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Cidade das Mulheres: cinema em estado puro!

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Cidade das Mulheres: direção de Federico Fellini AH, O FASCÍNIO PELO SER FEMININO! As mulheres sempre foram – e sempre serão – o assunto principal dos homens. Política, religião e futebol são divertidos e oferecem farta munição para os debates acalorados nas mesas dos bares; ao contrário do mulherismo, no entanto, tais assuntos podem ser facilmente sistematizados, estudados e compreendidos. Entre copos de cerveja e doses seguidas de Steinhaeger, costumávamos, meus amigos e eu, todos com vinte anos, travar acirradas batalhas verbais para tentar garantir a salvação do mundo que herdaríamos. Mas quando as mulheres entravam em discussão, nunca era no plenário; era no final da noitada, com o amigo da cadeira ao lado, em voz baixa, confessional e pastosa de tão etílica.           Cada amigo tinha uma inclinação diferente. Júlio era predador. Álvaro era colecionador. Jorge era romântico. É bem verdade que todos nós, em proporções diferentes, éramos compostos dos m...

A Morte Lhe Cai Bem: humor negro e computação gráfica

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A Morte lhe Cai Bem: direção de Robert Zemeckis UM FILME À FRENTE DO SEU TEMPO! Em 1992, minha calvície ainda não dava sinais de que sairia vencedora. Precisava ir de vez em quando ao barbeiro – geralmente nas manhãs de sábado – para dar aos cabelos algum corte que me salvasse a aparência. Era sentar-me na cadeira e pronto: alguém jogava nas minhas mãos um exemplar da Revista Caras, para que me distraísse com a vanglória dos ricos e famosos. Num mundo sem celulares e sem redes sociais, publicações desse tipo eram as únicas janelas disponíveis para quem desejasse bisbilhotar a vida alheia. Com o advento da internet, o jogo virou: todo mortal agora pode manter a pose e se camuflar de celebridade.           Em tempos analógicos, havia duas possibilidades: ou você estava nas páginas de Caras, ou não estava. Se estivesse, era um vencedor; se não estivesse, que continuasse tentando. Hoje, as possibilidades são infinitas, já que todas as páginas na internet podem ...

Josey Wales, o Fora da Lei: um western revisionista

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Josey Wales, o Fora da Lei: direção de Clint Eastwood NARRATIVA VISUAL ENXUTA E MODERNA Estava com dezesseis anos quando entrei no cinema para assistir a Josey Wales, o Fora da Lei , filme de 1976 dirigido por Clint Eastwood. O astro de Hollywood tinha o nome colado ao cinema de ação e o gênero western já me soava desinteressante – naquela época já me considerava um cinéfilo exigente, com horas de voo suficientes para lançar olhos de predador sobre os filmes em cartaz. Então, reparei que o nome de Clint Eastwood aparecia duas vezes nos créditos: como ator e como diretor. Como não havia opção melhor para aquele sábado à tarde, encontrei aí uma boa desculpa para conferir.           O filme ao qual assisti naquele dia era envolvente e oferecia certa densidade dramática. Era recheado de violência e se agarrava a fortes valores morais. A fotografia era sombria e o visual flertava com o realismo. E o mais curioso: tinha algo de moderno, ainda que revirasse uma hi...

Presságio: mistério, catástrofe e muita ação

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Presságio: direção de Alex Proyas OS DOIS PRIMEIROS ATOS FUNCIONAM. O ÚLTIMO É UMA BOBAGEM! Na juventude, fui um cinéfilo mais criterioso. Só entrava numa sala de exibição se o filme valesse o preço do ingresso. Além disso, tinha que escolher entre uma lista reduzida de títulos – Curitiba contava com dezena de cinemas, onde os lançamentos ficavam em cartaz por poucas semanas. Para decidir com sabedoria onde gastar meu suado dinheirinho, a solução era vasculhar os cadernos de cultura dos jornais e as revistas especializadas; lia muito sobre cinema e quando me sentava na plateia, já sabia o que esperar.           Hoje, a oferta de filmes beira o infinito. Nas plataformas de streaming, o valor da assinatura é o mesmo, caso você assista a um único filme por mês ou a cinco por dia! Tornei-me um cinéfilo mais impulsivo. Aperto o play com facilidade, pois sei que posso mudar de ideia ao primeiro sinal de arrependimento. Foi com esse espírito armado que comecei a a...

