Crítica | Nascido Para Matar: em vez de um filme de guerra, Stanley Kubrick fez um filme contra a guerra

Cena do filme Nascido Para Matar
Nascido Para Matar: filme dirigido por Stanley Kubrick

INSULTOS DISPARADOS PARA LAVAR CÉREBROS

Quando lançaram nos cinemas o filme Nascido Para Matar, dirigido em 1987 por Stanley Kubrick, ouvi de alguns amigos uma enxurrada de críticas negativas. A reclamação geral era a de que o filme termina na melhor parte, justamente quando começa a engrenar. É claro que não me deixei impressionar; Kubrick nunca foi um cineasta popular e nem mesmo estava vocacionado para as grandes bilheterias. Fui conferir e entendi o porquê de tanto mau humor: em vez de um filme de guerra tradicional, repleto de ação desenfreada, o que encontrei foi um drama denso e cruel sobre a natureza desumana do treinamento para a guerra.

Mais uma história adaptada por Kubrick

        Stanley Kubrick tomou como base o romance The Short-Timers, que Gustav Hasford publicou em 1979, onde narrou suas experiências durante a Guerra do Vietnã como jornalista militar e correspondente de guerra. Na adaptação que fez para o cinema, o diretor escreveu o roteiro em colaboração com Michael Herr e também com o próprio autor da história. Mas, como sempre, Kubrick manteve controle absoluto sobre o conteúdo do seu filme.

Cena do filme Nascido Para Matar
Nascido Para Matar: Stanley Kubrick mostra a robotização dos soldados

Metralhadora de ofensas

        Kubrick dividiu Nascido Para Matar em dois atos. No primeiro, seguindo fielmente o livro, acompanhamos o treinamento de um pelotão de fuzileiros navais, comandado pelo sargento Hartman. A fúria verbal à qual somos submetidos junto com os recrutas é excruciante. A munição de insultos que o sargento dispara feito metralhadora contra Joker e Pyle, os dois protagonistas, é de grosso calibre e interminável. Na tela do cinema, a precisão das palavras ganha uma força dramática de tirar o fôlego; revela como é o processo de lavagem cerebral ao qual os recrutas são submetidos – com consequências trágicas.

Cena do filme Nascido Para Matar
Nascido Para Matar: a insanidade não está apenas no front

Guerreiros robotizados

        Na segunda parte, Joker experimenta a guerra em todas as suas facetas, nas ruas de Saigon, nas aborrecidas reuniões de pauta da imprensa militar e no campo de batalha. Já não vemos a força dos diálogos precisos da primeira parte, mas acompanhamos soldados que não se mostram no controle de suas mentes. Kubrick parece nos dizer que se há algum sentido em moldar guerreiros robotizados durante a primeira metade do filme, ele se dissolve diante do absurdo banalizado e da insanidade que ditam o ritmo na segunda metade.

Cena do filme Nascido Para Matar
Nascido Para Matar: a guerra em todas as suas facetas

O mestre em sua melhor forma

        Nascido Para Matar não é um filme de guerra. É contra a guerra. A produção cuidadosa, a obsessão no tratamento visual e a fluência narrativa são as de um Kubrick na sua melhor forma. Mas nada disso satisfaz quem entra na sala de cinema esperando ver cenas de batalhas realistas. Nem mesmo a participação de R. Lee Ermey, ex-sargento da marinha que interpretou o sargento Hartman – e criou ele mesmo grande parte das suas linhas de diálogo – traz qualquer sensação de realidade bélica. Ao contrário, parece que Kubrick pinçou justamente os momentos mais insanos e sem sentido. Era bem isso que este cinéfilo entusiasmado esperava dele. Saí do cinema satisfeito!

Veredito da crônica de cinema

★★★★★(5 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Stanley Kubrick, a adaptação bem escrita, o ótimo trabalho dos atores, a concepção visual impecável e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: Kubrick mantém o foco nos seus personagens, para discutir a fronteira entre a insanidade e a lucidez diante dos imperativos da guerra.

Imperdível. É cinema de alta qualidade.

Ficha técnica do filme Nascido Para Matar

Ano de produção: 1987
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Michael Herr e Gustav Hasford

  • Elenco:
  • Matthew Modine
  • Adam Baldwin
  • Vincent D'Onofrio
  • Lee Ermey
  • Dorian Harewood
  • Arliss Howard
  • Kevyn Major Howard
  • Ed O'Ross

Comentários

  1. Kubrick inovando como criando uma linguagem para criticar não somente a guerra na Indochina, mas em particular, a formação militar em si, pondo como mesmo falou, o período de caserna como um hospício e da cena final da primeira fase copiando o clássico da literatura "crime & castigo".
    Ficamos sem piscar os olhos durante o primeiro tempo seguindo seu ritmo que se quebra um pouca na virada quando todos formados já estão no front nos detalhando as ações e camuflagem dessas ações. Além do mais interessante : o treinamento se demonstra bastante inútil numa guerra de guerrilha onde um atirador pode manter detida por um tempo um batalhão de infantaria motorizada e seus tanques (coisa que realmente aconteceu)
    Com um final apoteótico quanto surreal denotando toda alienação dos jovens combatentes. A ideia pode ser ótima, mas a forma e estrutura em como expor a ideia, somente mestres do cinema conseguem.
    Tive o privilégio de ler Full metal jackett de Gustavo Hasford, autor do livro que Kubrick assim filmou. Ele somente excluiu uma cena de alojamento onde os recrutas disputam a noite quem mata mais baratas de tanto massacre mental do instrutor veterano que é um ex-combatente do Vietnã e já havia sido assessor técnico para Platoon de Stone dois anos antes.
    Uma obra que chega perto da perfeição
    Mas creio que foi o seu último grande filme.
    Grato genius Kubrick

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