Crítica | Vidas em Jogo: thriller envolvente com a grife David Fincher

Vidas em Jogo: direção de David Fincher
O JOGO MAIS ESTIMULANTE É AQUELE ENTRE O DIRETOR E O ESPECTADOR
Não assisti no cinema ao filme Vidas em Jogo, dirigido em 1997 por David Fincher. Passou-me batido na época. Em compensação, alcancei a redenção dia desses, quando tropecei com o título no serviço de streaming. Que felicidade poder conferir essa preciosidade! Trata-se um grande filme, com qualidades inquestionáveis, ainda que considerado uma obra menor do diretor. Realizado logo depois de Se7en - Os Sete Crimes Capitais e logo antes de Clube da Luta, Vidas em Jogo ficou no meio do caminho, como um título menos inovador, menos ousado e menos provocativo – atributos que se tornaram obrigatórios para um filme da grife David Fincher.
Inspiração em Alfred Hitchcock
Os cinéfilos mais atentos, entretanto, perceberão que está tudo lá: a atmosfera onírica, a tensão permanente, as confusões mentais, a total incerteza quanto aos rumos da história... Só faltaram as aberrações morais beirando o escatológico; talvez porque Fincher tenha preferido enveredar por caminhos mais convencionais. Vidas em Jogo é um thriller claramente inspirado nos filmes do mestre Alfred Hitchcock e por isso mesmo resulta palatável e agradável de se assistir. Todavia, fica o alerta: a agonia de não poder confiar em personagem algum, nem jamais saber onde está a verdade, é de fazer ranger os dentes! Antes de explicar esse ponto, será preciso examinar a sinopse:
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Vidas em Jogo: Michael Douglas em ótima atuação
A vida virando do avesso
Vidas em Jogo conta a história de Nicholas Van Orton (Michael Douglas), um banqueiro endinheirado que está prestes a completar 48 anos, a mesma idade que seu pai tinha quando se suicidou, ao pular do telhado da mansão. A data, portanto, tem significados perturbadores. Para comemorar, seu irmão, Conrad (Sean Penn), surge com um presente inusitado: um ingresso para participar de um jogo supostamente espetacular, disponível apenas para jogadores exclusivos, que será capaz de tirar o aniversariante do marasmo emocional em que se encontra.
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Vidas em Jogo: uma trama intrincada, repleta de reviravoltas
O jogo é organizado por uma empresa chamada CRS – Consumer Recreation Services, mas Nicholas não é informado do que se trata exatamente. Ainda assim, talvez por curiosidade e certamente por vaidade, decide aceitar. As situações estranhas não tardam a acontecer. De súbito, elas se tornam absurdas e depois, desesperadoras. A vida de Nicholas é virada do avesso, tudo em nome do tal jogo. Quando ele se envolve com a sedutora Christine (Deborah Kara Unger), as complicações só aumentam, na mesma proporção das suas dúvidas: afinal, do que se trata esse tal jogo?
Um roteiro aprimorado
O excelente roteiro de Vidas em Jogo foi escrito em 1991 pela dupla John Brancato e Michael Ferris – mais tarde, eles assinariam os roteiros de sucessos comerciais como A Rede, O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas e Substitutos. Quando o filme finalmente entrou em produção, ganhou a adesão de David Fincher, que chamou Andrew Kevin Walker, o roteirista de Se7en, para fazer intervenções não creditadas no texto. O resultado foi brilhante: o ritmo da narrativa ficou mais acelerado, incorporando reviravoltas em sequência que são de tirar o fôlego; as linhas de diálogo seguem com elegância, sem se perder em propósitos expositivos, o que aumentou o clima de mistério e criou suspense na medida certa para pontuar as cenas de ação..jpg)
Vidas em Jogos: desconfia-se de todos os personagens
Produção caprichada
Os méritos de David Fincher, entretanto, são ainda maiores. O diretor conseguiu tirar essa trama do papel e materializá-la em um filme empolgante; com seu notável domínio da linguagem cinematográfica, transformou Vidas em Jogo em um thriller relevante e original. A fotografia em cores esmaecidas, assinada por Harris Savides, ressalta as tomadas noturnas, aumentando a atmosfera sombria. A trilha sonora de Howard Shore conduz as emoções do espectador, nos moldes do que ouvíamos nos filmes de Hitchcock, mas permanece sutil a ponto de passar despercebida e deixar apenas uma sensação enervante. O visual bem cuidado, com planos e movimentos de câmera sempre elaborados, ajuda a contar a história e a manter o espectador envolvido. E a sequência de abertura, com cenas de filmes caseiros que revelam a infância do protagonista em seu momento mais marcante, é de um preciosismo gráfico notável; de cara denuncia a sensibilidade artística do diretor.Um filme para ser revisitado
É claro que, durante todo o filme, as perguntas que martelaram na minha cabeça foram aquelas que o diretor me induziu a fazer: do que consiste, afinal, esse tal jogo? Existe algum personagem confiável? Como o protagonista conseguirá sobreviver? Será que a verdade aparecerá no final? Depois do filme, porém, só uma pergunta continuou a me incomodar: como posso ter ficado sem assistir a esse filme por tantos anos? Já estou me programando para revisitá-lo.Veredito da crônica de cinema
★★★★☆(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de David Fincher, o roteiro bem arquitetado, a ótima performance do elenco, a trilha sonora e a concepção visual.
O que surpreende: mesmo com a sucessão de reviravoltas, o diretor consegue manter a integridade dramática da trama, graças a um excelente equilíbrio entre dramatização e expsosição.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Vidas em Jogo
Título original: The GameTítulo em Portugal: O Jogo
Ano de produção: 1997
Direção: David Fincher
Roteiro: John Brancato e Michael Ferris
- Elenco:
- Michael Douglas
- Sean Penn
- James Rebhorn
- Deborah Kara Unger
- Peter Donat
- Carroll Baker
- Armin Mueller-Stahl
- Anna Katarina
- Charles Martinet
- Mark Boone Junior
- Tommy Flanagan
- Spike Jonze
- Linda Manz
- Daniel Schorr
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ResponderExcluirVi este filme. Faz tempo já mas muito interessante.
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