As Pontes de Madison: amor romântico e maduro

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As Pontes de Madison: direção de Clint Eastwood O FILME ELEVOU O ALCANCE DO LIVRO As Pontes de Madison nasceu como livro. Não um livro qualquer, mas um estrondoso sucesso comercial que chacoalhou o mercado editorial dos anos 1990, quando virou best seller instantâneo; até hoje, já foram impressos mais de 50 milhões de exemplares em todo o mundo. A quantidade, porém, passou longe de validar a qualidade: os críticos torceram o nariz, dadas a falta de substância literária e a pouca profundidade dos personagens. O autor, Robert James Waller, falecido em 2017, jamais se deixou perturbar pelas críticas negativas; escreveu outros romances que também entraram para as listas dos mais vendidos e ajudaram a consolidar sua carreira. Fenômeno comparável aconteceu com Cinquenta Tons de Cinza , romance da inglesa Erika Leonard James, que explodiu em sucesso nos anos 2010 – esse acendeu uma chama erótica bem mais intensa do que aquele, entretanto, reduziu ainda mais a qualidade literária.   ...

De Olhos Bem Fechados: uma jornada erótica, onírica e fantasiosa

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De Olhos Bem Fechados: direção de Stanley Kubrick SEXO, MELANCOLIA E VAZIO EXISTENCIAL Em vida, Stanley Kubrick permaneceu confinado ao século XX; concluiu seu último filme, De Olhos Bem Fechados , em 1999, cinco dias antes de sofrer um ataque cardíaco letal. Sua odisseia criativa, entretanto, o levou a visitar outros séculos, enquanto estabelecia os mais altos padrões de excelência para o fazer cinematográfico. Assistir ao seu filme de despedida – só os espectadores têm consciência dessa condição, já que o cineasta não dava qualquer sinal de que pretendia baixar a guarda – é também um exercício de nostalgia; ficaremos em definitivo sem seus planos geometricamente precisos, seus movimentos de câmera calculados, seus cenários minuciosos, sua iluminação controlada fóton por fóton, sua habilidade em usar a música erudita... Stanley Kubrick fez cinema para a posteridade e seus filmes ainda têm muito a dizer para os cinéfilos do século XXI.           De Olhos Be...

Eden: um thriller de mistério ágil e perturbador

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Eden: direção de Ron Howard PARA SOBREVIVER, É PRECISO LUTAR CONTRA A NATUREZA HUMANA O diretor Ron Howard tem uma carreira marcada por filmes memoráveis, como Rush - No Limite da Emoção , A Luta Pela Esperança , O Preço de um Resgate , Uma Mente Brilhante e Era uma Vez um Sonho . Quando vi seu nome na direção de Eden , filme realizado em 2024, já fiquei motivado a apertar o play; a empolgação aumentou quando reparei no elenco estrelado que ele conseguiu reunir: Jude Law, Vanessa Kirby, Daniel Brühl, Sydney Sweeney e Ana de Armas! Apostei todas as fichas que encontraria bom entretenimento e não me arrependi.           Devo alertar que Eden é um filme incomum na cinematografia de Ron Howard. É um thriller de suspense perturbador e sinistro, diferente do que assistimos em seus filmes com apelo comercial; é baseado em uma história real, mas mergulha nos demônios internos de oito personagens multifacetados, que estão em luta, tentando sobreviver numa ilha iso...

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