Crítica | O Assassino: David Fincher vem com uma ótima adaptação da famosa HQ francesa e entrega um filme divertido

Cena do filme O Assassino
O Assassino: direção de David Fincher

UM PROTAGONISTA ABJETO, CAINDO EM CONTRADIÇÃO

David Fincher, com seu O Assassino, filme de 2023, nos presenteou com sua versão da graphic novel de mesmo título criada em 1998 pelos franceses Alexis Nolent e Luc Jacamon. Os apreciadores dos quadrinhos ficam na expectativa de respirar a mesma atmosfera intimista que já conhecem. Os cinéfilos, apostam no estilo descolado do diretor e suas provocativas reviravoltas no final. Mas sabe o que o filme consegue matar de verdade? Os paradigmas! Para começo de conversa, trata-se de um filme B, rótulo que os especialistas dão às produções ligeiras, de baixo orçamento e sem o brilho das estrelas consagradas. Mas não isso não é de todo pejorativo: consigo me lembrar de inúmeros filmes B deliciosos, especialmente dos anos 1970 e 1980, que se tornaram cult. Personagens em profundidade? Esqueça! Reflexões filosóficas sobre a vida e a morte? Negativo! É apenas entretenimento, com certo refinamento estético.

Fincher na direção, Kevin Walker no roteiro

        No cinema, um personagem tende a ganhar contornos mais realistas, dada a natureza audiovisual do suporte narrativo. Isso dissolve parte do seu encanto e limita a viagem fantasiosa do espectador. Em O Assassino, o rosto sem traços definidos nos quadrinhos ganha as feições marcantes de Michael Fassbender, enquanto a passagem do tempo, medida em intermináveis segundos, acontece a mando de um diretor sem piedade de abusar da nossa paciência. Mas damos um desconto, afinal, trata-se de David Fincher, que filma o roteiro assinado por Andrew Kevin Walker, que também escreveu Se7en - Os Sete Crimes Capitais.

Cena do filme O Assassino
O Assassino: David Fincher adapta os quadrinhos de Alexis Nolent e Luc Jacamon

O protagonista é uma figura difícil!

        Acontece que o protagonista de O Assassino é um psicopata abjeto. Um criminoso frio e impiedoso. Um sujeito sem conteúdo, que não cultiva sua individualidade e se limita a emitir respostas robóticas, programadas pelo instinto. Alguém a quem jamais teríamos coragem de direcionar nossa empatia. No cinema, um personagem assim está mais para um fardo a ser carregado pelos realizadores. Por isso, as acertadas decisões narrativas tomadas por David Fincher elevaram a qualidade do filme. Antes de falar sobre elas, é melhor estabelecer a sinopse:

A sinopse: o bom e velho desejo de vingança 

        O Assassino flagra um experiente matador de aluguel (Michael Fassbender) de tocaia, em pleno exercício da paciência, enquanto aguarda o momento em que seu próximo alvo estará ao alcance do seu rifle de precisão. Por uma fatalidade, ele erra o tiro, mas consegue escapar. Seu erro, porém, tem consequências. Ele volta para o seu esconderijo só para descobrir que sua namorada quase foi morta em retaliação. Agora só pensa em descobrir a identidade dos culpados e eliminar um por um dos envolvidos. E isso inclui seu advogado (Charles Parnell), uma misteriosa assassina nova-iorquina (Tilda Swinton) e o cliente que encomendou o assassinato frustrado (Arliss Howard).

Cena do filme O Assassino
O Assassino: no cinema, o protagonista sem rosto ficou com a cara de Michael Fassbender

Era para ser um filme lacônico, mas não!

        David Fincher planejou adaptar essa história em quadrinhos em 2007, mas abandonou a ideia depois de se envolver em outros projetos. Em 2019 ele o retomou, sugerindo ao próprio Alexis Nolent que desenvolvesse um roteiro estruturado em cinco atos. Mais tarde o diretor envolveu Andrew Kevin Walker, que aceitou o desafio de escrever um novo tratamento, onde o protagonista teria apenas dez linhas de diálogo durante o filme inteiro. O Assassino, no entanto, não resultou num filme lacônico. Há muito texto, escrito com talento e precisão, para sustentar uma narrativa fluente, ancorada no visual. Depois do primeiro corte bruto, Fincher achou necessário acrescentar mais narração, para construir o personagem e criar a exposição para pôr o espectador a par da trama. O protagonista, porém, não direciona seus pensamentos diretamente para o público; o faz para si mesmo! Em uma ótima sacada criativa do roteirista, ele recita um mantra, que o mantém focado e revela sua obsessão e patológica.

Filosofia barata e The Smiths

        Nos quadrinhos, o texto de Alexis Nolent desvenda a filosofia do matador. Vale-se de citações de diferentes pensadores para refletir sobre a violência, enquanto deixa o visual contar a história. No filme, o texto de Andrew Kevin Walker precisa encontrar o ponto de equilíbrio entre a exposição e o silêncio, para conseguir um resultado natural. O que vemos é o protagonista cair em contradição. Ele trai as próprias crenças e revela que a tal filosofia do matador é só uma conversa para boi dormir! David Fincher deve ter se divertido muito realizando O Assassino, principalmente na hora de acrescentar a trilha sonora infestada de canções da banda The Smiths.

Cena do filme O Assassino
O Assassino: e ainda tem a presença de Tilda Swinton

Moderno, ágil e divertido

        Certo, cinéfilo, você ainda deve estar se perguntando: por que ousei rotular um filme de David Fincher com a letra B? Simplesmente porque não posso colocá-lo no mesmo patamar de obras superlativas como Clube da Luta, Se7en - Os Sete Crimes Capitais, O Curioso Caso de Benjamin Button, Mank ou Vidas em Jogo. E é por causa do conteúdo, não da forma! O Assassino é um ótimo filme, divertido, ágil, moderno e envolvente. E tem a Tilda Swinton fazendo uma aparição magnética e decisiva. É um filme bem acima da média!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção impecável de David Fincher, o roteiro competente de Andrew Kevin Walker, a direção de arte refinada, os efeitos visuais e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: David Fincher é um exímio contador de histórias e manipula a linguagem dos quadrinhos e do cinema com maestria.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme O Assassino

Título original: The Killer
Ano de produção: 2023
Direção: David Fincher
Roteiro: Andrew Kevin Walker

Elenco:
  • Michael Fassbender
  • Tilda Swinton
  • Charles Parnell
  • Arliss Howard
  • Kerry O'Malley
  • Sophie Charlotte
  • Emiliano Pernía
  • Gabriel Polanco
  • Sala Baker
  • Monique Ganderton
  • Daran Norris
  • Jack Kesy

Comentários

  1. Como amei este filme, tão sensível, lindo, cheio de emoções

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