Crítica | O Curioso Caso de Benjamin Button: David Fincher põe as mãos na máquina de Hollywood e faz um filme com visual refinado e carregado de melancolia

Cena do filme O Curioso Caso de Benjamin ButtonO Curioso Caso de Benjamin Button: filme dirigido por David Fincher

TRANSFORMANDO UM CONTO EM CINEMA

Mark Twain, o maior escritor americano do século XIX, certa vez disse: “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente nos aproximar dos 18.” Quem refletiu sobre essa ideia foi outro grande escritor americano, F. Scott Fitzgerald. Em 1922, no livro Tales of the Jazz Age, ele publicou o conto O Curioso Caso de Benjamin Button, onde deu substância à fantasia de nascer velho e morrer jovem. Seu protagonista não caminha contra o relógio, mas segue as leis do mundo físico e do desenvolvimento mental: nasce, aprende, amadurece e morre; seu corpo é que subverte a lógica mundana. Em 2008, O Curioso Caso de Benjamin Button virou filme pelas mãos do diretor David Fincher.

Um projeto antigo

        O projeto circulava há décadas pelos estúdios de Hollywood e passou pelas mãos de vários diretores, como Steven Spielberg e Spike Jonze, sem jamais se concretizar. Pelas lentes de Fincher, a história finalmente vingou; recebeu um tratamento visual refinado, mas sem o impacto de outros filmes de sucesso do diretor, como Se7en – Os Sete Crimes Capitais e Clube da Luta.

Cena do filme O Curioso Caso de Benjamin Button
O Curioso Caso de Benjamin Button: David Fincher mostra suas habilidades digitais

As vantagens da mágica digital 

        David Fincher se recusou a trabalhar com diversos atores para caracterizar o protagonista desde a velhice até a infância; preferiu usar computação gráfica, mas tomou o cuidado de mantê-la subordinada ao contexto dramático. Não usou a tecnologia como mera pirotecnia. Seu filme é introspectivo e convida para a reflexão. Mostra o ciclo da vida de trás para a frente, apenas para reafirmar nossas certezas sobre a mortalidade e a necessidade de buscar a verdade nas dimensões racionais, emocionais e espirituais.

Uma vida invertida

        Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu octogenário, numa Nova Orleans quando a Primeira Guerra Mundial chegava ao fim. Vai parar num asilo, criado com outros velhos e na medida em que consegue andar, primeiro de muletas e depois de bengala, amadurece a mente. O corpo, porém, se fortalece e fica cada vez mais jovem. Benjamin vive uma vida comum: estuda, arranja trabalho, namora, se apaixona, perde entes próximos e queridos, enfrenta suas crises de meia idade e envelhece mentalmente, mas o corpo se infantiliza.

Cena do filme O Curioso Caso de Benjamin Button
O Curioso Caso de Benjamin Button: Brad Pitt e Cate Blanchett em ótimas atuações

Linha narrativa orgânica e fluente 

        A roteirista Robin Swicord escreveu um primeiro tratamento, sob encomenda dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall. Quando David Fincher entrou no projeto, contratou Eric Roth para reescrevê-lo. O roteirista trazia no currículo o ótimo roteiro de Forrest Gump - O Contador de Histórias e mais tarde também escreveria filmes como Munique, Duna e O Assassino da Lua das Flores. Eric Roth impôs sua visão pessoal e expandiu o conto original de F. Scott Fitzgerald. Encontrou na personagem da bailarina Daisy Fuller (Cate Blanchett) o fio condutor para sua narrativa e trilhou o mesmo caminho que inventou para Forrest Gump – é fácil perceber que a história de Benjamin Button seguiu o mesmo fluxo narrativo, mas sem os toques de humor.

Expansão do conto original

        Eric Roth trouxe para O Curioso Caso de Benjamin Button um forte tempero de melancolia, mas soube exercer seu papel de escritor. Deu ao personagem uma mãe adotiva, criou vários outros personagens e inventou um relógio que anda ao contrário, pendurado numa estação ferroviária. E mais importante, começou e terminou sua narrativa com uma Daisy envelhecida, no leito de morte em um hospital em Nova Orleans, que conta para a filha toda a trajetória de Benjamin Button.

Cena do filme O Curioso Caso de Benjamin Button
O Curioso Caso de Benjamin Button: personagens seguindo diferentes linhas de tempo

Criação coletiva

        O Curioso Caso de Benjamin Button é um produto industrial de alta qualidade, resultado da criação coletiva de profissionais competentes. Tudo começou lá atrás, quando escritores que usavam apenas a palavra como matéria-prima vieram com os primeiros lampejos criativos. Outros artesãos precisaram agregar soluções técnicas revolucionárias para materializá-los em uma obra audiovisual. Da escalação do roteirista à escolha do elenco e da equipe de efeitos digitais, tudo funcionou como um relógio. Embora não se trate propriamente cinema autoral, vemos que David Fincher conseguiu imprimir sua marca – ainda que o filme não tenha ficado tão incômodo e visceral como percebemos em suas obras mais icônicas.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de David Fincher, o roteiro bem costurado de Eric Roth, as atuações de Brad Pitt e Cate Blanchett e os efeitos visuais caprichados.

O que surpreende: apesar da abordagem fantasiosa, os realizadores não se perdem em pirotecnias digitais; focalizam o drama dos personagens e expõem suas camadas psicológicas.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técica do filme O Curioso Caso de Benjamin Button

Data de produção: 2008
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth

  • Elenco:
  • Brad Pitt
  • Cate Blanchett
  • Taraji P. Henson
  • Julia Ormond
  • Jason Flemyng
  • Jared Harris
  • Tilda Swinton

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