Vidas em Jogo: thriller envolvente com a grife David Fincher

Cena do filme Vidas em Jogo
Vidas em Jogo: direção de David Fincher

O JOGO MAIS ESTIMULANTE É AQUELE ENTRE O DIRETOR E O ESPECTADOR

Onde estava em 1997? Deixe-me ver... Estava aqui mesmo, em Curitiba. Ocupado demais tentando ganhar a vida numa agência de publicidade que acabara de fundar com outros dois sócios. A paixão pelo cinema estava em segundo plano, dadas as circunstâncias estressantes – a ousadia de virar empresário cobrava seu preço e os filmes viraram artigo de luxo, presentes apenas nos poucos momentos em que podia relaxar. Numa época sem internet e com a TV a cabo recém-nascida, acompanhar as novidades do cinema era uma dificuldade. Por isso não assisti a Vidas em Jogo, dirigido naquele ano por David Fincher. Por isso nem sequer tomei conhecimento da existência desse filme.
        – Mas que cinéfilo de araque – diriam os enciclopédicos, diante das minhas desculpas esfarrapadas. Ao invés disso, prefiro dizer que sou um cinéfilo redimido! Dia desses, zapeando pelo serviço de streaming, tropecei no título e tive a felicidade de conferir essa preciosidade. É um grande filme, com qualidades inquestionáveis, ainda que considerado uma obra menor do diretor. Realizado logo depois de Se7en - Os Sete Crimes Capitais e logo antes de Clube da Luta, Vidas em Jogo ficou no meio do caminho, parecendo um título menos inovador, menos ousado e menos provocativo, atributos que se tornaram obrigatórios em se tratando da grife David Fincher.
        Bobagem! Está tudo lá: a atmosfera onírica, a tensão permanente, as confusões mentais, a total incerteza quanto aos rumos da história... Só faltaram as aberrações morais beirando o escatológico. Talvez porque Fincher tenha preferido enveredar por caminhos mais... convencionais. Vidas em Jogo é um thriller claramente inspirado nos filmes do mestre Alfred Hitchcock e por isso mesmo resulta palatável e agradável de se assistir. Em termos, porque a agonia de não poder confiar em personagem algum e jamais saber onde está a verdade é de fazer ranger os dentes! Antes de explicar esse ponto, será preciso examinar a sinopse:
        Vidas em Jogo conta a história de Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um banqueiro endinheirado que está prestes a completar 48 anos, a mesma idade que seu pai tinha quando se suicidou pulando do telhado da mansão. A data, portanto, tem significados perturbadores. Para comemorar, seu irmão, Conrad (Sean Penn), surge com um presente inusitado: um ingresso para participar de um jogo supostamente espetacular, disponível apenas para jogadores exclusivos, que será capaz de tirar o aniversariante do marasmo emocional em que se encontra. O jogo é organizado por uma empresa chamada CRS – Consumer Recreation Services, mas Nicholas não é informado do que se trata exatamente. Ainda assim, talvez por curiosidade e certamente por vaidade, decide aceitar. As situações estranhas não tardam a acontecer. De súbito elas se tornam absurdas e depois, desesperadoras. A vida de Nicholas é virada do avesso, tudo em nome do tal jogo. Quando ele se envolve com a sedutora Christine (Deborah Kara Unger), as complicações só aumentam, na mesma proporção das suas dúvidas: afinal, do que se trata esse tal jogo?
        O excelente roteiro de Vidas em Jogo foi escrito em 1991 pela dupla John Brancato e Michael Ferris – mais tarde assinariam os roteiros de sucessos comerciais como A Rede, O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas e Substitutos. Quando o filme finalmente entrou em produção, ganhou a adesão de David Fincher, que chamou Andrew Kevin Walker, o roteirista de Se7en, para fazer intervenções não creditadas no texto. O resultado foi brilhante! O ritmo da narrativa é acelerado e preciso, apresentando inúmeras reviravoltas, numa sequência de tirar o fôlego. As linhas de diálogo seguem com elegância, sem se perder em propósitos expositivos, o que só aumenta o clima de mistério e cria suspense na medida certa para pontuar as cenas de ação.
        Mas os méritos de David Fincher, que conseguiu tirar essa trama do papel e materializá-la em um filme empolgante, são ainda maiores. Com seu notável domínio da linguagem cinematográfica, o diretor transformou Vidas em Jogo em um thriller relevante e original. A fotografia em cores esmaecidas, assinada por Harris Savides, ressalta as tomadas noturnas, intensificado a atmosfera sombria. A trilha sonora de Howard Shore conduz as emoções do espectador, nos moldes do que ouvíamos nos filmes de Hitchcock, mas permanece sutil a ponto de passar despercebida e deixar apenas uma sensação... enervante. O visual bem cuidado, com planos e movimentos de câmera sempre elaborados, ajuda a contar a história e a manter o espectador envolvido. E a sequência de abertura, com cenas de filmes caseiros mostrando a infância do protagonista em seu momento mais marcante, é de um preciosismo gráfico notável. De cara denuncia a sensibilidade artística do diretor.
        É claro que, durante todo o filme, as perguntas que martelaram na minha cabeça foram aquelas que o diretor me induziu a fazer: do que consiste, afinal, esse tal jogo? Existe algum personagem confiável? Como o protagonista conseguirá sobreviver? Será que a verdade aparecerá no final? Depois do filme, porém, só uma pergunta continuou me incomodando: como posso ter ficado sem assistir a esse filme por tantos anos? Como você sabe, caro leitor, arranjei um monte de desculpas. Mas, e quanto a você? O que estava fazendo em 1997? Qual é o seu álibi?

Resenha crítica do filme Vidas em Jogo

Título original: The Game
Título em Portugal: O Jogo
Ano de produção: 1997
Direção: David Fincher
Roteiro: John Brancato e Michael Ferris
Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, James Rebhorn, Deborah Kara Unger, Peter Donat, Carroll Baker, Armin Mueller-Stahl, Anna Katarina, Charles Martinet, Mark Boone Junior, Tommy Flanagan, Spike Jonze, Linda Manz e Daniel Schorr

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