Clube da Luta: é lutando que aprendemos nessa vida!


Clube da Luta: dirigido por David Fincher

LUTANDO PARA PREENCHER O VAZIO EXISTENCIAL

Escolhi a publicidade para minha profissão. Isso foi aos 18 anos, quando ainda não sabia exatamente onde estaria me metendo, mas tinha plena noção do que a publicidade representava: era a atividade motora do capitalismo e da sociedade de consumo, responsável por criar no consumidor a necessidade de consumir, para em seguida vender as soluções para as necessidades que ele nem sabia que tinha. Mas esse não era um jogo sujo. Não mesmo! Naquele tempo, o consumidor sabia exatamente quando estava sendo abordado por mensagens publicitárias. Elas chegavam pelos comerciais de rádio e TV, pelas páginas dos jornais e revistas, pelas placas na rua, pelas ações de merchandising nas telenovelas... Hoje, nos meios digitais, informação e persuasão estão de mãos dadas e nem sempre a publicidade se mostra explícita.
        Conhecer por dentro o mecanismo astuto da publicidade não me imunizou dos seus efeitos. Lembro que certa vez, quando já contava duas semanas tentando parar de fumar, dei de cara com um anúncio de cigarros numa revista e fui apresentado a uma argumentação sólida e definitiva de que, como dono do meu próprio nariz, não deveria ceder às pressões da sociedade para largar o vício. Foi o que bastou para ter uma recaída. Ah, essas pressões sedutoras das mensagens publicitárias sobre o consumidor são perversas há décadas. Compre isso, leia aquilo, alugue, venda, revenda, não perca, aproveite! A noção de que precisamos ter tudo, para só então alcançar a felicidade, tem angustiado gerações. As últimas novidades, os lançamentos da temporada, as próximas tendências... Em muitos, esse bombardeio só faz aumentar o vazio existencial. É tentando preenchê-lo a todo custo que o narrador de Clube da Luta, filme de 1999 dirigido por David Fincher, começa a viver um drama e tanto. O personagem sem nome interpretado por Edward Norton desenvolve um arco dramático impressionante e sua história culmina num ponto de virada que deixa qualquer espectador boquiaberto.
    Clube da Luta parte dos efeitos que a sanha consumista gera em um homem comum, para começar a vasculhar seu mundo interior. O personagem trabalha para uma companhia de seguros, viaja por todos os Estados Unidos e vive cercado pelo conforto moderno, mas sua angústia provoca uma insônia que o está destruindo. Busca ajuda em diferentes grupos de apoio, fingindo ter outras doenças. Está fazendo progresso, mas conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter), que também se faz de doente, o que o leva a regredir com a insônia. Então, durante um voo, conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um sujeito que fabrica e vende sabonetes. Os dois se tornam amigos e quando se encontram novamente, terminam lutando por iniciativa de Tyler. A violência física é catártica e tem efeitos estimulantes no personagem. Em pouco tempo ele se une a Tyler para formar um clube clandestino de lutas, que vai ganhando adeptos, vai ganhando dimensão nacional e vai revelando um lado inesperado e surpreendente do personagem.
        O filme foi baseado no romance Clube da Luta, escrito em 1996 por Chuck Palahniuk, contando uma história que ele arrancou das entranhas. A adaptação para o cinema, feita por Jim Uhls, conseguiu manter toda a carga emocional e resultou num roteiro brilhante, que David Fincher filmou, como já havia feito em Se7en: Os Sete Crimes Capitais, com requintes de excelência audiovisual. É um filme impressionante.
        A narrativa é conduzida por um narrador onisciente, mas que parece não saber com exatidão o que está acontecendo. Em pouco tempo o espectador está por conta própria e não tem certeza sobre quais rumos – ou descontroles – a história tomará. Mas embarca em uma proposta anarquista e sedutora, que instiga reflexões sobre o funcionamento da sociedade, investiga a natureza das nossas relações e expõe comportamentos libertários e transgressores. O ímpeto do homem comum em conjugar o verbo ter na hora de apresentar sua identidade ao mundo fica escancarado. A violência como válvula de escape vira uma desculpa esfarrapada – não é louvada no filme. O personagem vai ficando sem saída e termina indo de encontro a uma realidade tão sólida quanto dolorosa.
        Na versão para o cinema, David Fincher preferiu um final mais otimista. O personagem mostra força de vontade e encontra dentro de si a motivação necessária para seguir lutando. Já o livro dá margem a um vasto universo de possibilidade e resultou em continuações nas histórias em quadrinhos. Mas os fãs de Clube da Luta ainda não foram brindados com a tão sonhada continuação.
        Quanto ao mundo da publicidade e suas consequências na psique do homem contemporâneo, bem... Ela continua a mesma, como naquele último ano do século XX, mas agora entranhada nas redes sociais, nos canais de vídeo e nos aplicativos para celulares. Está mais subliminar e eficiente do que nunca. Segue movendo o mundo capitalista, girando a roda da economia e criando necessidades que ainda nem sabemos que existem dentro de nós. Quanto ao vazio existencial, cada indivíduo tem a liberdade de preencher como bem entender.
        Ah, e quanto ao tabagismo, dei um fim nele! Faz mais de 15 anos que não fumo – por coincidência, o mesmo período de tempo em que os anúncios e comerciais de cigarros foram banidos da mídia.


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: Clube da Luta


Ano de produção: 1999
Direção: David Fincher
Roteiro: Jim Uhls
Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Rachel Singer, Eion Bailey, Jared Leto e Peter Iacangelo

Comentários

  1. Reagi até hoje em assistir esse filme, não gosto de violência física entre seres humanos. Mas diante de seu brilhante comentário sobre a obra e na sequência, o filme, vou conferir. Abraço…

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    Respostas
    1. Ah, Julio, espero que goste do filme. Depois de conferir, não deixe de contar sua opinião!

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