Crítica | O Pianista: sobreviver é a maior vitória!
O Pianista: filme dirigido por Roman Polanski

O Pianista: Roman Polanski conta com emoção uma história de entristecer
– Pelo amor de Deus – explodiu o diretor. – O livro se chama O Pianista! Comece com ele tocando piano!
COMO TRANSFOR UM LIVRO OBJETIVO NUM FILME EMOCIONANTE
Vencedor da Palma de Ouro no festival de Cannes, O Pianista, dirigido em 2002 por Roman Polanski, é um filme triste. Em alguns momentos, o impulso que nos vem é o de desviar o olhar, fazer de conta que não é com gente. Mas é! Nós, seres humanos, somos capazes de atrocidades difíceis de descrever. Também vamos até a outra ponta da escala moral em velocidades incríveis: podemos ser caridosos, justos, heroicos... O diretor intercala esses dois polos em cenas de cortar o coração, tornando angustiante a experiência do espectador. Nazistas exterminando judeus – física e moralmente – jamais é uma visão agradável, mas Polanski a exibe sem apelar para o melodrama. Lança mão de um estilo documental, ora nos deixando observar à distância, ora nos aproximando até o íntimo dos personagens. Faz cinema relevante.
A vitória está em conseguir sobreviver
O filme conta a história do judeu-polonês Władysław Szpilman (Adrien Brody), o famoso pianista, astro da Rádio de Varsóvia. Quando a Alemanha invade a Polônia em 1939, ele e sua família experimentam a fúria nazista: primeiro são confinados no Gueto de Varsóvia e depois despachados para os campos de extermínio. Szpilman é salvo no último momento e passa a viver escondido no gueto desocupado e nas fantasmagóricas ruínas da cidade. Determinado a sobreviver, ele luta contra a fome, o frio extremo e a solidão. Vive a dor da perda e resiste como pode ao horror do Holocausto, ajudado pela resistência enquanto foi possível; por conta própria quando tudo já parecia irremediavelmente perdido.
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Saber que a história de Wladyslaw Szpilman aconteceu de fato, aumenta o impacto emocional do filme, assim como a fotografia primorosa assinada por Pawel Edelman. O design de produção, elaborado por Allan Starski, desce aos detalhes e adiciona camadas de realismo, enquanto a atuação minimalista de um Adrien Brody abatido e derrotado nos mantém hipnotizados. Mas é no roteiro primoroso que encontraremos a grande força de O Pianista. Ele estabelece uma narrativa linear, sem flashbacks ou ações paralelas; tudo o que vemos nos chega pelos olhos do protagonista, enquanto os diálogos, em estilo teatral, garantem uma abordagem sóbria e solene.O homem certo para o desafio
O roteiro de O Pianista foi escrito pelo dramaturgo britânico Sir Ronald Harwood, autor de várias peças de teatro e de roteiros para filmes como O Fiel Camareiro e O Escafandro e a Borboleta. Experiente, ele transita com desenvoltura entre a linguagem teatral e o imperativo da imagem no cinema. Depois de assistir à sua peça, intitulada Taking Sides, que trata de música e nazistas, Polanski concluiu que ele seria o homem certo para adaptar a autobiografia de Wladyslaw Szpilman.
O Pianista: Roman Polanski conta com emoção uma história de entristecer
Um livro objetivo, escrito com distanciamento
O livro, publicado originalmente na Polônia, em 1946, ficou esquecido por décadas, até ser traduzido para o inglês em 1999. Szpilman conta sua história sem apelar para o sentimentalismo e sem entrar em muitos detalhes – como se descrevesse os sofrimentos vivido por outra pessoa. A cena mais emocionante é a que narra o aparecimento do capitão alemão Wilm Hosenfeld, o homem que salva sua vida. O diretor e o roteirista então decidiram preservar essa abordagem do autor como observador, mas eliminaram a sua narração em primeira pessoa. preferindo extrair o conteúdo emocional diretamente da ação dramatizada.Imersão histórica e pesquisa em Varsóvia
O roteirista acompanhou Polanski até Varsóvia, onde reviraram por dias vários arquivos com imagens repugnantes, feitas pelos nazistas. Visitaram os locais históricos e assistiram a documentários deprimentes – material que depois serviu de referência para que Polanski e sua equipe de produção reproduzissem com realismo o gueto de Varsóvia no set de filmagem. Quando voltou e se sentou para escrever o roteiro, Harwood não sabia por onde começar. Levou dias sem encontrar a solução, até que ao receber uma ligação de Polanski, viu-se obrigado a confessar que estava estagnado.– Pelo amor de Deus – explodiu o diretor. – O livro se chama O Pianista! Comece com ele tocando piano!
Foi o empurrão que o roteirista precisava!
Ano de produção: 2002
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Ronald Harwood
O processo colaborativo no isolamento
Harwood buscou nas memórias de sua própria família judia as referências que precisava para transformar Szpilman e sua família em verdadeiros personagens, sem criar estereótipos – no livro eles são apresentados de forma simbólica, talvez porque o autor desejasse aplacar sua dor. Concluído o roteiro, Harwood foi com Polanski para uma casa nas proximidades de Paris, onde se trancaram por um mês, para trabalhar diariamente nos ajustes necessários. Por determinação de Polanski, começaram pelas cenas finais, que envolvem o oficial alemão, para focalizar o objetivo final da história. Ambos representavam as cenas em voz alta, enquanto Polanski desenhava ótimos esboços, indicando o local no set e os ângulos da câmera.Polanski incluiu suas experiências pessoais
Para Harwood, mais do que finalizar o roteiro como um documento técnico, o importante era assegurar a precisão do relato, para garantir que não houvesse a contaminação de emoções falsas na história de Szpilman. O roteirista lembra que o próprio Polanski fez ajustes em alguns pontos e se valeu de sua própria experiência – o diretor foi um sobrevivente do gueto e preferiu usar no filme sua própria versão de como foi salvo por um policial, no momento em que seria jogado no trem para Treblinka. Terminados os ajustes, não houve mais alterações no roteiro. Nem mesmo a cena derradeira, quando Szpilman toca um concerto para piano com orquestra completa – considerada cara demais pelos produtores – sofreu alterações.
O Pianista: uma história comovente de sobrevivênciaUm filme com prazo de validade indeterminado
Lamentavelmente o próprio Wladyslaw Szpilman não conseguiu assistir a esse filme. Morto em 2000, ele certamente se surpreenderia com a talentosa adaptação que Roman Polanski fez da sua obra O Pianista. A cada vez que me disponho a revisitar esse filme, sei que não será a última. É uma produção de 2002, mas poderia ser de 2022 ou de 2042! Por ela, Roman Polanski ganhou o Oscar de melhor diretor, Adrien Brody o de melhor ator e Ronald Harwood o de melhor roteiro adaptado. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: o roteiro primoroso, a atuação vigorosa de Adrien Brody, a direção criativa de Roman Polanski e apuro visual da produção.
O que surpreende: apesar de imensamente triste, a história é tão bem contada que nos captura pelos detalhes.
Imperdível. Obra-prima de Polanski.
Ficha técnica do filme O Pianista
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Ronald Harwood
- Elenco principal:
- Adrien Brody
- Thomas Kretschmann
- Emilia Fox
- Michał Żebrowski
- Ed Stoppard
- Maureen Lipman
- Frank Finlay
- Jessica Kate Meyer
- Julia Rayner
- David Singer
- Richard Ridings
- Daniel Caltagirone
- Valentine Pelka




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