Laranja Mecânica: um clássico que já foi proibido


Laranja Mecânica: filme dirigido por Stanley Kubrick

UMA HISTÓRIA SOBRE A VIOLÊNCIA, O CONTROLE DO ESTADO E A LINGUAGEM COMO INSTRUMENO DE TRANSFORMAÇÃO

Era um garoto de dez anos quando Laranja Mecânica foi realizado por Stanley Kubrick em 1971. Por volta dos quinze, fiquei sabendo da existência do polêmico filme, porque a mídia o abordava em frequentes reportagens – o próprio diretor, vejam só, havia pedido para banir a película das salas de exibição na Inglaterra, por ser hiperviolenta e sexualmente apelativa. Além disso, as estrelas do rock britânico estavam sempre fazendo referências ao filme, mantendo acesa a curiosidade do resto do mundo. Enquanto isso, no Brasil, Laranja Mecânica estava proibido de pôr os pés.
        Por óbvio, minha curiosidade se voltou primeiro para o título do filme. Que serventia teria um tal mecanismo em forma de laranja? Mais tarde descobri se tratar de uma expressão criada pelo autor do livro, Anthony Burgess, para se referir ao sujeito que, por fora, irradia uma bela cor e até aparenta ter suco, mas na verdade não passa de um brinquedinho mecânico nas mãos do Estado. Lembro também que as mesas e cadeiras da boate frequentada pelos personagens, com a forma de mulheres nuas – as revistas vez ou outra publicavam fotos delas – apareciam junto com palavras estranhas, escritas numa tipografia sinuosa ultramoderna. Que misterioso universo seria aquele?
        Tinha 18 anos quando o filme foi finalmente liberado por aqui. Pude entrar no cinema e conferir se era isso tudo o que comentavam. Saí indignado com as patéticas bolas pretas que os censores mandaram pintar para tapar as partes pudendas das moças peladas. Também saí embriagado com as altas doses de inovação que ingeri naquelas duas horas e poucos minutos. Ninguém fazia cinema como Stanley Kubrick!
        Laranja Mecânica é um dos romances mais influentes do Século XX. Conta uma história centrada na violência, com doses exageradas de sangue e delírios da juventude, onde o Estado é o controlador absoluto e a linguagem um instrumento para transformar o mundo. Para contá-la, Anthony Burgess criou uma gíria, a qual chamou de Nadsat, misturando vocábulos do inglês e do russo com palavras que ele mesmo inventou. Ao longo da narrativa, isso causa uma sensação estranha, na medida em que o leitor se vê obrigado a intuir os significados. A edição em português traz um glossário para orientar o leitor, mas os ingleses não contaram com essa facilidade. Tiveram que aprender a gíria na marra! Na sua adaptação para o cinema, Kubrick foi fiel ao romance, mas seu roteiro incorporou novas ideias narrativas e reformulou algumas cenas.
        O filme conta a história de Alex, um jovem delinquente que abusa das drogas, lidera uma gangue e vaga pela noite praticando ultraviolência. Estupros, invasões, roubos, crimes... Nada excita Alex mais do que a vida desregrada e sanguinária que leva – a não ser, é claro, a música de Beethoven! Traído pelos comparsas depois de cometer um assassinato, ele é preso e sentenciado a 14 anos. Na prisão, oferecem a ele uma oportunidade única: participar como voluntario de um tratamento experimental do governo, que em poucos dias irá reabilitá-lo ao convívio da sociedade. A técnica radical irá transformar sua relação com a violência, com o sexo e com a música de Beethoven.
        Laranja Mecânica foi um dos cinco romances que Anthony Burguess escreveu simultaneamente em 1959, depois que foi diagnosticado com câncer cerebral em fase terminal. Queria deixar alguma renda para sua mulher, Lynne. A ideia para o livro foi motivada por uma experiência angustiante e violenta que Lynne viveu, quando foi atacada por soldados durante um blackout em Londres, em plena Segunda Guerra. O diagnóstico de câncer cerebral estava errado e Burguess seguiu com sua carreira literária de sucesso até 1993, quando morreu de câncer de pulmão.
        Laranja Mecânica se tornou um best seller no mundo inteiro e acabou caindo nas mãos de Kubrick, um mestre em adaptar obras literárias. Porém, Burgess não ficou satisfeito, pois o diretor escreveu seu roteiro com base na edição americana do livro, que omitiu o capítulo final publicado na edição britânica, onde o autor escreve um final mais otimista. Livre dos seus ímpetos violentos, Alex agora almeja ser pai e construir uma família. Kubrick preferiu terminar seu filme congelando no sarcasmo e no cinismo do personagem.
        Stanley Kubrick materializou em imagens aquilo que Anthony Burguess concebeu em palavras, mas no cinema, a violência que o leitor podia apenas imaginar terminou amplificada, chocante e graficamente elaborada. Talvez Burguess tenha considerado o filme violento demais e por isso o acabou renegando – o espectador de hoje certamente não enxergará motivo para tanta celeuma, pois a violência no cinema veio crescendo de forma exponencial nesses 50 anos.
        Para finalizar, quero dizer que naquele ano de 1978, quando saí da sala de cinema, trouxe comigo uma nova paixão: a música eletrônica que serviu de trilha sonora para Laranja Mecânica. Aqui, novamente, Stanley Kubrick usou e abusou da música erudita, como já havia feito em 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Assinada por Walter Carlos (Wendy Carlos depois que mudou de sexo), a trilha curiosamente inclui mais peças de Rossini do que de Beethoven – mas é a sua Nona Sinfonia que nos vem à mente quando lembramos desse filme.


Filme: Laranja Mecânica


Ano de produção: 1971
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor, Madge Ryan, Anthony Sharp, Philip Stone, Michael Tarn, David Prowse, Carol Drinkwater, Steven Berkoff e Margaret Tyzack

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