A Morte Lhe Cai Bem: humor negro e computação gráfica

A Morte lhe Cai Bem: direção de Robert Zemeckis
UM FILME À FRENTE DO SEU TEMPO!
Em 1992, minha calvície ainda não dava sinais de que sairia vencedora. Precisava ir de vez em quando ao barbeiro – geralmente nas manhãs de sábado – para dar aos cabelos algum corte que me salvasse a aparência. Era sentar-me na cadeira e pronto: alguém jogava nas minhas mãos um exemplar da Revista Caras, para que me distraísse com a vanglória dos ricos e famosos. Num mundo sem celulares e sem redes sociais, publicações desse tipo eram as únicas janelas disponíveis para quem desejasse bisbilhotar a vida alheia. Com o advento da internet, o jogo virou: todo mortal agora pode manter a pose e se camuflar de celebridade.Em tempos analógicos, havia duas possibilidades: ou você estava nas páginas de Caras, ou não estava. Se estivesse, era um vencedor; se não estivesse, que continuasse tentando. Hoje, as possibilidades são infinitas, já que todas as páginas na internet podem ser da Revista Caras; é o colunismo social em escala global, turbinado pelo poder cosmético da inteligência artificial. Banalizada, a ostentação perdeu o caráter de exclusividade; qualquer um que se disponha a canalizar seus talentos para ganhar popularidade, pode arrebanhar seguidores, fazer amigos e influenciar pessoas.
Em 1992, no entanto, o centro geográfico da luta pelo espaço promocional estava em Hollywood; para lá convergiam todos os olhares, na tentativa de conquistar um lugar ao sol ou de simplesmente identificar tendências lucrativas. Foi quando Robert Zemeckis dirigiu o filme A Morte lhe Cai Bem, na esteira do sucesso estrondoso alcançado por seus filmes anteriores, Forrest Gump, Náufrago e a trilogia De Volta Para o Futuro. Disposto experimentar uma temática mais ousada, decidiu se embrenhar no universo peculiar das estrelas de cinema, onde tudo gira em torno da beleza; realizou uma comédia ácida e inteligente, carregada de humor negro, frases de efeito e tiradas sagazes, que muitos críticos não acharam nada engraçadas.
A Morte lhe Cai Bem foi massacrado pela crítica na época do seu lançamento. A inveja destrutiva e a superficialidade asquerosa das protagonistas, que só fazem cultivar uma rivalidade regida pela competição desleal, talvez tenham servido de carapuça para os que circulam com naturalidade pelo habitat hollywoodiano. Torceram o nariz! Pode ser, eventualmente, que as bizarrices góticas, geradas por meio de uma computação gráfica ainda em seus primórdios, tenham ferido suscetibilidades entre a crítica mainstream. Digo isso porque, depois de revisitar esse filme há poucos dias, não vi deméritos que justificassem os altos índices de rejeição; ao contrário, as qualidades da produção me ficaram evidentes.
Vale a pena lembrar da sinopse: A Morte lhe Cai Bem é sobre Madeline Ashton (Meryl Streep), uma atriz decadente que experimentou seu auge em grandes musicais da Broadway. Ela reencontra a velha rival e aspirante a escritora, Helen Sharp (Goldie Hawn), que está prestes a se casar com o cirurgião plástico, Ernest Menville (Bruce Willis). Helen termina numa clínica psiquiátrica, gorda e deprimida, depois que Madeline lhe rouba o noivo. Sete anos depois, o casal apaixonado passa por uma crise: Madeline está angustiada com os efeitos do envelhecimento e Ernest virou um alcoólatra sem motivação pela vida. Eis que Helen ressurge na vida dos dois, mais jovial e esfuziante do que nunca. Tomada pela inveja, Madeline bebe uma poção mágica fornecida pela misteriosa Lisle von Rhuman (Isabella Rossellini), uma octogenária que se diz especialista em rejuvenescimento. Agora, embriagada pela perspectiva da vida eterna e sempre jovem, Madeline ganha motivação para retomar o casamento, mas vai esbarrar na conspiração tramada entre Helen e Ernest. Também terá que lidar com os estranhos efeitos colaterais da imortalidade.
Atrevo-me a dizer que A Morte lhe Cai Bem não envelheceu! A temática da beleza epidérmica – incluindo todas as bizarrices que alguns são capazes de fazer para permanecer jovens e sedutores – continua atual. Nos tempos da Revista Caras, só as estrelas de cinema e as celebridades precisavam se preocupar com a exposição púbica; hoje, qualquer um tem seu próprio público e pode mensurar o sucesso pela quantidade de aplausos – ou likes – que recebe. Não sei o diretor Robert Zemeckis anteviu essa... distopia, mas o fato é que ele soube explorar muito bem as camadas mais inusitadas dos seus personagens. Combinou seu domínio da linguagem cinematográfica com um senso de humor inteligente e sagaz.
O roteiro de A Morte lhe Cai Bem foi escrito pelo experiente Martin Donovan, em parceria com o estreante David Koepp – aqui ele contava apenas 27 anos, mas depois pôs sua assinatura em arrasa-quarteirões, como Jurassic Park, Missão Impossível e Guerra dos Mundos. O que era para ser um filme de baixo orçamento tornou-se uma produção endinheirada quando Zemeckis decidiu assumir a direção; ele trouxe consigo a equipe da Industrial Light and Magic, responsável pelos mesmos efeitos de computação gráfica que no ano seguinte encantaria o público com os dinossauros verossímeis no filme de Spielberg.
A Morte lhe Cai Bem é um produto da azeitada máquina hollywoodiana. Partiu de um roteiro bem escrito, contou com o talento de um diretor visionário e serviu de palco para ótimas atuações – o elenco se esbaldou com o texto preciso e os diálogos afiados. E no final das contas, nos deixa uma mensagem edificante: as protagonistas, carcomidas pela inveja, pela luxúria e por outros pecados capitais, não terminam bem. A beleza e jovialidade não conseguem suprir a falta de conteúdo por muito tempo. Um dia, a casa cai!
Resenha crítica do filme A Morte Lhe Cai Bem
Título original: Death Becomes HerTítulo em Portugal: A Morte Fica-Vos Tão Bem
Ano de produção: 1992
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Martin Donovan e David Koepp
Elenco: Meryl Streep, Goldie Hawn, Bruce Willis, Isabella Rossellini, Ian Ogilvy, Adam Storke, Alaina Reed Hall, Michelle Johnson, Mary Ellen Trainor, Nancy Fish, Susan Kellermann, William Frankfather, John Ingle, Debra Jo Rupp, Danny Lee Clark e Sydney Pollack
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