Crítica | A Morte Lhe Cai Bem: Robert Zemeckis fez um filme divertido, repleto de humor negro e computação gráfica. E o melhor: continua atual e provocativo

Cena do filme A Morte lhe Cai Bem
A Morte lhe Cai Bem: direção de Robert Zemeckis

UM FILME À FRENTE DO SEU TEMPO!

Em 1992, Robert Zemeckis dirigiu A Morte lhe Cai Bem, na esteira do sucesso estrondoso alcançado por seus filmes anteriores, Forrest Gump, Náufrago e a trilogia De Volta Para o Futuro. Disposto experimentar uma temática mais ousada, decidiu se embrenhar no universo peculiar das estrelas de cinema, onde tudo gira em torno da beleza; realizou uma comédia ácida e inteligente, carregada de humor negro, frases de efeito e tiradas sagazes, que muitos críticos não acharam nada engraçadas.

A carapuça serviu!

        A Morte lhe Cai Bem foi massacrado pela crítica na época do seu lançamento. A inveja destrutiva e a superficialidade asquerosa das protagonistas, que só fazem cultivar uma rivalidade regida pela competição desleal, talvez tenham servido de carapuça para os que circulam com naturalidade pelo habitat hollywoodiano. Torceram o nariz! Pode ser, eventualmente, que as bizarrices góticas geradas por meio de uma computação gráfica ainda em seus primórdios, tenham ferido suscetibilidades entre a crítica mainstream. Digo isso porque, depois de revisitar esse filme há poucos dias, não vi deméritos que justificassem os altos índices de rejeição; ao contrário, as qualidades da produção são evidentes.

Cena do filme A Morte lhe Cai Bem
A Morte lhe Cai Bem: Zemeckis mira certeiro nas futilidades das estrelas de Hollywood

Vale a pena lembrar da sinopse:

        A Morte lhe Cai Bem é sobre Madeline Ashton (Meryl Streep), uma atriz decadente que experimentou seu auge em grandes musicais da Broadway. Ela reencontra a velha rival e aspirante a escritora, Helen Sharp (Goldie Hawn), que está prestes a se casar com o cirurgião plástico, Ernest Menville (Bruce Willis). Depois que Madeline lhe rouba o noivo, Helen termina numa clínica psiquiátrica, gorda e deprimida. Sete anos depois, o casal apaixonado passa por uma crise: Madeline está angustiada com os efeitos do envelhecimento e Ernest virou um alcoólatra sem motivação pela vida.

Cena do filme A Morte lhe Cai Bem
A Morte lhe Cai Bem: Bruce Willis e Merryl Streep em ótimas atuações

        Eis que Helen ressurge na vida dos dois, mais jovial e esfuziante do que nunca. Tomada pela inveja, Madeline bebe uma poção mágica fornecida pela misteriosa Lisle von Rhuman (Isabella Rossellini), uma octogenária que se diz especialista em rejuvenescimento. Agora, embriagada pela perspectiva da vida eterna e sempre jovem, Madeline ganha motivação para retomar o casamento, mas vai esbarrar na conspiração tramada entre Helen e Ernest. Também terá que lidar com os estranhos efeitos colaterais da imortalidade.

Como celebridades na Revista Caras

        Eis aqui um filme que não envelheceu! A temática da beleza epidérmica – incluindo todas as bizarrices que alguns são capazes de fazer para permanecer jovens e sedutores – continua atual. A diferença é que, naqueles idos de 1992, acompanhávamos tudo pela Revista Caras, aquela publicação semanal onde as estrelas e celebridades disputavam  espaço – num mundo sem celulares e sem redes sociais, era como se bisbilhotava a vida alheia. Com a internet, o jogo virou: todo mortal pode manter a pose e se camuflar de famoso; é fácil se deparar com as Madelines e Helens obcecadas pela juventude eterna. Não sei o diretor Robert Zemeckis anteviu essa distopia, mas o fato é que em A Morte lhe Cai Bem ele soube explorar as camadas mais inusitadas dos seus personagens. Combinou o domínio da linguagem cinematográfica com um senso de humor inteligente e sagaz.

Cena do filme A Morte lhe Cai Bem
A Morte lhe Cai Bem: Goldie Hawn com o acabamento da computação gráfica

Zemeckis ampliou o orçamento do projeto

        O roteiro de A Morte lhe Cai Bem foi escrito pelo experiente Martin Donovan, em parceria com o estreante David Koepp – aqui ele contava apenas 27 anos, mas depois pôs sua assinatura em arrasa-quarteirões, como Jurassic Park, Missão Impossível e Guerra dos Mundos. O que era para ser um filme de baixo orçamento tornou-se uma produção endinheirada quando Zemeckis decidiu assumir a direção; ele trouxe consigo a equipe da Industrial Light and Magic, responsável pelos mesmos efeitos de computação gráfica que no ano seguinte encantaria o público com os dinossauros verossímeis no filme de Spielberg.

No final, uma mensagem edificante

        A Morte lhe Cai Bem é um produto da azeitada máquina hollywoodiana. Partiu de um roteiro bem escrito, contou com o talento de um diretor visionário e serviu de palco para ótimas atuações – o elenco se esbaldou com o texto preciso e os diálogos afiados. E no final das contas, nos deixa uma mensagem edificante: as protagonistas, carcomidas pela inveja, pela luxúria e por outros pecados capitais, não terminam bem. A beleza e jovialidade não conseguem suprir a falta de conteúdo por muito tempo. Um dia, a casa cai!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Robert Zemeckis, o roteiro impecável, o excelente trabalho de atores, a direção de arte refinada, a trilha sonora envolvente e a narrativa ágil.

O que surpreende: os temas da beleza fútil e da busca pela eterna juventude estão mais populares do que nunca, preservando a atualidade do filme.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme A Morte Lhe Cai Bem

Título original: Death Becomes Her
Título em Portugal: A Morte Fica-Vos Tão Bem
Ano de produção: 1992
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Martin Donovan e David Koepp

Elenco:
  • Meryl Streep
  • Goldie Hawn
  • Bruce Willis
  • Isabella Rossellini
  • Ian Ogilvy
  • Adam Storke
  • Alaina Reed Hall
  • Michelle Johnson
  • Mary Ellen Trainor
  • Nancy Fish
  • Susan Kellermann
  • William Frankfather
  • John Ingle
  • Debra Jo Rupp
  • Danny Lee Clark
  • Sydney Pollack

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