Matrix: mix de filosofia, ficção científica e ação


Matrix: filme estrelado por Keanu Reeves


Nos anos 80, Blade Runner chegou impondo um visual novo para os filmes de ficção científica – não quero falar em estética nova, porque nesse filme há muito das narrativas policiais e do cinema noir – e tornou-se paradigma do gênero. Na virada do século, foi a vez de Matrix repetir a dose. O filme de 1999, escrito e dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski – hoje Lilly e Lana Wachowski – abalou as estruturas dos filmes de ficção científica, com uma abordagem visual francamente extraída dos quadrinhos e potencializada pelos recursos digitais.
        Apesar de ser esteticamente inovador, não se pode dizer que Matrix represente um novo conceito de ficção científica. Sua consistência como obra cinematográfica está no fato de que podemos enxergar nela um apanhado de tudo o que já foi consagrado no gênero desde os seus primórdios. Partindo de uma ideia original, os realizadores conseguiram trazer para o senso comum alguns conceitos filosóficos e religiosos então restritos aos círculos acadêmicos, inundando o imaginário do público com elementos que se tornaram ícones da cultura pop.
        Matrix conta a história de Thomas Anderson, um hacker cujo pseudônimo é Neo (Heanu Reeves), dedicado a ganhar a vida burlando o sistema. Quando se vê cooptado por uma gangue de rebeldes liderados por Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), descobre que o mundo, como o conhece, não passa de uma simulação digital. A verdadeira realidade é tão sombria que ele custa a acreditar: a humanidade foi subjugada pelas máquinas e cada indivíduo, cultivado em um casulo próprio, está reduzido à condição de mera bateria fornecedora de energia para o novo sistema. Agora, Neo terá que aceitar o fato de que é o ser escolhido, ungido com poderes especiais e destinado a salvar a humanidade. Lutará em dois campos de batalha: a realidade digital, que consiste na tal Matrix e a realidade física, da qual acabou de tomar consciência.
        O filme segue o protagonista desde o momento em que deixa sua caverna platônica e se junta aos rebeldes para salvar a humanidade. Mas não veremos aqui longas cenas expositivas ou diálogos explicativos justificando a realidade distópica proposta. Os irmãos Wachowski costuraram um roteiro ágil e inteligente, que consegue guiar o espectador pelos labirintos surreais da história e ao mesmo tempo entreter com épicas cenas de ação – as lutas, as perseguições e as proezas de Keanu Reeves se desviando das balas são de tirar o fôlego.
        Os quadrinhos e os animes de ficção científica são claras influências no resultado estético de Matrix. O filme de animação Akira, realizado em 1988, inspirou as cenas de perseguição e as peripécias que subvertem as leis gravitacionais. Ghost in the Shell, de 1995, ensinou como manipular a consciência humana e estabelecer as interfaces com as máquinas. O filme Metrópolis, de 1927 dirigido por Fritz Lang, mostrou um mundo futurista onde a maior parte da humanidade vive escravizada num espaço urbano hiperteclógico. O próprio romance Neuromancer, publicado por William Gibson em 1984, obra precursora do movimento cyberpunk, já trouxe conceitos arrojados sobre o relacionamento dos humanos com as máquinas.
        Em Matrix esse apanhando de conceitos consagrados foi usado com sabedoria e manipulados com competência pela indústria do cinema, resultando numa obra icônica, que marcou a virada do milênio. Tanto é que na festa do Óscar mereceu quatro estatuetas: melhor montagem, melhor mixagem de som, melhor edição de som e melhores efeitos visuais.

Filme: Matrix


Ano de produção: 1999
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Elenco: Gloria Foster, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Julian Arahanga, Matt Doran Belinda McClory e Ray Anthony Parker

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