Cidade das Mulheres: cinema em estado puro!

Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini
AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO!
As mulheres sempre foram – e sempre serão – o assunto principal dos homens. Política, religião e futebol são divertidos e oferecem farta munição para os debates acalorados nas mesas dos bares; ao contrário do mulherismo, no entanto, tais assuntos podem ser facilmente sistematizados, estudados e compreendidos. Entre copos de cerveja e doses seguidas de Steinhaeger, costumávamos, meus amigos e eu, todos com vinte anos, travar acirradas batalhas verbais para tentar garantir a salvação do mundo que herdaríamos. Mas quando as mulheres entravam em discussão, nunca era no plenário; era no final da noitada, com o amigo da cadeira ao lado, em voz baixa, confessional e pastosa de tão etílica.Cada amigo tinha uma inclinação diferente. Júlio era predador. Álvaro era colecionador. Jorge era romântico. É bem verdade que todos nós, em proporções diferentes, éramos compostos dos mesmíssimos ingredientes; olhávamos para as mulheres com igual fascinação e o que primeiro enxergávamos era o enigma. Um ou outro, vez ou outra, arriscava uma resposta, mas era imediatamente desacreditado: a solvência do mistério, necessariamente, teria que ser individual – cada um que lidasse com a própria epifania. Além do mais, a verdadeira compreensão do universo feminino teria que resistir ao teste da sobriedade no dia seguinte, o que nunca acontecia.
Como estudantes, ainda por cima, tínhamos que lidar com toda aquela baboseira feminista, que já naquela época assumia contornos ativistas e se espalhava pelos labirintos da academia. Não bastava aprender a lidar com as mulheres, encontrar uma que valesse a pena e depois comprovar a necessária hombridade para consumar a conquista; era preciso saber se esquivar das armadilhas conceituais que facilmente nos despachariam para a jaula dos machistas. Pisávamos em ovos, naquele ano de 1980!
Foi quando entrou em exibição o filme Cidade das Mulheres, dirigido por Federico Fellini. Além de ser uma lenda do cinema, o diretor era um sexagenário; devia ter um PHD em mulherismo! É claro que este cinéfilo correu para o cinema! É claro, também, que as minhas expectativas se frustraram; em vez de realizar uma imersão no assunto mais importante para a minha juventude, terminei entretido por um cinema mágico, onírico, belo e empanturrado de simbologias. Saí com a certeza de que aquela era a cidade de Fellini, habitada apenas pelas personalidades femininas que vagavam pela experiência de vida do diretor; uma ousadia autobiográfica planificada em um dos seus filmes mais belos e envolventes. Vamos recordar a sinopse:
Cidade das Mulheres conta como Marcello Snàporaz (Marcello Mastroianni), durante uma viagem de trem, encanta-se com uma passageira misteriosa que desembarca em uma estação qualquer. Ele a segue e chega num hotel, onde acontece um agitado congresso feminista. Cercado por ativistas enraivecidas, Snàporaz foge e consegue carona com um grupo de mulheres esquisitas, com as quais se desentende. Escapa novamente e vai parar no castelo do Doutor Katzone (Ettore Manni), um macho conquistador que venera sua extensa coleção de troféus. No quarto onde se hospeda, Snàporaz descobre uma passagem secreta que o leva a reencontrar as mulheres que passaram por sua vida, desde a infância. Acaba capturado pelas feministas e é submetido a um julgamento. Quase linchado, consegue escapar e finalmente encontra a mulher ideal. Sem receio de dar spoilers, lembro que ele termina no próprio trem, obviamente despertando de um sonho, em frente à esposa, Elena (Anna Prucnal).
Nem preciso lembrar que à época do seu lançamento, Cidade das Mulheres enriçou os cabelinhos das feministas e provocou controvérsias entre os críticos especializados. Muitos reclamaram da mesmice personalista que impera em todos os filmes de Fellini; outros não enxergaram novidades narrativas – talvez indignados com as alfinetadas nos movimentos feministas, que priorizam a destruição da feminilidade em favor de um identitarismo coletivista. O fato é que o filme se materializa como uma colagem de sonhos e fantasias sexuais do diretor. Ao longo de duas horas e meia, somos submetidos a uma deslumbrante sequência de imagens, encadeadas com uma inegável habilidade cinematográfica.
Humor, fantasia, musicalidade, nostalgia... Fellini nos impõe sua visão estética de mundo, enquanto revisita temas que já vislumbramos em outros de seus títulos – Julieta dos Espíritos e Casanova, por exemplo. Dessa vez, no entanto, a mulheres se tornam um assunto mais agradável e prazeroso, tratado com certa jovialidade. Os discursos feministas, envernizados com camadas cosméticas de antropologia e sociologia, não passam de bobagem. O que nos salta é o fascínio e a veneração pelo ser feminino.
Depois de assistir a Cidade das Mulheres, continuei sem entender o universo feminino; de nada me serviram as aulas teóricas ministradas por Fellini. Se aprendi alguma coisa, foi na prática! Cinco anos depois, em 1985, já estava casado; Ludy foi uma professora dedicada e compenetrada em exercitar a feminilidade. Quando nossa filha, Julia, nasceu em 1990, completei a pós-graduação. Hoje, sou um sexagenário com alguma bagagem em mulherismo. Gosto de revisitar o filme de Fellini e descobrir as referências, simbologias e insinuações que o mestre espertamente espalhou pelos seus delírios oníricos, mas sempre me distraio com a mágica da sua arte cinematográfica.
Resenha crítica do filme Cidade das Mulheres
Título original: La Città Delle DonneAno de produção: 1980
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini e Bernardino Zapponi
Elenco: Marcello Mastroianni. Anna Prucnal, Bernice Stegers, Donatella Damiani, Iole Silvani, Ettore Manni, Fiammetta Baralla, Hélène G. Calzarelli, Catherine Carrel, Marcello Di Falco, Silvana Fusacchia, Gabriella Giorgelli, Dominique Labourier, Stéphane Emilfork, Sylvie Meyer, Alessandra Panelli, Marina Confalone e Marina Hedman
Esse filme estará na minha lista!
ResponderExcluirQuando Feline expõe universo feminino "dele", ele ensina muitos detalhes mas também fica devendo outros. Por isso que você, Fábio, experienciou/situações e pessoas diferentes.❤❤❤
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