Crítica | O Dorminhoco: ainda bem que descongelaram o judeu novaiorquino neurótico errado! Inundaram o filme com piadas politicamente incorretas

O Dorminhoco: direção de Woody Allen
UM OLHAR NOSTÁLGICO PARA O FUTURO
Nesses dias surrados de tanta pós-modernidade, os humoristas pisam em ovos. Tentam aliviar o peso exorbitante das regras de etiqueta e fazem um humor cauteloso, insosso e genérico. Há meio século, o cardápio era outro: ácido, provocativo, espontâneo, constrangedor, zombeteiro... Exatamente como podemos degustar em O Dorminhoco, filme de 1973 dirigido por Woody Allen – o quarto filme realizado pelo diretor, numa época em que estava empenhado apenas em ser reconhecido como um dos melhores comediantes americanos.
Um distopia futurista hilariante
O Dorminhoco é uma comédia farsesca, que flerta abertamente com o pastelão, mas vem salpicada com uma infinidade de piadas inteligentes, disparadas em ritmo veloz. A história é ambientada no futuro e mostra como Miles Monroe (Woody Allen), um clarinetista amador que se reveza entre o jazz e a administração da sua loja de alimentos naturais, vai parar num hospital para se submeter a uma cirurgia simples; acaba congelado, submetido a métodos criogênicos.

O Dorminhoco: Woody Allen enverada pelos becos das distopias
O infeliz só acorda 200 anos depois, por obra de cientistas desesperados: como é o único humano sem identidade biométrica rastreável, poderá ajudar um grupo de rebeldes a derrubar o governo despótico, exercido por um big brother totalitário. Miles se mete em uma distopia futurista recheada de confusões revolucionárias e se envolve emocionalmente com a socialite Luna Schlosser (Diane Keaton), mas terá que disputá-la com Erno Windt (John Beck), o líder rebelde.
Ninguém é poupado
O roteiro de O Dorminhoco foi escrito por Woody Allen em colaboração com Marshall Brickman – humorista com grande experiência na televisão e que também colaborou nos roteiros de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Aqui, porém, a dupla ficou à vontade para desfiar uma escrachada crítica social, enquanto cutucam os temas espinhosos da política, dos costumes e da cultura – os espectadores mais sensíveis ficarão horrorizados e por certo encontrarão algum bolor nas piadas, que não poupam nada nem ninguém. O filme também faz referências diretas a outras distopias, como 1984 e Fahrenheit 451, mas consegue extrair comicidade de onde elas só irradiam drama e aflição.
O Dorminhoco: politicamente incorreto, como deveria ser!
Pastelão modernizado
Ao ambientar O Dorminhoco no longínquo ano de 2173, Woody Allen conseguiu enveredar por um estilo visual limpo e elegante, que lhe permitiu desenvolver uma comédia mais identificada com a performance dos grandes clássicos do humor, como Charlie Chaplin e Buster Keaton. Sua comédia pastelão, entretanto, é moderna e sofisticada; seu consagrado senso de humor irônico irradia inteligência e abre espaço para que o judeu novaiorquino neurótico, que reconhecemos de outros filmes, continue nos arrancando boas risadas.Um futuro governado pela ignorância
Nos cartazes promocionais de O Dorminhoco, podemos ler que “Woody Allen lança um olhar nostálgico para o futuro”. É o que o diretor insinua ao utilizar uma trilha sonora pontuada por jazz ao estilo ragtime e um visual acelerado, inspirado nas pantomimas do cinema mudo. Mas a sociedade futurista que ele desenha chafurda em melancolia: o que vemos são máquinas de orgasmo, robôs gays, casas impessoais e desprovidas de aconchego, traquitanas tecnológicas desnecessárias... Há 50 anos ele achou que o futuro seria governado pela ignorância, pela mentalidade coletivista padronizada, pelo hedonismo e pela futilidade. Parece que suas previsões estão se realizando, 150 anos antes do que ele pensava!
O Dorminhoco: humor pastelão com ótimas performances
Voltar ao passado para dar boas risadas
Como foi que deixamos o mundo ficar tão aborrecido? Reduzimos o espaço reservado ao humor e permitimos que a rabugice politicamente correta se esparramasse pelos vasos comunicantes da cultura popular; sobrou apenas a sisudez dos conteúdos que se levam a sério demais e não admitem críticas nem julgamentos. A mídia mainstream se esqueceu como se faz sátira, blague, paródia, humor negro, pastelão, stand-up... Ficou apenas com as comédias infantilizadas, com tiradas picantes, bordões manjados e escatologias apelativas... Hoje em dia, fazer humor é perigoso: no Brasil, dá até cadeia! Quem se atreve a ser humorista precisa, antes de tudo, acertar-se com um bom advogado – ou mais eficientemente, com algum juiz poderoso!
Veredito da crônica de cinema
★★★☆☆(3 / 5 estrelas)
O que brilha: o roteiro inteligente, a direção espontânea de Woody Allen, o visual criativo e o excelente trabalho dos atores.
O que surpreende: ainda que algumas piadas tenham criado bolor, a fórmula dos esquetes entrelaçados continua funcionando muito bem.
Vale a pena. É um ótimo entretenimento.
