O Oficial e o Espião

COM O FILME O OFICIAL E O ESPIÃO, ROMAN POLANSKI NOS LEMBRA COMO É QUE SE FAZ CINEMA DE VERDADE


O Oficial e o Espião: dirigido por Roman Polanski

        Acomodados no sofá, controle remoto nas mãos, Ludy e eu vasculhamos o serviço de streaming à cata de algo que valha a pena. Tarefa exaustiva, essa. Examina-se as capas dos filmes, lê-se as sinopses sintéticas e quase sempre mal redigidas, procura-se por mais informações no celular... Enquanto isso, o tempo passa e a impaciência aumenta. Mas ontem, a busca terminou de repente. Ludy até se espantou quando gritei:
        – Uau! Esse é o último filme do Polanski! Vai ser esse e pronto!
        Ludy não questionou meu arroubo autoritário. Ela também aprecia o talento do diretor. Clicamos no play e em instantes estávamos assistindo a um dos melhores filmes do ano: O Oficial e o Espião. É cinema de alta qualidade, como não se vê com frequência. Realizado com requinte e competência por um dos mais brilhantes diretores da história do cinema.
        Bem, talvez o meu entusiasmo não encontre reverberação entre todas as camadas de público. Estamos falando de um filme denso, conduzido num ritmo mais lento, com personagens complexos e com os quais leva um certo tempo para se identificar. Para o espectador interessado em consumir cinema “do bom”, nada disso é problema.
        A história é conhecida: no final do século XIX, Alfred Dreyfus é acusado de espionar para a Alemanha e confinado na Ilha do Diabo. O Coronel Picquart, à frente da inteligência francesa, descobre a inocência do judeu e empreende uma busca por justiça, deixando seu próprio anti-semitismo de lado. A coragem, a integridade e o elevado senso de honra de Picquart são os elementos que ancoram a narrativa do filme. É por ele que torcemos enquanto enfrenta os poderosos do alto escalão francês, numa jornada que provocou a queda do governo e marcou a história daquele país.
        Um tal enredo poderia suscitar as mais diferentes abordagens narrativas – fico imaginando as peripécias que Picquard viveria nas mãos de um diretor que valoriza a agilidade e o senso de urgência, como Paul Greengrass. Mas, nas mãos de Romam Polanski, O Oficial e o Espião ganhou um atributo espetacular: a elegância! Claro, ela salta aos olhos através dos belíssimos cenários, do figurino impecável e da fotografia arrebatadora. Mas é no texto preciso, falado em francês, que nos sentimos mergulhar em um filme acima da média. O tipo de filme que já nos acostumamos a classificar como “cinemão”.
        Polanski não facilita para o espectador. Ao invés de seguir uma narrativa linear – um caminho fácil, já que o enredo é bastante conhecido – ele prefere se valer de flashbacks para nos lembrar que o pobre Dreyfus, esquecido no cárcere, é o ponto focal da história. Os detalhes narrados são minuciosos e formam uma teia de complexidade que pode escapar aos desatentos. Ainda assim, Polanski consegue uma notável agilidade, graças ao seu reconhecido domínio da linguagem do cinema.
        Sou obrigado a mencionar também um outro atributo que encontrei, plantado no belíssimo roteiro assinado por Polanski e Robert Harris: a modernidade. Sim, ao longo de várias cenas é possível respirar a atmosfera moderna e cosmopolita que tomava conta de Paris naquela virada de século. As ruas repletas de charretes e carruagens, os cafés agitados, os primeiros automóveis, a fotografia a serviço da espionagem, os fotógrafos em busca do sensacional, a imprensa escrita ganhando contornos de mídia de massa... As portas do século XX já estavam escancaradas!
        Diante da relevância histórica dessa história real, que envolveu também o libertário escritor Émile Zola – o impacto do seu manifesto “J’accuse”, que dá o titulo original do filme, é o ponto culminante – podemos cair na tentação de nos prender nas suas implicações e desdobramentos. Mas jamais devemos ignorar o cinema de qualidade que temos o prazer de testemunhar em O Oficial e o Espião.
        Digo isso porque o anti-semitismo, a injusta pena imposta a um suposto inocente e a perseguição por parte da imprensa manipuladora – elementos que em suas diferentes versões remetem à vida pessoal de Roman Polanski – são temas aos quais muitos críticos se apegam na hora de comentar sobre esse filme. Prefiro não misturar os assuntos. Não me importo com a vida pessoal do diretor. Minha admiração por ele se restringe apenas ao campo do cinema. É isso que me interessa.


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