Crítica | O Pianista: a história por trás do roteiro de Ronald Harwood e Roman Polanski

Cena do filme O Pìanista
O Pianista: filme dirigido por Roman Polanski

O LIVRO É OBJETIVO, O FILME É EMOCIONANTE

O Pianista é um dos meus filmes preferidos. Não tenho ascendência judia, nem guardo reminiscências familiares da Segunda Guerra Mundial; minha atração pela obra é puramente cinematográfica. Comparada a outras produções mais elaboradas e vistosas, essa é até simples: a narrativa é linear, sem flashbacks ou ações paralelas; tudo o que vemos nos chega pelos olhos do protagonista. É um filme triste, mas edificante. A cada vez que me disponho a revisitar esse filme, sei que não será a última. É uma produção de 2002, mas poderia ser de 2022 ou de 2042! Por ela, Roman Polanski ganhou o Oscar de melhor diretor, Adrien Brody o de melhor ator e Ronald Harwood o de melhor roteiro adaptado.

A busca pela fonte: da literatura ao roteiro

        Elogiar O Pianista é um exercício de redundância. Muito já se escreveu sobre o filme e há pencas de críticas, reportagens e vídeos por toda a internet, que partem de diferentes pontos de vista. Um cinéfilo que se preza, porém, não há de se contentar com opiniões e especulações; gostamos de ir à fonte, buscar algo mais consistente para saciar nossa sede de bom cinema. E como meus interesses estão focados na arte da escrita, decidi descobrir como o livro de Wladislaw Szpilman virou filme.

Cena do filme O Pìanista
O Pianista: Adrien Brody personifica Wladyslaw Szpilman na tela

Com a palavra, o roteirista!

        Minha tarefa investigativa foi simples. Em poucos cliques cheguei a uma palestra que o próprio Sir Ronald Harwood proferiu na BAFTA – British Academy of Film and Television Arts. O dramaturgo britânico é autor de várias peças de teatro e roteiros de filmes, como O Fiel Camareiro, O Escafandro e a Borboleta e, é claro, O Pianista! Experiente, ele transita desenvolto entre a linguagem teatral e o imperativo da imagem no cinema. Ouvir seu depoimento foi esclarecedor.

O convite de Polanski e a afinidade temática

        Harwood conta que o convite para escrever o roteiro partiu do próprio Polanski. Em 2000 o diretor assistiu em Paris à peça escrita por ele, intitulada Taking Sides, que trata de música e nazistas. Pela grande afinidade com temas que envolvem a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, Polanski achou que ele seria o homem certo para adaptar a autobiografia de Wladyslaw Szpilman. A obra foi publicada em 1946 na Polônia e ficou esquecida por décadas, até ser traduzida para o inglês em 1999. No livro, a história contada sem sentimentalismos ou detalhamentos, como se o autor descrevesse o sofrimento de outra pessoa.

Cena do filme O Pìanista
O Pianista: Roman Polanski conta com emoção uma história de entristecer

Descobriram a essência do filme

        Um elemento em especial, chamou a atenção de Harwood: a aparição do capitão Wilm Hosenfeld, perto do fim do livro, quando ele salva a vida de Szpilman. Percebeu que nesse momento de redenção estava contida toda a essência do filme. A partir daí, roteirista e diretor entraram em acordo quanto ao conteúdo e à forma que o filme tomaria: preservariam a abordagem do autor como observador, mas não usariam Szpilman como narrador. Isso implicaria em extrair da ação todo o conteúdo emocional da história, já que, na maior parte do tempo, o personagem estaria sozinho em cena.

Imersão histórica e pesquisa em Varsóvia

        Harwood acompanhou Polanski até Varsóvia, onde reviraram por dias vários arquivos com imagens repugnantes, feitas pelos nazistas. Visitaram os locais históricos e assistiram a documentários deprimentes – material que depois serviu de referência para que Polanski e sua equipe de produção reproduzissem com realismo o gueto de Varsóvia no set de filmagem. Quando voltou e se sentou para escrever o roteiro, Harwood não sabia por onde começar. Levou dias sem encontrar a solução, até que ao receber uma ligação de Polanski, viu-se obrigado a confessar que estava estagnado.
        – Pelo amor de Deus – explodiu o diretor. – O livro se chama O Pianista! Comece com ele tocando piano!
        Foi o empurrão que o roteirista precisava. Deslanchou, ciente de que o maior desafio seria transformar Szpilman e sua família em personagens, sem criar estereótipos, já que o livro os apresentava de forma simbólica – talvez porque o autor desejasse aplacar a dor evocada pelas lembranças. Para vencer o desafio, Harwood buscou nas memórias de sua própria família judia algumas referências valiosas.

Cena do filme O Pìanista
O PIanista: no livro, a dor fica aplacada, no filme, ela explode

O processo colaborativo no isolamento

        Depois que entregou o roteiro, Harwood foi com Polanski para uma casa nas proximidades de Paris, onde se trancaram por um mês, para trabalhar diariamente nos ajustes necessários. Por determinação de Polanski, começaram justamente pelas cenas finais, que envolvem o oficial alemão; para o roteirista, essa foi a forma que o diretor encontrou de focalizar sua imaginação no objetivo final da história. Ambos representavam as cenas em voz alta, enquanto Polanski desenhava esquemas, para indicar o local no set ou o ângulo da câmera e produzia ótimos esboços.

Polanski incluiu suas experiências pessoais 

        Para Harwood, mais do que finalizar o roteiro como um documento técnico, o importante era assegurar a precisão do relato, para garantir que não houvesse a contaminação de emoções falsas na história de Szpilman. O roteirista lembra que o próprio Polanski fez ajustes em alguns pontos e se valeu de sua própria experiência – o diretor foi um sobrevivente do gueto e preferiu usar no filme sua própria versão de como foi salvo por um policial de embarcar para Treblinka.

Cena do filme O Pìanista
O Pianista: uma história comovente de sobrevivência

Um encontro de talentos e um tributo tardio

        Harwood conta que, terminados os ajustes, não houve mais alterações no roteiro. Nem mesmo a cena derradeira, quando Szpilman toca um concerto para piano com orquestra completa – considerada cara demais pelos produtores – sofreu alterações. Em sua palestra, Sir Ronald Harwood fornece ainda algumas dicas preciosas para os que desejam aprender o ofício de escrever roteiros; mas são tecnicidades, que talvez não interessem aos cinéfilos. O importante é a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a história desse filme memorável e descobrir como se dá a interação entre diretor e roteirista, na hora de encontrar o jeito certo de contar uma história. Lamentavelmente o próprio Wladyslaw Szpilman não conseguiu assistir a esse filme. Morto em 2000, ele certamente se surpreenderia com a talentosa adaptação que Roman Polanski fez da sua obra O Pianista.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(5 / 5 estrelas)

O que brilha: o roteiro primoroso, a atuação vigorosa de Adrien Brody, a direção criativa de Roman Polanski e apuro visual da produção.

O que surpreende: apesar de imensamente triste, a história é tão bem contada que nos captura pelos detalhes.

Imperdível. Obra-prima de Polanski.

Ficha técnica do filme O Pianista

Ano de produção: 2002
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Ronald Harwood

  • Elenco:
  • Adrien Brody
  • Thomas Kretschmann
  • Emilia Fox
  • Michał Żebrowski
  • Ed Stoppard
  • Maureen Lipman
  • Frank Finlay
  • Jessica Kate Meyer
  • Julia Rayner
  • David Singer
  • Richard Ridings
  • Daniel Caltagirone
  • Valentine Pelka

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