Crítica | O Oficial e o Espião: Roman Polanski transformou o caso Dreyfus num thriller denso e complexo

O Oficial e o Espião: filme dirigido por Roman Polanski
É ASSIM QUE SE FAZ CINEMA DE VERDADE
O Oficial e o Espião, dirigido em 2019 por Roman Polanski, é um excelente filme. Foi realizado com competência por um dos mais brilhantes diretores da história do cinema; é uma obra superlativa, como não se vê com frequência. Bem, começar uma crônica assim, com tamanha empolgação, pode ser um exagero; talvez o meu entusiasmo não encontre reverberação entre todas as camadas de público. É mais prudente baixar o tom, avisando que o filme é bastante denso, conduzido num ritmo lento e traz personagens complexos, com os quais demora-se um certo tempo para estabelecer identificação. Para o espectador interessado em consumir cinema “do bom”, nada disso é problema.
Uma busca incansável por justiça
O Oficial e o Espião conta uma história conhecida: no final do século XIX, Alfred Dreyfus (Louis Garrel) é acusado de espionar para a Alemanha e acaba confinado na Ilha do Diabo. O Coronel Picquart (Jean Dujardin), à frente da inteligência francesa, descobre a inocência do judeu e empreende uma busca por justiça. E deixa seu próprio antissemitismo de lado! A coragem, a integridade e o elevado senso de honra de Picquart são os elementos que ancoram a narrativa do filme. É por ele que torcemos enquanto enfrenta os poderosos do alto escalão francês, numa jornada que provocou a queda do governo e marcou a história daquele país.

O Oficial e o Espião: Roman Polanski mergulha no Caso Dreyfus
Elegância que salta aos olhos
Um tal enredo poderia suscitar as mais diferentes abordagens narrativas – imagino as peripécias que Picquard viveria nas mãos de um diretor que valoriza a agilidade e o senso de urgência. Nas mãos de Romam Polanski, entretanto, O Oficial e o Espião ganhou um atributo espetacular: a elegância! Claro, ela salta aos olhos através dos belíssimos cenários, do figurino impecável e da fotografia arrebatadora. Mas é no texto preciso, falado em francês, que nos sentimos mergulhar em um filme acima da média. O tipo de filme que já nos acostumamos a classificar como “cinemão”.Narrativa complexa
Polanski não facilita para o espectador. Em vez de seguir uma narrativa linear – um caminho fácil, já que o enredo é bastante conhecido – ele prefere se valer de flashbacks para nos lembrar que o pobre Dreyfus, esquecido no cárcere, é o ponto focal da história. Os detalhes narrados são minuciosos e formam uma teia de complexidade que pode escapar aos desatentos. Ainda assim, Polanski consegue uma notável agilidade, graças ao seu reconhecido domínio da linguagem do cinema.
O Oficial e o Espião: antissemitismo e corrupção no exército francês
Paris moderna e cosmopolita
Sou obrigado a mencionar também um outro atributo que encontrei, plantado no belíssimo roteiro assinado por Polanski e Robert Harris: a modernidade! Sim, ao longo de várias cenas é possível respirar a atmosfera moderna e cosmopolita que tomava conta de Paris naquela virada de século. As ruas repletas de charretes e carruagens, os cafés agitados, os primeiros automóveis, a fotografia a serviço da espionagem, os fotógrafos em busca do sensacional, a imprensa escrita retratada como mídia de massa... As portas do século XX já estavam escancaradas!O artigo do libertário Émile Zola
Como não poderia deixar de ser, o ponto culminante de O Oficial e o Espião vem com a entrada em cena do famoso escritor libertário Émile Zola. O impacto do seu manifesto publicado no jornal L’Aurore, intitulado “J’accuse” (esse é, inclusive, o título original do filme), é aqui retratado em toda a sua importância histórica. Zola criticou as irregularidades do julgamento de Dreyfus, denunciando o antissemitismo e a corrupção na cúpula do exército francês; dividiu a opinião pública e provocou profundas transformações no cenário político.
O Oficial e o Espião: o artigo de Émile Zola que mudou essa história
Eis que surge a opinião pública
Na França da virada do século XIX para o XX, o caso Dreyfus estimulou o debate sobre direitos humanos e justiça, dividindo a sociedade entre os republicanos progressistas e os nacionalistas conservadores. De repente, um novo protagonista ganhou relevância na vida política: a opinião pública! E com Émile Zola, surgiu também o conceito do intelectual engajado, capaz de influenciar as multidões e desafiar o poder do estado – depois do seu contundente artigo de 1898, o escritor foi julgado e condenado a um ano de prisão; exilou-se na Inglaterra, mas foi assassinado por desconhecidos em 1902.Interesses pessoais do diretor
Diante da relevância histórica dessa história real, a tentação é de seguir escrevendo sobre suas implicações e desdobramentos. Prefiro, no entanto, focar na qualidade do cinema que temos o prazer de testemunhar em O Oficial e o Espião. Digo isso porque o antissemitismo, a injusta pena imposta a um suposto inocente e a perseguição por parte da imprensa manipuladora, são elementos que remetem à própria vida pessoal de Roman Polanski. Muitos cinéfilos acharam que o diretor, ao abordar os temas, estava tentando ir à forra. Bobagem! Não vamos misturar os assuntos. A vida pessoal do diretor pouco importa. Vamos nos restringir ao campo do cinema, que é, afinal, o que interessa aqui na Crônica de Cinema.
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção segura e criativa de Roman Polanski, o roteiro bem escrito, o ótimo trabalho de atores, a trilha sonora envolvente e a concepção visual apurada.
O que surpreende: além das implicações políticas e sociais, Polanski consegue retratar os primeiros lampejos da modernidade no século XX, que culminara no domínio da comunicação de massa.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme O Oficial e o Espião
Título original: J'accuse
Ano de produção: 2019
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Harris e Roman Polanski
Elenco:
- Jean Dujardin
- Louis Garrel
- Emmanuelle Seigner
- Grégory Gadebois
- Hervé Pierre
- Wladimir Yordanoff
- Didier Sandre
- Melvil Poupaud
- Éric Ruf
- Mathieu Amalric
- Laurent Stocker
- Vincent Perez
- Michel Vuillermoz
- Vincent Grass
- Laurent Natrella
- Bruno Raffaelli
- Pierre Poirot
- Paulo Henrique
- Stefan Godin
- Luca Barbareschi
- Mohammed Lakhdar-Hamina
- Luce Mouchel
- Fabien Tucci
- Franck Mercadal
- Philippe Magnan
- Pierre Forest
- Jeanne Rosa
- Benoît Allemane
- Ludovic Paris
- Gérard Chaillou
- Nicolas Bridet
- André Marcon
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Onde vejo o filme?
ResponderExcluirO oficial é o espião onde vejo?
ResponderExcluirAssisti a esse filme num dos canais do TeleCine. Este por um tempo na grade de programação e talvez esteja disponível ainda.
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