Blade Runner – O Caçador de Androides: encontrando o sentido da existência


Blade Runner: filme dirigido por Ridley

FICÇÃO CIENTÍFICA E PUBLICIDADE MOLDANDO NOSSA VISÃO DO FUTURO

Sempre gostei de ficção científica. Na infância li vários livros de Arthur C. Clark e Isaac Asimov. Adolescente, acabei no curso de eletrônica da então Escola Técnica Federal do Paraná – já que estava obrigado a me tornar um engenheiro, por imposição do meu pai, que fosse logo um engenheiro eletrônico! Parecia uma decisão muito mais... futurista! Depois que meu pai se foi, perdi também a vergonha de admitir que não levava o menor jeito para a engenharia. Abandonei o curso e fui para o mundo da publicidade, mas levei comigo o gosto pela ficção científica. Quando me sentei na poltrona da sala de exibição para assistir a Blade Runner - O Caçador de Androides, filme de 1982 dirigido por Ridley Scott, já estava cursando a faculdade de comunicação e sabia muito bem quem era aquele diretor: consagrado como um dos maiores diretores de comerciais do Reino Unido, era um publicitário de sucesso. E vejam só! Também gostava de ficção científica!
        É desnecessário comentar aqui a respeito do impacto que sofri ao longo da projeção – várias gerações de cinéfilos passaram pela experiência! O visual moderno e sombrio, a atmosfera de cinema noir, a arquitetura caótica misturando o novo e o velho, a banalização dos aparatos tecnológicos pessoais, a cultura oriental dominando a paisagem urbana, os questionamentos morais e filosóficos em torno dos humanos sintéticos... Curiosamente, Blade Runner não se consumou como sucesso nas bilheterias, nem mesmo nos Estados Unidos. Virou cult depois, por causa da popularização dos videocassetes. Acabou se tornando um ponto de referência para as produções do gênero, não só no cinema, mas também nos videogames, na televisão e na... publicidade!
        O filme é baseado em um romance escrito por Philip K. Dick, intitulado Do Androids Dream of Electric Sheep? Autor profícuo, ele deixou 44 romances e 121 contos, muitos deles adaptados para o cinema, como O Vingador do Futuro, Assassinos Cibernéticos, O Vidente, Os Agentes do Destino e Minority Report – inclusive Blade Runner 2049, produzido como continuação do filme de 1982, seguiu como adaptação do mesmo romance original.
        O futuro retratado em Blade Runner – O Caçador de Androides é aquele que supostamente viveríamos em novembro de 2019, quando o policial Rick Deckard (Harrison Ford) é destacado para encontrar e eliminar quadro replicantes – os tais androides do título adotado no Brasil – que fugiram de uma colônia no espaço e desembarcaram na terra clandestinamente. As investigações de Deckard o levam até a Corporação Tyrell, fabricante dos replicantes. Lá acaba conhecendo a bela Rachael (Sean Young), um produto da bioengenharia, por quem se apaixonará. Numa decadente Los Angeles abarrotada de gente, o caçador vai até as últimas consequências para dar cabo dos quatro humanos artificiais, conhecidos como Leon (Brion James), Zhora (Joanna Cassidy), Pris (Daryl Hannah) e o líder Roy Batty (Rutger Hauer). O problema é que os replicantes têm uma expectativa de vida limitada a quatro anos, o que lança uma sombra sobre o relacionamento entre Deckard e Rachael. Por fim, o próprio Deckard verá sua humanidade posta em dúvida, temendo ser também um produto da bioengenharia – mas isso depende de qual versão do filme você estiver assistindo!
        Sim, Blade Runner também entrou para a história por ter sido uma produção difícil e conturbada. A confusão começou já no processo de escrita do roteiro. Quem fez a adaptação do romance de Philip K. Dick foi o roteirista Hampton Fancher. Ele desenvolveu os primeiros tratamentos antes mesmo da produção ser viabilizada. Quando Ridley Scott entrou no projeto, exigiu várias mudanças, já que a concepção inicial, por limitações orçamentárias, confinava a história em ambientes fechados. O diretor queria expandir as cenas para retratar o mundo futurista das ruas. Demitiu Fancher e contratou o roteirista David Peoples. O roteiro final resultou num trabalho conjunto, que manteve muito da escrita original, mas combinou as novas ideias ditadas pelo diretor.
        O problema é que na fase de pós-produção o próprio Ridley Scott foi demitido, por divergências criativas com os produtores. Mais uma vez o roteiro foi alterado, com a adição de uma narração, na voz de Harrison Ford, para supostamente dar explicações essenciais ao espectador. Anos depois seria lançado o corte final do filme, assinado por Ridley Scott, sem a famigerada narração demasiado explicativa e dando margem à interpretação de que Rick Deckard fosse, afinal, um replicante, existindo com memórias implantadas de algum humano de verdade. Os dois roteiristas afirmam que em momento algum trabalharam com essa possibilidade e que tal insinuação partiu de Ridley Scott. Coisas de publicitário!
        Às vésperas de fazer 40 anos, Blade Runner – O Caçador de Androides continua sendo um dos mais influentes filmes de ficção científica de todos os tempos. Ridley Scott mostrou que é um diretor eminentemente visual, detalhista em suas concepções, mas também muito hábil na hora de focalizar o drama dos seus personagens. E como todo bom publicitário, conhece bem os truques narrativos que melhor seduzem o expectador. Quando deixei o cinema naquela noite de 1982, não consegui parar de assoviar a linha melódica de Love Theme, executada pelo saxofonista britânico Dick Morrissey, que interpretou a belíssima trilha sonora criada pelo compositor Vangelis.



Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.



Filme: Blade Runner - O Caçador de Androides


Ano de produção: 1982
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples
Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkell, Joanna Cassidy, James Hong, Morgan Paull, Kevin Thompson, John Edward Allen, Hy Pyke, Kimiko Hiroshige, Robert Okazaki, Carolyn DeMirjian e Ben Astar

Comentários

  1. Stanley Kubrick classificou Blade Runner (1982) como "o filme mais belo que eu já vi".

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    1. Que legal, Antônio Salles! Não sabia disso! Obrigado por contar!!!!

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    2. Penso que pelo pensamento filosófico nas palavras do replicante Hauer onde a poesia toma a cena.

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  2. Memorável
    Incrível como tanta coisa passou por nós nas entrelinhas. Filme talvez um pouco a frente do seu tempo e que Scott se firmou definitivamente.
    Vários atores não pegaram o papel - título como Tom Berenger, Tom Selleck... Ficando a Glória para Ford, que no caso da película, um culto Movie sendo reconhecido pela crítica uma obra sui generis.
    O mundo é lugar decadente onde não há trabalho nem produção, somente estagnação do consumo onde humanos e os replicantes (cópias perfeitas da raça humana)
    Os replicantes são tão avançados que chegam a pensar por si próprios e alguns deles fogem da programação e ou da linha sendo necessário, os blade runners, os caçadores de androides...
    UM deles contratado, precisa capturar e ou eliminar um grupo fugitivo disperso e para seguir suas pistas terá uma relação com uma mulher misteriosa que o fará entender tanto eles quanto a si mesmo... Origani, uma pista sutil. Hauer mostra-se no cinema em grande estilo para seu fim poético e mais insolúvel será dos protagonistas, que a meu ver não há originalidade, somente seu artifício da revelação não fica claro, eis talvez o defeito.
    Cult é Cult, sempre revisto, sempre redescoberto com prazer.

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  3. Marco definitivo de passagem do cinema de ficção científica. Você foi muito feliz na abordagem crítica do filme. Parabéns!!!

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