Crítica | Caminho da Liberdade: Peter Weir filma o drama de sobrevivência dos que tentaram escapar do comunismo

Caminho da Liberdade: direção de Peter Weir
TRIBUTO ÀS VÍTIMAS DO REGIME STALINISTA
Há muito o ocidente já sabia das atrocidades cometidas por trás da cortina de ferro, mas em 1956 descobriu que havia uma rota de fuga. Foi quando o veterano do exército polonês, Slavomir Rawicz, publicou sua autobiografia intitulada The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom. Ele e outros prisioneiros conseguiram fugir de um gulag em 1940, para depois empreender uma incrível jornada de mais de 6 mil quilômetros; caminharam por meses pela Sibéria, pelo deserto de Gobi e depois pelas montanhas do Himalaia, para finalmente desembocar na Índia. Tal façanha inacreditável exigiu muita determinação em sobreviver e foi narrada no filme Caminho da Liberdade, dirigido por Peter Weir em 2010.
Um filme anticomunista
O livro de Slavomir Rawicz caiu nas mãos de Keith Clarke, roteirista, diretor e produtor de documentários. Ele escreveu uma adaptação para as telas e tentou durante anos vendê-la para vários estúdios e produtoras; despertou o interesse de gente graúda, mas o projeto só vingou quando Peter Weir decidiu dirigi-lo. O diretor australiano, que tem no currículo filmes como Sociedade dos Poetas Mortos, A Testemunha e Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo, envolveu-se afetivamente com a história e enxergou a possibilidade de realizar um filme anticomunista, voltado para o drama pessoal dos que foram injustiçados por aquele regime perverso.
Caminho da Liberdade: Jim Sturgess, Ed Harris e Colin Farreal à frente do elenco
Tudo, no entanto, era uma farsa!
Peter Weir arregaçou as mangas e escreveu um novo tratamento para o roteiro, mas antes, realizou muita pesquisa; entrevistou testemunhas e ouviu especialistas no assunto. Em paralelo, uma equipe da BBC, que também investigava o tema dos gulags, fez uma descoberta incômoda: Slavomir Rawicz jamais fugiu da Sibéria! Na verdade, o polonês foi solto em 1942, como ficou comprovado por meio de documentos oficiais dos soviéticos. Embora a equipe da BBC também tenha descoberto evidências de que outras três pessoas realizaram uma fuga parecida e chegaram na Índia, a notícia da farsa jogou um balde de água fria nos realizadores.
Peter Weir se concentrou no que era verdadeiro
Ao tomar conhecimento, Peter Weir precisou repensar o projeto; decidiu realizá-lo como uma obra de ficção e prestar tributo aos milhões que viveram no inferno dos campos de concentração soviéticos. Convencido de que uma tal caminhada de fato aconteceu, ainda que realizada por outros, mudou o título do filme e recriou os personagens com base nas inúmeras entrevistas que fez. Focalizou o drama de sobrevivência das pessoas comuns que empreenderam uma jornada impensável e fez um filme verdadeiro. Foi fiel aos fatos, mas abandonou a autobiografia de Slavomir Rawicz.
Caminho da Liberdade: Peter Weir realizou um filme de sobrevivência
A sinopse: direto do inferno, passando pelo purgatório
O protagonista de Caminho da Liberdade passou a se chamar Janusz Wieszczek (Jim Sturgess), um oficial do exército polonês acusado de espionagem. Delatado pela própria esposa submetida a torturas, ele foi condenado a 20 anos de trabalhos forçados em um gulag. Lá ele conhece a face do inferno, e também alguns prisioneiros dispostos a correr o risco da fuga: o americano Sr. Smith (Ed Harris), o assassino Valka (Colin Farrell), o artista Tomasz (Alexandru Potocean), o padre Voss (Gustaf Skarsgård), o jovem Kazik (Sebastian Urzendowsky), o contador Zoran (Dragoș Bucur) e o ator Khabarov (Mark Strong). Fugir até que se torna fácil. O problema será percorrer os milhares de quilômetros na neve, depois no calor escaldante do deserto, depois nas montanhas, nas florestas... No caminho a órfã Irena (Saoirse Ronan) se junta aos foragidos, mas o temor é que nem todos consigam chegar ao destino na Índia.Personagens construídos a partir de pesquisas
O personagem americano interpretado por Ed Harris é o único do livro original que foi mantido, mas Peter Weir o construiu para ser uma composição dos cerca de 8 mil americanos que vagavam pela União Soviética naquela época, muitos foragidos da depressão econômica nos Estados Unidos. O criminoso interpretado por Colin Farrell também foi construído a partir de uma entrevista feita pelo diretor com um velho sobrevivente, onde revelou sua complicada história pessoal. Já o personagem vivido por Mark Strong, o ator que foi parar no gulag apenas por ter interpretado um aristocrata, foi baseado numa conhecida história real.

