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Crítica | Vestígios do Dia: James Ivory adapta para as telas o romance de Kazuo Ishiguro e realiza um feito cultural

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Vestígios do Dia: direção de James Ivory O PRIVILÉGIO DE CONSUMIR ALTA CULTURA Raros são os filmes que podemos guardar na prateleira destinada à alta cultura. Entre eles, certamente estão os produzidos pela Merchant Ivory Productions, uma produtora de sucesso criada em 1961 por três personalidades que conquistaram um lugar de destaque na sétima arte: o produtor Ismail Merchant, a roteirista Ruth Prawer Jhabvala e o diretor James Ivory. O trio se notabilizou por trazer para as telas excelentes adaptações de obras literárias, que abordam temas complexos e envolvem personagens multifacetados. Seus filmes são sempre inteligentes, elegantes, sofisticados e maduros, como Vestígios do Dia , dirigido em 1993 por James Ivory. Além do visual requintado e do design de áudio apurado, o filme abre espaço para interpretações marcantes, que arrancam elogios da crítica e aplausos dos cinéfilos mais exigentes. Adaptação fiel de um Nobel da Literatura           Baseado no r...

Direto ao Conto - 6

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RESTOLHOS O apocalipse, quando veio, não foi na forma de hecatombe nuclear. Foi um mero apagão! Algum tipo de anomalia solar mexeu com as forças magnéticas do planeta e fritou nossas redes de geração e distribuição de energia. A eletricidade simplesmente deixou de existir. Ao menos aquela que jorrava com fartura das tomadas embutidas nas paredes de casa, que usávamos para carregar nossos celulares. Junto com a eletricidade, desapareceram os bytes, os megabytes e o dinheiro! Depois, num acelerado efeito dominó, desapareceram a comida, os combustíveis fósseis, os meios de transporte, a informação, a salubridade, a lei, a ordem... Um mês de escuridão foi suficiente para gerar o caos e aniquilar 20% dos humanos. Em três meses, restávamos 50%. Em seis meses, não chegávamos a 15% de farrapos humanos.           Na manhã do apagão global estava com 32 anos e morava sozinho, num apartamento alugado no centro da cidade. Trabalhava para uma agência de propaganda como ...

Crítica | Os Rejeitados: Alexander Payne realiza mais uma comédia dramática ancorada no ótimo desempenho de Paul Giamatti

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Os Rejeitados: direção de Alexander Payne UM BELO EXEMPLAR DE COMÉDIA DRAMÁTICA Numa comédia dramática, o mais importante é aquilo que os anglo-saxões chamam de “timming”. Se o diretor se descuidar, num estalar de dedos, o molho pode desandar!  No filme Os Rejeitados , dirigido em 2023 por Alexander Payne, o molho é saboroso e saciou o meu apetite por cinema de qualidade. Trata-se de uma comédia dramática sensível e envolvente, nos moldes do que o cineasta já nos ofereceu em outros filmes, como Pequena Grande Vida , Sideways - Entre Umas e Outras e As Confissões de Schmidt . Indicado para o Óscar, saiu da festa com a estatueta de melhor atriz coadjuvante, para Da'Vine Joy Randolph. Nos serviços de streaming , é um prato cheio para quem busca uma história fictícia, mas baseada em personagens verossímeis e bem construídos. Vamos examinar a sinopse: Sinopse: tomando conta dos rejeitados           Ambientado em 1970, o filme conta a história de Paul Hunha...

Crítica | A Corte Marcial do Navio da Revolta: o filme de despedida de Willian Friedkin é uma mostra do seu virtuosismo

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A Corte Marcial do Navio da Revolta: direção de Willian Friedkin UM AUTÊNTICO DRAMA DE TRIBUNAL Eis aqui um filme que se desenrola para muito além dos seus 109 minutos de duração. Evoca tantas conexões e desdobramentos que complica a vida deste cronista com poucos parágrafos à disposição. Exige poder de síntese! Então, vamos ser objetivos: A Corte Marcial do Navio da Revolta , dirigido em 2023 por William Friedkin é um remake , mas não se baseia no filme A Nave da Revolta , dirigido em 1954 por Edward Dmytryk e estrelado por Humphrey Bogart. Na verdade, esse novo filme é uma adaptação da peça teatral escrita em 1953 por Herman Wouk, baseada no romance que ele mesmo escreveu em 1951, intitulado The Caine Mutiny Court-Martial . Diretor de sucessos da década de 70           Como cinéfilo atento, você deve ter arregalado os olhos ao ler o nome de William Friedkin. Sim, é ele mesmo! Trata-se do diretor que marcou os anos 1970 com sucessos como O Exorcista e Ope...