Ficha técnica do filme O Dorminhoco
Título original: SleeperTítulo em Portugal: O Herói do Ano 2000
Ano de produção: 1973
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman
Elenco:
- Woody Allen
- Diane Keaton
- John Beck
- Mary Gregory
- Don Keefer
- John McLiam
- Bartlett Robinson
- Chris Forbes
- Mews Small
- Peter Hobbs
- Susan Miller
- Lou Picetti
- Jessica Rains
- Brian Avery
- Spencer Milligan
- Stanley Ralph Ross
- John Cannon
- Myron Cohen
Gostei muito da CRÔNICA, texto bem redigido, faz-me querer procurar o filme para assistir. OBG.
ResponderExcluirQue bom que gostou da crônica e fico feliz com o seu feedback positivo. Vale a pena conferir esse filme!
Excluir"O Dorminhoco" é mais uma entre inúmeras releituras - pelo cinema e pela tv - do conto "Hip Van Winkle" de Washington Irving publicada originalmente em 1819. Nesse conto da época das colônias, antes da independência dos EUA, o personagem que da titulo a historia sai de seu povoado e se aventura por uma floresta para caçar e acaba dormindo por muitos anos. Então acorda e vê um mundo totalmente mudado ao voltar para sua comunidade que o considerava morto. Entre outras coisas descobre que não se reverencia mais ao rei e que o pais é liderado por um presidente. Esta historia (que na verdade foi uma adaptação de antigas lendas de outros países- das quais o autor tomou conhecimento) já inspirou a muitos filmes. Foi dramatizada em um interessante episodio da serie "Teatro De Contos De Fadas"("Faerie Tale Theatre") dirigido por Francis Ford Coppola . Foi parodiada em episódios de series clássicas da tv como "Os Flintstones". E até inspirou releituras em estilo de ficção cientifica com o conceito de "criogenia "-como é o caso dessa comedia de Woody Allen. Penso que também serviu de inspiração para um certo filme de ficção cientifica - que combinou elementos de ação policial e comedia - do qual eu gostei muito :"O Demolidor"("Demolition Man") de 1993 Com Sylvester Stallone, Wesley Snipes e Sandra Bullock dirigido por Marco Brambilla. (Esse filme - que é subestimado por muitos que o consideram um filme banal de ação e "pancadaria" - a meu ver é muito subestimado sendo uma obra inteligente e repleta de referencias culturais engraçadas ao "Admirável mundo novo" de Aldous Huxley e outros ícones culturais). O filme de Allen é uma das minhas comedias favoritas desse diretor. Apenas lamento algumas piadas apelativas de péssimo gosto que eu preferia que não tivessem sido incluídas. Como a referencia injusta e pornográfica ao pregador Billy Graham insinuando uma ligação homossexual com Jesus Cristo. Uma piada totalmente ruim e forçada que não teria feito nenhuma falta. Allen infelizmente é um ateu que de tempos em tempos gosta de ridicularizar as religiões em seus trabalhos. Todavia -um grande filme. Criativo e engraçado e um dos melhores desse diretor -o qual hoje está com uma imagem um tanto desgastada pelas acusações de pratica de pedofilia por sua ex-esposa Mia Farrow.
ResponderExcluir"O Dorminhoco" é mais uma entre inúmeras releituras pelo cinema e pela tv do conto "Hip Van Winkle" de Washington Irving publicada originalmente em 1819. Nesse conto da época das colônias antes da independência dos EUA o personagem que da titulo a historia sai de seu povoado e se aventura por uma floresta para caçar e acaba dormindo por muitos anos. Então acorda e vê um mundo totalmente mudado ao voltar para sua comunidade que o considerava morto. Entre outras coisas descobre que não se reverencia mais ao rei e que o pais é liderado por um presidente. Esta historia (que na verdade foi uma adaptação de antigas lendas de outros países as quais o autor tomou conhecimento) já inspirou a muitos filmes. Foi dramatizada em um interessante episodio da serie "Teatro De Contos De Fadas"("Faerie Tale Theatre") dirigido por Francis Ford Coppola . Foi parodiada em series clássicas da tv clássicas como "Os Flintstones". E até inspirou releituras em estilo de ficção cientifica com o conceito de "criogenia "como é o caso desssa comedia de Woody Allen. Penso que também serviu de inspiração para o filme de ficção cientifica que combinou elementos de ação policial e comedia do qual eu gosto muito :"O Demolidor"("Demolition Man") de 1993 Com Sylvester Stallone, Wesley Snipes e Sandra Bullock dirigido por Marco Brambilla. (Esse filme que é vistos por muitos como um filme banal de ação e pancadaria a meu ver é muito subestimado sendo uma obra inteligente e repleta de referencias culturais engraçadas ao "Admirável mundo novo" de Aldous Huxley e outras referencias culturais. O filme de Allen é uma das minhas comedias favoritas desse diretor. Eu apenas lamento algumas piadas apelativas de péssimo gosto que eu preferia que não tivessem sido incluídas como a referencia injusta e pornográfica ao pregador Billy Graham insinuando uma ligação homossexual com Jesus Cristo. Uma piada totalmente ruim e forçada. Allen infelizmente é um ateu que de tempos em tempos gosta de ridicularizar as religiões em seus trabalhos. Todavia -um grande filme. Criativo e engraçado e um dos melhores desse diretor-o qual hoje está com uma imagem um tanto desgastada pelas acusações de pratica de pedofilia por sua ex-esposa Mia Farrow.
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