Guerra dos Mundos: releitura de um clássico da ficção científica

Cena do filme Guerra dos MundosGuerra dos Mundos: filme dirigido por Steven Spielberg

E ASSIM, A FICÇÃO CIENTÍFICA VIROU GÊNERO LITERÁRIO

Baseado no clássico da ficção científica escrito por Herbert George Wells  publicado pela primeira vez em 1897, na Inglaterra  o filme Guerra dos Mundos, dirigido em 2005 por Steven Spielberg, foi realizado para ser um arrasa-quarteirão. Podemos dizer que é fruto da parceria do diretor com o ator Tom Cruise, nascida durante a realização do sucesso comercial Minority Report – A Nova Lei. O astro de Hollywood e o cineasta especializado em... extraterrestres decidiram que seu próximo projeto seguiria na mesma trilha.
        Acontece que o tema invasão alienígena já estava batido. Além do mais, o livro de H.G. Wells narra uma história sombria, trágica e com passagens repletas de horror. Então, Spielberg precisou encontrar uma mensagem auspiciosa, que ressaltasse o lado bom do ser humano, aquele que aflora diante das grandes tragédias. Para esta adaptação de Guerra dos Mundos – a segunda, já que em 1953 Byron Haskin realizou a primeira, com roteiro de Barré Lyndon – Spielberg partiu de um roteiro escrito por Josh Friedman, que depois foi reescrito por David Koepp.
        Mas antes de olhar a abordagem seguida por Koepp, é melhor lembrar os detalhes do romance original. Guerra dos Mundos narra a mais importante de todas as guerras, aquela iniciada por marcianos que vêm para dominar nosso planeta, valendo-se de tecnologias mais desenvolvidas e perseguindo o objetivo de nos escravizar e até mesmo nos usar como alimento. H.G. Wells descreve os tripés biomecânicos gigantes, os raios carbonizadores e narra o horror da aniquilação com detalhes que aterrorizaram gerações de leitores. Trata-se de um romance muito além do seu tempo, que estabeleceu as bases para o gênero literário da ficção científica.
        Não leremos sobre batalhas épicas entre humanos e marcianos, nem vamos nos deparar com personagens heroicos, grupos de cientistas ou líderes políticos traçando estratégias e planos mirabolantes – os invasores serão vencidos por obra da própria natureza, por meio do poder mortal de vírus e bactérias. A história é contada por um narrador anônimo, um homem comum da Inglaterra vitoriana. Ele testemunha a queda de um cilindro metálico, do qual saem os tais marcianos empedernidos. Só lhe resta fugir enquanto os invasores partem para arrasar tudo e todos.
        Em determinado trecho do livro temos um segundo narrador, o irmão do primeiro, descrevendo a evacuação de Londres. Mais adiante, o primeiro narrador retoma a palavra e nos conta como se escondeu junto com um padre enlouquecido numa casa em ruínas, onde avista marcianos drenando o sangue dos humanos para se alimentar. Quando finalmente consegue escapar, o narrador retorna a Londres. Encontra os invasores morrendo e termina ao lado da esposa.
        Por essa sinopse do livro, podemos perceber que David Koepp fez poucas alterações em sua adaptação para o cinema. No filme Guerra dos Mundos, o narrador – com a voz envolvente de Morgan Freeman – apenas se pronuncia na abertura e no encerramento do filme. Já não estamos mais no limiar do século XX, mas em pleno 2005, quando Ray Ferrier (Tom Cruise) é um estivador desajustado, que não se entende com os filhos Rachel (Dakota Fanning) e Robbie (Justin Chatwin). É ele quem testemunha a chegada dos marcianos e o surgimento dos destrutivos tripods – Spielberg decidiu abandonar os tais cilindros metálicos imaginados por H.G. Wells.
        Nesta nova adaptação o roteirista eliminou a perspectiva do evento em escala global e se concentrou no drama de sobrevivência do homem comum, acompanhando sua jornada para salvar os filhos. Para facilitar a construção das cenas expositivas, ele acrescentou os personagens das crianças, com quem o protagonista interage. No livro, o narrador tem ao seu dispor páginas e páginas para inteirar o leitor sobre os acontecimentos, mas no filme tudo precisa ser explicado por meio dos diálogos.
        O romance de H.G. Wells é uma crítica à natureza destrutiva da espécie humana e insinua que talvez a civilização que construímos mereça ser exterminada numa invasão alienígena. Mas ele termina por dar uma segunda chance ao indivíduo, que encontra força e esperança nos valores que cultiva. Já no filme Guerra dos Mundos, a verdadeira história é sobre um pai sem ligação com seus filhos, que amadurece diante da iminência da morte e se torna capaz de morrer e até mesmo de matar por eles.
        Quando H.G. Wells publicou seu livro, todos viram nele uma metáfora sobre o fim do império britânico – agora eram os imperialistas sendo invadidos e subjugados. Mas em 1938, quando o medo da ascensão dos regimes fascistas na Europa estremecia o planeta, a história veio à tona novamente, desta vez com uma força amplificada. Dramatizada numa transmissão da rádio CBS dirigida por Orson Welles, a Guerra dos Mundos virou realidade para milhões de ouvintes desavisados, que ignoraram se tratar de uma radionovela. O caos se espalhou por diversas cidades dos Estados Unidos, tomadas por pessoas em pânico tentando escapar do extermínio iminente.
        Em 1953, na época da primeira adaptação para o cinema, eram os comunistas e a ameaça nuclear que amedrontavam o público. Já essa versão de 2005 de Guerra dos Mundos foi recebida como uma metáfora dos grandes atentados terroristas. Mas o fato é que, desde que essa história foi imaginada por H.G. Wells, a humanidade teme se envolver em um evento catastrófico de escala global. Quando ele acontecer, será a soma dos dramas individuais que terão importância.

Resenha crítica do filme Guerra dos Mundos

Ano de produção: 2005
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Josh Friedman e David Koepp
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chatwin, Miranda Otto e Tim Robbins

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