Crítica | Plano de Fuga: novamente encarnando um anti-herói, Mel Gibson se diverte em nos divertir

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Plano de Fuga: direção de Adrian Grumberg ELE É MAU, MAS O RESTO É PIOR!           O protagonista de  Plano de Fuga , filme de 2012 dirigido por Adrian Grunberg, é um anti-herói. O sujeito é um canalha sem escrúpulos. Já matou, já roubou e não pretende mudar de vida, até que imperativos externos o abrigam a agir, jogando pelo time certo. Como seus antagonistas são muito piores do que ele, o que o obriga a fazer escolhas moralmente acertadas, o espectador não vê problemas em torcer por ele. Antes de explicar esse ponto, é melhor examinar a sinopse do filme. Torcendo pelo menos pior           Plano de Fuga  conta a história de um gringo interpretado por Mel Gibson. Depois de um assalto milionário, ele tenta escapar da polícia saltando com o carro para o lado mexicano da fronteira. Lá é preso por policiais corruptos, que ficam com seus dois milhões de dólares e o mandam para El Pueblito, um bizarro arremedo de penitenciá...

Crítica | Encontros e Desencontros: Sofia Coppola fez um filme sobre o estado de espera no qual às vezes nos colocamos

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Encontros e Desencontros: direção de Sofia Coppola NEM COMÉDIA, NEM ROMÂNTICA. ESTÁ MAIS PARA UMA PROVOCAÇÃO – Ah! Esse é aquele longa-metragem onde nada acontece! – Exclamou o cinéfilo arrependido, que entrou na sala de cinema para assistir a Encontros e Desencontros e esperava desfrutar uma comédia romântica. Escrito e dirigido em 2003 por Sofia Coppola, o filme rendeu para a diretora o Óscar de melhor roteiro original, mas não deve ser rotulado como um exemplar tradicional do gênero. Está mais para uma provocação. É um tanto disperso, mas para quem se atreve a embarcar na sua proposta, é divertido e envolvente.           Não assisti a esse filme no cinema. Lembro que aluguei uma cópia em DVD, junto com outros três filmes que deveriam ser devolvidos na segunda-feira. Aproveitei o preço promocional que a locadora oferecia naquela sexta-feira chuvosa. É claro que acabei deixando esse filme para o domingo à noite; assisti sozinho, já que minha mulher não co...

Crítica | Instinto Materno: o filme se tornou um fardo pesado demais para um diretor de fotografia

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Instinto Materno: direção de Benoît Delhomme FALTOU ENFATIZAR O UNIVERSO SONORO! Se você, cinéfilo ávido por um bom thriller inspirado no estilo de Alfred Hitchcock, tropeçar no serviço de streaming com Instinto Materno , dirigido em 2024 por Benoît Delhomme, talvez fique logo tentado a dar o play. Não é para menos: as presenças de Jessica Chastain e Anne Hathaway no elenco funcionam como chamariz. Trata-se de um filme mediano, ao qual recomendo que assista. Porém, para que tire melhor proveito da experiência, terá que considerar a longa cadeia de fatos que está por trás dessa produção hollywoodiana. E ela começa... na Bélgica! Obra da escritora Barbara Abel           Em 2012, a escritora belga Barbara Abel, autora de vários romances policiais de sucesso, publicou seu livro Derrière la Haine (Por Trás do Ódio). O romance foi adaptado para o cinema em 2018 pelo cineasta Olivier Masset-Depasse, também belga, com o título de Duelles (Duelos). O livro ganhou...

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