Crítica | A Balada de Buster Scruggs: os irmãos Coen tratam a mitologia do velho oeste com humor inteligente

A Balada de Buster Scruggs: dirigido pelos irmãos Coen
CINEMA DE QUALIDADE MULTIPLICADO POR SEIS
Dia desses, tive a felicidade de me deparar no streaming com A Balada de Buster Scruggs, filme realizado em 2018 pelos irmãos Joel e Ethan Coen. Que obra incrível! Trata-se de uma imersão no universo dos westerns, concentrada em explorar todos os paradigmas do gênero. Não me atrevo a falar em homenagem, porque o senso de humor corrosivo dos irmãos Coen é cruel; traz ironias e críticas pontuais, mais interessadas em demolir os clichês. Ainda assim, lá no fundo, perceber-se um certo respeito pelo legado dos cineastas que criaram, consolidaram e inovaram o gênero – de John Ford a Sergio Leone, passando por uma enorme lista de nomes importantes.
Um filme com seis histórias diferentes
Lindamente fotografado – Bruno Delbonnel é o artista que assina a direção de fotografia – A Balada de Buster Scruggs é uma enorme ousadia, realizada apenas porque o sobrenome dos irmãos Coen entrou como aval. Quem mais poderia propor a realização de um filme dividido em seis histórias? São seis pré-produções, seis elencos, seis concepções cênicas, seis estruturas de produção... muito trabalho multiplicado por seis! Certamente um cineasta novato não se atreveria! Seria aconselhado a concentrar os investimentos numa única trama comercialmente mais rentável.
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A Balada de Buster Scruggs: os irmãos Coen examinam os paradigmas do gênero western
Contos clássicos do velho oeste
O filme tem essa aura de televisão porque é o primeiro rodado digitalmente pelos irmãos Coen, além ter sido financiado e disponibilizado pela Netflix. Trata-se de uma antologia de seis contos ambientados no velho oeste. Quatro foram escritos pelos Coen: The Ballad of Buster Scruggs, Near Algodones, Meal Ticket e The Mortal Remains. Ainda temos All Gold Canyon, escrito por Jack London e The Gal Who Got Rattled, escrito por Stewart Edward White, dois autores americanos clássicos. O roteiro que adaptou os contos, assinado pelos irmãos Coen, foi concebido como um longa metragem, não como uma série de TV; fizeram questão de contar seis histórias com começo, meio e fim e resgataram os vários elementos icônicos associados aos westerns: caubóis, garimpeiros, assaltantes, enforcamentos, índios, carroças, diligências, tiroteios... Tudo temperado com humor, drama, algumas doses de violência e muita criatividade.
A Balada de Buster Scruggs: seis histórias, seis surpresas
A morte sempre rondando
Não há espaço nesta crônica para apresentar uma sinopse de cada conto, mesmo porque seria difícil evitar os indesejados spoilers. É suficiente avisar que o elo de ligação entre eles é a morte, que sempre ronda os personagens, em situações onde ela é capaz de chegar com facilidade. Recomendo ao cinéfilo que ainda não assistiu ao filme, que se deixe levar e aproveite as ótimas surpresas. Estará nas mãos de cineastas competentes, dedicados a exercitar um cinema da mais alta qualidade. Como sempre, os realizadores reuniram um elenco afinado e capricharam na trilha sonora. Foram mais de 800 efeitos digitais, usados com critério para facilitar a produção e ajudar a contar as histórias – não são apenas meros atrativos pirotécnicos.Um livro aberto
Mas quero sugerir ao leitor que preste especial atenção no recurso narrativo que os irmãos Coen usaram para dar coesão à sua antologia de contos do velho oeste. Para deixar claro que se trata de uma transposição de linguagem – da literatura para o cinema – criaram um livro antigo, materializado num projeto gráfico impecável. Ele é apresentado logo na abertura, nos moldes daquilo que a Disney já usava em suas animações clássicas – lembrei de Pinochio, de 1940! Vemos a capa com o título, The Ballad of Buster Scruggs; o livro então é aberto e as páginas são viradas, para mostrar o primeiro conto. Nos deparamos então com uma bela ilustração, executada pelo artista Gregory Manchess. Outra virada de página e chegamos ao conto, composto em uma bela tipografia. Só então mergulhamos no cinema, quando há uma fusão para as cenas do filme.
A Balada de Buster Scruggs: o western em todas as suas linguagens
Brincando com a linguagem
O livro de contos entra em cena novamente, sempre na hora de fazer a transição de um conto para outro; apresenta uma bela ilustração e traz uma concepção tipográfica caprichada. O visual é estonteante e tudo foi executado com excelência técnica. Esse belo filme dos irmãos Coen é uma deliciosa brincadeira com a linguagem. Dos livros para o cinema, do cinema para TV, do clássico universo dos caubóis para o mundo original e pessoal desses dois ótimos contadores de histórias. Ter essa obra disponível no serviço de streaming é uma benção! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa dos irmãos Coen, o roteiro impecável, o tratamento audiovisual refinado e o trabalho dos atores.
O que surpreende: os irmãos Coen tomaram um por um dos clichês do gênero western e os carregaram com um subtexto denso, combinando humor e melancolia.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme A Balada de Buster Scruggs
Título original: The Ballad of Buster ScruggsAno de produção: 2018
Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
- Elenco:
- Tim Blake Nelson
- Willie Watson
- David Krumholtz
- E.E. Bell
- Tom Proctor
- Clancy Brown
- James Franco
- Stephen Root
- Ralph Ineson
- Jesse Luken
- Liam Neeson
- Harry Melling
- Tom Waits
- Sam Dillon
- Zoe Kazan
- Bill Heck
- Grainger Hines
- Jackamoe Buzzell
- Jefferson Mays
- Ethan Dubin
- Tyne Daly
- Brendan Gleeson
- Jonjo O'Neill
- Saul Rubinek
- Chelcie Ross
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