Crítica | O Infiltrado: Guy Ritchie faz um remake hollywoodiano de um filme francês, mas erra no tempero. Faltou profundidade emocional

O Infiltrado: direção de Guy Ritchie
FURIOSO E ENVOLTO EM MISTÉRIOS
O diretor inglês Guy Ritchie é um craque dos filmes de ação e não tem medo de experimentar novidades. Notabilizou-se pelo estilo extravagante, que o projetou quando lançou o ótimo Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e depois em Sherlock Holmes, O Agente da U.N.C.L.E. e O Pacto, entre outros. A presença do seu nome nos créditos de O Infiltrado, filme que dirigiu em 2021, foi motivo suficiente para pôr a pipoqueira para funcionar e acomodar-me no sofá diante da TV, à espera de ótimo entretenimento. Ele veio, mas a mistura de ingredientes que degustei não trouxe o refinamento que esperava.
Nem tão superficial, nem tão profundo
O Infiltrado marca a quarta colaboração entre o diretor Guy Ritchie e Jason Statham, o astro dos filmes de ação que costuma atuar em uma diversidade de filmes – alguns de qualidade sofrível. Aqui, porém, a dupla abandonou o tom de comédia e buscou uma abordagem mais sombria; os adolescentes que esperam mais do mesmo, acharão o filme complicado e confuso. Os cinéfilos mais exigentes sentirão falta de profundidade no protagonista, que jamais se expõe para além das emoções primárias.
O Infiltrado: Guy Ritchie faz o remake de um filme francês
Habilidades extraordinárias e segredos inconfessos
A ideia para o filme partiu de Guy Ritchie, depois que ele assistiu ao filme francês Le Convoyeur, dirigido por Nicolas Boukhrief em 2004. O diretor percebeu a oportunidade de realizar um remake com sotaque hollywoodiano e escreveu o roteiro; mais tarde, convocou seu amigo Jason Statham para definir a caracterização do protagonista. Mas antes de entrar em detalhes, é preciso estabelecer a sinopse de O Infiltrado: o filme conta a história do misterioso Patrick Hill, chamado apenas de H. Ele começa a trabalhar para uma companhia de transporte de valores que teve dois de seus vigilantes assassinados dois meses antes, durante um trágico assalto. Acontece que H tem habilidades extraordinárias e na medida em que impede outros assaltos ousados – e se torna um herói para seus colegas – percebemos que ele está no novo emprego com segundas intenções e usará de toda a violência que puder para alcançar seus objetivos.Guy Ritchie apimentou a história original
O Infiltrado apenas parte da premissa estabelecida no filme francês que o inspirou. Lá o protagonista é um sujeito comum, sem habilidades militares, que tenta descobrir quem é o infiltrado que facilitou a ação dos assaltantes de carros blindados; aqui, ele é... Jason Statham, um homem misterioso, com passado explosivo e moral duvidosa, capaz de atos extremos. Os assaltantes, por sua vez, são militares treinados, desprovidos de escrúpulos e capazes de ousadias insanas. O que Guy Ritchie fez, com a ajuda de seus corroteiristas, Marn Davies e Ivan Atkinson, foi elevarar a octanagem da história. Transformaram O Infiltrado em um thriller de vingança, onde o espectador não sabe para quem torcer – apenas pode escolher entre os que parecem menos malvados.
O Infiltrado: Jason Statham: a mesma estampa de tantos outros filmes de ação?
Faltou profundidade emocional
As habilidades narrativas do diretor nos levam a construir empatia por H, na medida em que os detalhes da sua trajetória são expostos em doses homeopáticas, com flashbacks e flashfowards explicativos, mas dramaticamente pertinentes. Essa narrativa não linear deixa a história intrigante e traz uma certa elegância ao filme, mas o ar de mistério em torno do protagonista é tão denso que jamais temos certeza de quem ele realmente é, ou a que tribo pertence. Senti falta de profundidade emocional em H, um homem tão corroído pelo desejo de vingança, que terminou desprovido de qualquer grandiosidade; refiro-me àquele tipo de personalidade impulsiva, porém contida por fortes princípios éticos e morais, que encontramos nos clássicos de ação dos anos 1970, principalmente os estrelados por Clint Eastwood.
Valores éticos e entretenimento
Você sabe a que tipo de filme e refiro: aquele em que o diretor pega um mote envolvente, concentra-se na essência do protagonista e destaca os elementos dramáticos que desencadeiam a ação. Depois, recheia seu filme com os ingredientes que todos os amantes do gênero esperam degustar: tiros, lutas, perseguições, trombadas, explosões... E ainda tempera com suspense, romance, mistério, sensualidade e pitadas de humor. Mas há limites: excesso de abordagem psicológica, visitações ao mundo interno dos personagens e complicações narrativas descaracterizam a obra. O diretor pode acabar com um drama denso nas mãos, aborrecido para quem só quer um pouco de entretenimento.

O Infiltrado: um protagonista sem profundidade emocional
Tudo acabou em pizza!
É claro que Guy Ritchie conhece muito bem essa receita. Aliás, tentou trazer um pouco da aura de Clint Eastwood para O Infiltrado; recrutou seu filho, Scott Eastwood, que interpreta um dos assaltantes – o mais psicopata deles! Mas não foi suficiente. Meu veredito? Seu filme é esquecível. Guy Ritchie é um diretor habilidoso, sabe lidar com os clichês e os usa com criatividade, mas aqui ele nos serviu uma pizza com textura pastosa. Adicionou ingredientes demais, que escorreram pela massa e não a deixaram crocante. Preferia que predominasse o sabor de um protagonista melhor desenvolvido.
Veredito da crônica de cinema
★★☆☆☆(2 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de Guy Ritchie, as cenas de ação bem realizadas e a estampa de Jason Statham forjada nos filmes de ação.
O que decepciona: o excesso de mistério em torno do protagonista o deixou sem contornos visíveis e sem definições éticas e morais. Ficou só o sentimento de vingança.
Medíocre. Não entrega o que promete.
Ficha técnica do filme O Infiltrado
Título original: Wrath of ManTítulo em Portugal: Um Homem Furioso
Ano de produção: 2021
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Ivan Atkinson e Marn Davies
Elenco:
- Jason Statham
- Holt McCallany
- Jeffrey Donovan
- Josh Hartnett
- Laz Alonso
- Raúl Castillo
- DeObia Oparei
- Eddie Marsan
- Scott Eastwood
- Darrell D'Silva
- Babs Olusanmokun
- Chris Reilly
- Andy García
- Niamh Algar
- Eli Brown
- Rob Delaney
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