O Quarto do Pânico: um thriller ágil e envolvente

Cena do filme O Quarto do Pânico
O Quarto do Pânico: direção de David Fincher

NARRATIVA VISUAL COMPLEXA PARA UM ROTEIRO ENXUTO

Depois de trabalhar nos roteiros de grandes sucessos de bilheteria, como A Morte lhe Cai Bem, Jurassic Park e Missão Impossível, David Koepp se tornou um dos roteiristas mais requisitados de Hollywood. No início dos anos 2000, ele tropeçou em algumas reportagens sobre os tais quartos do pânico, que ganhavam espaço nas casas dos milionários preocupados com segurança; no caso de invasão por assaltantes ou malfeitores, era lá que eles se enfurnavam, até a chegada da polícia. Na mente de um roteirista talentoso, no entanto, as coisas jamais aconteceriam assim, de maneira tão simples. Certamente haveria complicações!
        O conceito do quarto do pânico é óbvio e já bastante difundido: constrói-se um cômodo em local de fácil acesso, com portas reforçadas, isolamento acústico e blindagem nas paredes, teto e piso; instalam-se monitores, para mostrar as imagens das câmeras de segurança espalhadas pela mansão, além de algum equipamento de comunicação via rádio, mais eficiente do que as linhas telefônicas fixas, que podem ser cortadas, ou os celulares sujeitos às perdas de sinal; finalmente, basta providenciar um estoque de alimentos não perecíveis, bebidas e medicamentos. Ao primeiro sinal de problemas, é só correr para o refúgio e se trancar.
        Por óbvio, um local tão seguro e preparado também seria ideal para acomodar cofres e esconder objetos de valor. Trancafiados com seus pertences, o milionário e seus familiares poderiam, enfim, respirar aliviados; ao menos enquanto não tivessem que dividir espaço com o elemento mais imprevisível de todos: o fator humano! Pessoas de carne e osso, separadas por espessas paredes impenetráveis, mas empenhadas em alcançar interesses opostos, farão o impossível para surpreender e se superar.
        Foram os possíveis desdobramentos de tal embate que David Koepp vislumbrou nas entrelinhas das reportagens publicadas pela mídia. Empolgado, resolveu escrever um roteiro de forma independente e quando o colocou à venda, provocou uma acirrada disputa entre os grandes estúdios, vencida pela Columbia Pictures. O diretor David Fincher foi recrutado para encabeçar o projeto, lançado em 2002 com o título de O Quarto do Pânico. Este é um thriller acima da média, que oferece doses fartas de suspense e ação, ainda que mantenha o espectador enclausurado em um espaço cênico apertado. O enredo é previsível e, por isso mesmo, eficiente: desde as primeiras cenas vemos as forças antagônicas tomando posição, mas só podemos imaginar as surpresas e as reviravoltas que virão. Antes de seguir adiante, vejamos a sinopse:
        O Quarto do Pânico conta a história de Meg Altman (Jodie Foster), recém-divorciada de um milionário, que se muda com a filha, Sarah (Kristen Stewart), para uma mansão em Nova Iorque, onde o proprietário anterior instalou um quarto do pânico. Mal ocupam a bela casa e se dão conta de que ela está sendo invadida por três meliantes: Burnham (Forest Whitaker), funcionário da empresa de segurança que instalou o quarto do pânico, Junior (Jared Leto), o neto do antigo proprietário e Raoul (Dwight Yoakam) um bandido oportunista. O trio só pensa em por as mãos nos milhões de dólares em títulos ao portador, deixados no cofre escondido justamente no quarto onde mãe e filha se trancam. Pronto! Está armada a confusão.
        O roteirista David Koepp escreveu um filme enxuto, pontuado por poucas cenas expositivas e linhas de diálogo econômicas; ainda assim demonstrou habilidade para construir personagens envolventes e com alguma densidade. Sua protagonista acaba de ver a família se desmantelar depois do divórcio e ainda sente o gosto amargo da traição imposta pelo marido mais velho do que ela; agora terá que enfrentar ameaças físicas inimagináveis. Por outro lado, a bela e estravagante mansão de tijolos aparentes, cravada num bairro chique, funciona como um pano de fundo psicológico, simbolizando o estado emocional de todos os personagens.
        O Diretor David Fincher se esbaldou diante da concisão do roteiro. Seu filme anterior, Clube da Luta, foi construído com 400 cenas, captadas em 100 locações diferentes – um pesadelo para todos os envolvidos na produção. Para este seu novo filme, ele queria simplicidade! Acontece que simplicidade não é exatamente a sua maior virtude; apesar de contido em um único cenário, ele planejou todas as cenas em suas minúcias. Estabeleceu todos os planos e movimentos de câmera com precisão obsessiva, criando storyboards detalhados; valeu-se dos conhecimentos em computação gráfica – adquiridos nos tempos em que trabalhou para a Industrial Light & Magic – e criou uma dinâmica exuberante, que virou marca registrada dos seus filmes.
        Em contraste com a simplicidade desconcertante do roteiro, David Fincher criou uma narrativa visual complexa: planos-sequência com alto grau de dificuldade, efeitos de iluminação, monitores apresentando cenas paralelas, a câmera sobrevoando locais improváveis, passando em closes desconcertantes por buracos de fechadura e dutos de ventilação... O Quarto do Pânico foi viabilizado graças aos efeitos digitais usados em profusão; apesar deles, o diretor consegue manter a transparência do aparato fílmico, já que as extravagâncias e ousadias são sempre em favor da história e da arte de contá-la. Tanto é que Fincher consegue nos deixar claro qual é a geografia da mansão e nos conduz com segurança por todos os cômodos – e pelos incômodos que, suspeitamos desde o início, iremos presenciar.
        Inicialmente, a atriz escalada para viver a protagonista era Nicole Kidman. Por meio dela, certamente veríamos uma Meg Altman mais glamourosa, esfuziante e indefesa. A estampa de Jodie Foster acrescentou algo de inteligência e sagacidade à personagem, o que certamente deve ter exigido mudanças no roteiro. Ainda assim, o resultado alcançado foi compensador. Muitos fãs do diretor não se atrevem a colocar O Quarto do Pânico no topo da sua filmografia; talvez o considerem uma obra mais comercial e acomodada aos padrões hollywoodianos. Bobagem! Revisitei o filme recentemente e garanto: continua de tirar o fôlego!

Resenha crítica do filme O Quarto do Pânico

Título original: Panic Room
Título em Portugal: Sala de Pânico
Ano de produção: 2002
Direção: David Fincher
Roteiro: David Koepp
Elenco: Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker, Dwight Yoakam, Jared Leto e Patrick Bauchau

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