos combatentes, sem perder a perspectiva do tradicional filme de ação.
        Ao contrário do que vemos em outros filmes de Roland Emmerich, em Midway – Batalha em Alto Mar, o que atormenta os personagens não são alienígenas do espaço, nem mudanças climáticas. É a guerra em sua enormidade, cobrando decisões, impondo sacrifícios e aniquilando planos individuais. As inevitáveis cenas de destruição vêm pipocando ao longo dos seus 138 minutos de duração, mas chegam alternadas com as histórias das pessoas que fizeram a diferença na luta contra os desmandos fascistas. O diretor encontrou espaço até mesmo para retratar a função do cinema durante os esforços de guerra. Mostra um diretor John Ford entusiasmado, chegando para cobrir os acontecimentos em Midway, enquanto rodava seu famoso documentário.
        O esforço de Roland Emmerich para rodar seu filme de maneira independente é notável. Se por um lado ele pôde se afastar das interferências criativas dos grandes estúdios, por outro, teve que arcar sozinho com todas as decisões estratégicas, enquanto lidava com os humores dos investidores. Valeu a pena. Apesar de saturado com cenas criadas digitalmente, Midway – Batalha em Alto Mar trouxe à tona um tema relevante, que merece ser conhecido pelo público de hoje: houve uma geração que se opôs ao fascismo, lutou bravamente em defesa da liberdade e venceu!

Resenha crítica do filme Midway – Batalha em Alto Mar

Título original: Midway
Ano de produção: 2019
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Wes Tooke
Elenco: Ed Skrein, Patrick Wilson, Luke Evans, Aaron Eckhart, Nick Jonas, Luke Kleintank, Darren Criss, Keean Johnson, Alexander Ludwig, Brennan Brown, Geoffrey Blake, Jake Manley, Mark Rolston, Jake Weber, Eric Davis, David Hewlett, Dennis Quaid, Woody Harrelson, Brandon Sklenar, James Carpinello, Etsushi Toyokawa, Tadanobu Asano, Jun Kunimura, Peter Shinkoda, Hiromoto Ida, Hiroaki Shintani, Rachael Perrell Fosket, Kenny Leu, Mandy Moore e Dean Schaller

Comentários

Confira também:

Tempestade Infinita: drama real de resiliência e superação

Encontro Marcado: explicando para a morte qual é o sentido da vida

Siga a Crônica de Cinema