Caminho da Liberdade: esforço sobre-humano para escapar de um gulag
Um drama de sobrevivência
Em Caminho da Liberdade, não acompanhamos uma história convencional sobre fuga da prisão. Nada de planos mirabolantes arquitetados à sombra, nem de carcereiros perversos em perseguições implacáveis. Trata-se de um drama de sobrevivência, onde um grupo de desesperados precisa se ajudar para suportar um desafio sobre-humano. No trajeto, cada personagem se revela e traz à tona camadas e camadas de emoções sufocadas pela insanidade de um cenário político opressor. Já no início somos avisados de que apenas três deles conseguem chegar o seu destino, o que aumenta o clima de tensão. Filmando em locações no Marrocos e na Índia, onde os atores foram expostos aos extremos de temperatura e pressão, Peter Weir conseguiu nos dar uma ideia da façanha impossível que era conseguir escapar de um gulag.O que é, afinal, um gulag?
Ouvi a palavra gulag pela primeira vez quando foi pronunciada em algum telejornal, no começo dos anos 1970; tinha 12 ou 13 anos. Não atinei de imediato para o seu significado, mas passei anos crente que se tratava do nome de um arquipélago na União Soviética – culpa do escritor Aleksandr Soljenítsyn, premiado com o Nobel de Literatura após empreender um esforço sobre-humano para se livrar da vigilância comunista e contrabandear para o ocidente o livro mais bombástico daquela década. Ao entrar na faculdade, descobri que a obra – um calhamaço em três volumes – conta as histórias de centenas de sobreviventes dos campos de concentração soviéticos na Sibéria, para onde eram despachados os... inimigos do povo. Jamais li Arquipélago Gulag, mas compreendi o significado trágico do seu título por meio das resenhas publicadas na imprensa: ilhas de desgraça pontilhadas por toda a gélida Sibéria, batizadas com a sigla em russo GULag, inventada por burocratas para designar os tais campos de trabalho corretivo.
Peter Weir realizou um filme necessário
A história contada por Slavomir Rawicz em sua autobiografia foi uma farsa? Para os cinéfilos interessados em fruir uma boa história, pouco importa! Ao menos ele conseguiu expor a podridão do regime stalinista, que triturou 20 milhões de almas naquele arquipélago de horrores no qual se transformou a Sibéria. Ao menos ele serviu de inspiração para um filme tão necessário como Caminho da Liberdade.Veredito da crônica de cinema
★★★☆☆(3 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura de Peter Weir, a atuação do elenco afiado, a ênfase na narrativa visual e força de uma história contundente.
O que surpreende: com poucos personagens, Peter Weir conseguiu sintetizar o drama de milhões, embora tenha ficado restrito mais ao drama de sobrevivência.
Vale a pena. É cinema bem realizado.
Ficha técnica do filme Caminho da Liberdade
Título original: The Way BackAno de produção: 2010
Título em Portugal: Rumo à Liberdade
Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir e Keith Clarke
Título em Portugal: Rumo à Liberdade
Direção: Peter Weir
Roteiro: Peter Weir e Keith Clarke
Elenco:
- Jim Sturgess
- Ed Harris
- Saoirse Ronan
- Colin Farrell
- Dragoș Bucur
- Alexandru Potocean
- Gustaf Skarsgård
- Sebastian Urzendowsky
- Mark Strong
Olá! Reli a crônica, mas não encontrei a informação de onde pode ser visto. Deve ser excelente!
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