O Pianista

COMO UMA AUTOBIOGRAFIA CRUA E OBJETIVA VIRA UM FILME EMOCIONANTE NAS MÃOS DO DIRETOR CERTO


O Pianista: filme dirigido por Roman Polanski

            Ok, admito: O Pianista é um dos meus filmes preferidos. Não tenho ascendência judia, nem guardo reminiscências familiares da Segunda Guerra Mundial. Minha atração pela obra é puramente... cinematográfica. Em comparação com produções mais elaboradas e vistosas, essa é até simples: a narrativa é linear, sem flashbacks ou ações paralelas. Tudo o que vemos nos chega pelos olhos do protagonista. É documental, mas dramatizado. É triste, mas edificante. Cada cena é construída para valorizar o personagem e sua história.
            Na primeira vez que assisti a O Pianista, o fiz com o respeito e a reverência de quem está diante de uma obra-prima. Depois disso, a cada vez que me disponho a revê-lo, sei que não será a última. É um filme de 2002, mas poderia ser de 2020 ou de 2040. Por ele, Roman Polanski ganhou o Oscar de melhor diretor, Adrien Brody o de melhor ator e Ronald Harwood o de melhor roteiro adaptado.
            Elogiar O Pianista é chover no molhado. Muito já se escreveu sobre o filme e há pencas de críticas, reportagens e vídeos por toda a internet, partindo de diferentes pontos de vista. Mas um cinéfilo que se preza não há de se contentar com opiniões e especulações. Gostamos de ir à fonte, buscar algo mais consistente para saciar nossa sede de bom cinema. E como meus interesses estão focados na arte da escrita, decidi descobrir como o livro de Wladislaw Szpilman virou filme.
            A tarefa foi simples. Em poucos cliques cheguei a uma palestra que o próprio Sir Ronald Harwood proferiu na BAFTA – British Academy of Film and Television Arts. O dramaturgo britânico é autor de várias peças de teatro e de roteiros de filmes como O Fiel Camareiro, O Escafandro e a Borboleta e, é claro, O Pianista! Experiente, ele transita desenvolto entre a linguagem teatral e o imperativo da imagem no cinema. Ouvir seu depoimento foi esclarecedor.
            Ele começa contando que o convite para escrever o roteiro partiu do próprio Roman Polanski, que em 2000 assistiu em Paris à peça Taking Sides, escrita por ele, que falava sobre música e nazistas. Pela grande afinidade com temas que envolvem a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, Polanski achou que ele seria o homem certo para fazer a adaptação de O Pianista.
            A obra autobiográfica de Wladyslaw Szpilman foi publicada em 1946 na Polônia e ficou esquecida por décadas, até ser traduzida para o inglês em 1999. Harwood conta que encontrou uma história contada sem sentimentalismos ou detalhamentos, como se o autor descrevesse o sofrimento de outra pessoa. Mas um elemento chamou sua atenção: a aparição do capitão Wilm Hosenfeld, perto do fim, salvando a vida de Szpilman. Percebeu que nesse momento de redenção estava contida toda a essência do filme.
            Harwood e Polanski logo entraram em acordo quanto ao conteúdo e à forma que o filme tomaria. Preservariam a abordagem do autor como observador, mas não usariam Szpilman como narrador. Isso implicaria em extrair da ação todo o conteúdo emocional da história, já que na maior parte do tempo o personagem estaria sozinho em cena.
            Harwood então acompanhou Polanski até Varsóvia, onde passaram dias revirando arquivos com imagens repugnantes feitas pelos nazistas, visitando os locais históricos e assistindo a documentários deprimentes – material que depois serviu de referência para que Polanski e sua equipe de produção reproduzissem com realismo o gueto de Varsóvia no set de filmagem.
            Quando voltou e se sentou para escrever o roteiro, Harwood não sabia por onde começar. Levou dias sem encontrar a solução, até que ao receber uma ligação de Polanski, viu-se obrigado a confessar que estava estagnado.
            – Pelo amor de Deus – explodiu o diretor. – O livro se chama O Pianista! Comece com ele tocando piano!
            Foi o empurrão que o roteirista precisava. Deslanchou, tendo em mente que o maior desafio seria transformar Szpilman e sua família em personagens, sem criar estereótipos, já que o livro os apresentava de forma simbólica – talvez porque o autor desejasse aplacar a dor que sua lembrança evocava. Para vencer o desafio, Harwood buscou nas memórias de sua própria família judia algumas referências valiosas.
            Depois que entregou o roteiro, Harwood foi com Polanski para uma casa nas proximidades de Paris onde se trancaram por um mês trabalhando diariamente nos ajustes necessários. Por determinação de Polanski, começaram justamente pelas cenas finais, que envolvem o oficial alemão. Para o roteirista, essa foi a forma que o diretor encontrou de focalizar sua imaginação no objetivo final da história. Ambos representavam as cenas em voz alta, enquanto Polanski desenhava esquemas indicando o local no set ou o ângulo da câmera, produzindo ótimos esboços.
            Para Harwood, mais do que finalizar o roteiro como um documento técnico, estavam assegurando a precisão do relato, garantindo que não houvesse a contaminação de emoções falsas na história de Szpilman. O roteirista lembra que o próprio Polanski fez ajustes em alguns pontos, valendo-se de sua própria experiência – o diretor foi um sobrevivente do gueto e preferiu usar no filme sua própria versão de como foi salvo por um policial de embarcar para Treblinka.
            Harwood conta que, terminados os ajustes, não houve mais alterações no roteiro. Nem mesmo a cena derradeira, quando Szpilman toca um concerto para piano com orquestra completa – considerada cara demais pelos produtores – sofreu alterações.
            Em sua palestra, Sir Ronald Harwood fornece ainda algumas dicas preciosas para os que desejam aprender o ofício de escrever roteiros. Mas são tecnicidades que talvez não interessem aos cinéfilos. O importante é a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a história desse filme memorável e descobrir como se dá a interação entre diretor e roteirista na hora de encontrar o jeito certo de contar uma história.
            Lamentavelmente o próprio Wladyslaw Szpilman não conseguiu assistir a esse filme. Morto em 2000, ele certamente se surpreenderia com a talentosa interpretação que Roman Polanski fez da sua obra O Pianista.


Sir Ronald Harwood, vencedor do Óscar de melhor roteiro adaptado de 2003 pelo seu trabalho em O Pianista




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