Crítica | Logan: James Mangold elevou um pouco o nível dos filmes de super-heróis ao misturar ação com dramaticidade

Cena do filme Logan
Logan: filme dirigido por James Mangold

O PERSONAGEM GANHA ALGUMA PROFUNDIDADE DRAMÁTICA

Acordei e fui direto ao banheiro. Olhei minha imagem no espelho, enquanto cuspia a espuma azulada de uma droga de pasta de dente que comprei por engano; foi quando sacudi a cabeça, num gesto irritado de negação: estou cada vez mais velho e rabugento! Quisera que fosse mais rabugento do que velho, mas temo que o tempo esteja vencendo a corrida. Na noite anterior havia assistido ao filme Logan, dirigido em 2017 por James Mangold e ainda estava atordoado com aquele rápido mergulho no mar raso dos filmes de super-heróis. Por insistência da minha filha – ela jurou que esse era menos infantilizado – resolvi encarar o desafio.

Direção competente e sacadas narrativas

        Logan tem pontos positivos. Primeiro, é dirigido com virtuosismo por James Mangold, diretor talentoso e experiente, que tem no currículo filmes como Ford vs Ferrari, Os Indomáveis e Johnny & June. Outro ponto interessante: foi em parte baseado na graphic novel de Mark Millar, intitulada Wolverine – O Velho Logan, que apesar de chafurdar no universo da Marvel Comics tem ótimo tratamento gráfico e uma atitude mais madura! E outra qualidade que encontrei foi a excelente ideia de usar recursos de metalinguagem. Os realizadores inseriram na trama cenas onde os X-Men não passam de super-heróis dos quadrinhos, o que causa estranheza e arranca o espectador da sua confortável posição de mero consumidor de entretenimento. Na poltrona, fica obrigado a... pensar.

Cena do filme Logan
Logan: James Mangold adapta uma história em quadrinhos de sucesso

A sinopse: perseguição aos mutantes

        Antes de continuar, vamos à sinopse: no futuro nada distante de 2029, quase não há mutantes – os poucos que restam são caçados. Velho, rabugento, doente e entregue às bebidas, Logan (Hugh Jackman) virou motorista de limusine. Também virou cuidador do velho e caduco Charles Xavier (Patrick Stewart), tomado pelo Mal de Alzheimer e incapaz de controlar seu outrora poderoso cérebro.

Cena do filme Logan
Logan: a garota Dafne Keen traz novos problemas para o personagem

        A rotina da dupla muda quando entra em cena a garotinha de 12 anos chamada Laura (Dafne Keen), mutante que parece uma cópia de Logan quando criança. Ela traz na sua cola um bando de paramilitares desalmados, a mando de geneticistas inescrupulosos, que só querem acabar com a raça de todos, com requintes de violência. Pronto, está armado o cenário para muitos tiros, perseguições, lutas, decapitações e fúria sanguinária.

Nada de menores na sala de exibição

        Logan veio para atender as expectativas dos fãs de Wolverine, que ansiavam ver o personagem desenvolvido com alguma profundidade nas telas do cinema. É um filme de ação, com alma de western: coloca os personagens na frente do enredo e segue uma narrativa simples e econômica. O diretor James Mangold é perspicaz em sua adaptação; mantêm-se fiel ao cânone recitado pelos fãs do personagem, mas não se furta a lançar mão de recursos que lhe permitam contar a história no seu estilo. Duas decisões foram cruciais: alterou sua classificação etária, para barrar os menores nas salas de exibição e transportou a história para o futuro, longe de toda a trama armada na enorme quantidade de filmes já produzidos pela Marvel.

Cena do filme Logan
Logan: tem até alguns toques de metalinguagem

        James Mangold escreveu o tratamento inicial para o filme Logan, quando estabeleceu a ideia inicial e o conceito que lhe deu forma. Depois, foi a vez do roteirista Michael Green – que também roteirizou Alien: Covenant e Blade Runner 2049 – entrar no projeto para ampliar o tratamento idealizado. Finalmente, veio o roteirista Scott Frank – que também roteirizou Minority Report e O Vôo da Fênix – e aprofundou a história, ao acrescentar várias ideias que entraram no roteiro de fato filmado.

Bons momentos de entretenimento

        Tenho que concordar que o filme Logan elevou o grau de maturidade exigido para a plateia. Acompanhá-lo do começo ao fim não é difícil, pois a produção, competente e esmerada, está empenhada em proporcionar momentos de bom entretenimento – ainda que para um público bem específico. A infantilidade do universo Marvel e seus concorrentes, porém,  está toda lá; reduz o cinema a um chiclete, a ser mastigado com movimentos vegetativos até que o docinho acabe. O filme não segue leis próprias nem demonstra autonomia criativa; faz parte de um mosaico gigantesco, uma colcha de retalhos costurada para encobrir o público e mantê-lo conservado na tenra idade dos 12 anos.

Cena do filme Logan
Logan: os atores até encontram algumas boas linhas de diálogo para interpretar

Filmes de super-heróis já estão saturados 

        É... Acho que estou ficando velho e rabugento! Mas antes que o leitor me acuse de preconceituoso, deixe-me esclarecer: adoro histórias em quadrinhos e as considero uma arte narrativa riquíssima. Já consumi muitos quadrinhos e já assisti a vários filmes de super-heróis, mas foi há alguns anos, quando a humanidade ainda não estava nesse “estágio evolutivo”, em que a guerra entre estúdios arregimentou hordas inteiras de superpoderosos, numa luta feroz pela conquista territorial de todas as salas de cinema e serviços de streaming do planeta... Sim, minha primeira crítica é que o gênero só faz oferecer mais do mesmo. Saturou!

Lutando a  guerra cultural 

        Está em curso um plano maligno para infantilizar a nossa população. Vejo jovens de 20 e até 30 anos interessados apenas por filmes feitos para crianças de 12; discutem miudezas, como se fossem relevantes, enquanto são expostos a tramas sem profundidade emocional. Nada de dilemas morais, nada de conflitos existenciais, nada de carga dramática... Emoções, só as primárias. Fluxo narrativo, só a estrutura básica. Construção de personagens, só com estereótipos! Tudo certo quando você tem 12 anos, mas aos 20 ou 30, faça-me o favor!

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de James Mangold, o roteiro bem costurado, a narrativa ágil e boa atuação do elenco.

O que surpreende: os atores encontraram algum subtexto para representar e as cenas de ação bem articuladas garantem o entrenimento.

Vale a pena. É entrenimnto de qualidade.

Ficha técnica do filme Logan

Ano de produção: 2017
Direção: James Mangold
Roteiro: Michael Green, Scott Frank e James Mangold

  • Elenco:
  • Hugh Jackman
  • Patrick Stewart
  • Richard E. Grant
  • Boyd Holbrook
  • Stephen Merchant
  • Dafne Keen
  • Jason Genao

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