O Inquilino: um filme sobre a perda da própria identidade

Cena do filme O Inquilino
O Inquilino: direção de Roman Polanski

SUSPENSE, TERROR PSICOLÓGICO E SUSTOS MAIS... DURADOUROS

Era um garoto de 16 anos quando entrei numa sala de cinema para assistir ao filme O Inquilino, dirigido e estrelado por Roman Polanski em 1976. Saí de lá um garoto de 16 anos... assustado! Estava numa idade marcada pela busca da própria identidade e ainda não sabia ao certo o que fazer com as revoluções transformadoras causadas pela puberdade. Por isso, um filme de suspense e terror psicológico onde o protagonista deixa de se reconhecer no espelho, acabou tendo seus efeitos potencializados sobre este cinéfilo em formação. Voltei no dia seguinte para uma nova sessão, ainda incomodado com a possibilidade devastadora de uma tal paranoia, mas dessa vez tive a sensatez de prestar atenção na obra cinematográfica em si. E que obra! O mestre Polanski, contando com a ajuda de Sven Nykvist, o diretor de fotografia que fez um trabalho impecável em diversos filmes de Ingmar Bergman, consegue um refinamento artístico notável. Posso dizer, com segurança, que esse foi o filme mais chocante ao qual assisti na juventude.
        O filme é baseado no romance O Inquilino, escrito em 1964 pelo francês de ascendência polonesa Roland Topor, um autor versátil, que atuou como ilustrador, artista plástico, ator e cineasta, desenvolvendo uma linguagem influenciada pelo surrealismo. Seu livro é contundente e cerebral, construído com uma mistura de pesadelo delirante e humor negro, para investigar em detalhes a crise de identidade do protagonista, um homem gentil e obcecado com a triste sina da inquilina que o antecedeu no apartamento em que mora. A adaptação de Polanski é bastante fiel ao romance e foi escrita com a ajuda do roteirista Gerárd Brach. Mas antes de falar sobre isso, é melhor examinar a sinopse.
        O Inquilino se passa em Paris e conta a história de Trelkovsky (Roman Polanski), um francês de ascendência polonesa muito tímido e extremamente bem-educado. Ele vai visitar um apartamento que está disponível e descobre que a possibilidade de locação ainda está em aberto, por um motivo terrível: a inquilina anterior, a egiptóloga Simone Choule, tentou suicídio se atirando pela janela e agora está no hospital à beira da morte. O apartamento só poderá ser alugado se ela morrer. Consternado, Trelkovsky resolve fazer uma visita de cortesia à moça no hospital e a encontra enfaixada da cabeça aos pés, feito uma múmia. Encontra também uma amiga da vítima, Stella (Isabelle Adjani), que por coincidência resolveu visitá-la no mesmo horário. Diante dos dois, a egiptóloga à beira da morte tem uma reação assustadora: apavorada, emite gritos tão guturais que arrepiam todos os cabelos do espectador. Mais tarde, Trelkovsky é informado da morte de Simone e de que o apartamento, portanto, está definitivamente disponível. Encontrar um imóvel como aquele em Paris não é fácil, portanto, ele assina o contrato. É aí que coisas estranhas começam a acontecer. A vida do protagonista se transforma, enquanto ele passa a ser atormentado pelos vizinhos. Ele mesmo se transfigura, na medida em que vai descobrindo os segredos guardados no apartamento pela inquilina anterior.
        Para adaptar o livro de Roland Topor, Poslanki convocou seu amigo e colaborador frequente, Gérard Brach, um roteirista agorafóbico – desenvolveu a doença no final dos anos 80 – que se tornaria mais conhecido por suas colaborações com Jean-Jacques Annaud, nos filmes A Guerra do Fogo, O Nome da Rosa e O Urso. Polanski e Brach se debruçaram em cada um dos capítulos do livro e descobriram um modo de traduzi-los para a linguagem cinematográfica, tornando o tema menos cerebral e mais... emocional!
        Em O Inquilino, Polanski consegue acrescentar elementos de humor desconcertante, enquanto nos faz respirar uma atmosfera de tensão crescente. Ele valoriza o suspense, mas não está interessado naquele tipo de susto ligeiro, que faz sucesso nos filmes de terror, onde os efeitos especiais se tornam a grande atração. O diretor prefere causar sobressaltos mais duradouros ao enfatizar a psicopatia do protagonista. Cultiva a ambiguidade para deixar que o próprio espectador decida se Trelkovsky está sendo acometido por alguma doença mental ou se está sendo empurrado para o abismo por seus vizinhos suspeitos. Passamos o filme todo tentando descobrir se o perturbado franco-polonês – insisto nisso porque se trata de um traço comum entre personagem, autor e diretor – conseguirá encontrar o fio da meada ou se terminará enrolado na perturbadora teia de delírios, que aprisiona sua alma numa espécie de looping paranoico.
        Anteriormente, Polanski já havia realizado dois outros filmes, cujas histórias estavam confinadas em um apartamento: Repulsa ao Sexo, de 1965 e O Bebê de Rosemary, de 1968. Criou, portanto, uma trilogia do terror psicológico, que fez escola e influenciou cineastas do mudo inteiro. Em O Inquilino ele mostra o que pode acontecer quando temos a nossa privacidade invadida e perdemos o controle sobre o nosso próprio senso de identidade. Seu filme assustador, mas brilhantemente realizado, me fez retornar à sala cinema no dia seguinte e depois, no vídeo cassete, no DVD, na TV por assinatura, no serviço de streaming... Fiquei preso numa espécie de looping cinematográfico!


Resenha crítica do filme O Inquilino

Ano de produção: 1976
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Gérard Brach e Roman Polanski
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Rufus, Shelley Winters, Lila Kedrova, Patrice Alexsandre, Romain Bouteille, Josiane Balasko, Claude Dauphin, Claude Piéplu, Jacques Monod, Jean-Pierre Bagot, Jacques Rosny, Michel Blanc, Eva Ionesco e Albert Delpy

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Roman Polanski:


Comentários

  1. Em que plataforma está?

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    1. Assisti em DVD. Não sei dizer se está disponível em alguma plataforma de streaming.

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  2. Há algum meio de o assistir?

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