Crítica | Cabo do Medo: nessa parceria entre Martin Scorsese e Robert De Niro, a história ainda continua perturbadora
Cabo do Medo: filme dirigido por Martin Scorsese

Cabo do Medo: remake de um clássico de 1962

Cabo do Medo: Robert De Niro assustador como um psicopata violento

Cabo do Medo: Scorsese de olho na bilheteria

Cabo do Medo: cenas patéticas desnecessárias
UM THRILLER ASSUSTADOR, FILMADO COM PERSONALIDADE
Há muito não visitava Cabo do Medo, realizado em 1991 por Martin Scorsese. Fiz isso outro dia – reconheci a capa ao navegar por uma plataforma de streaming e cliquei de imediato. No cinema, quando assisti ao filme pela primeira vez, o impacto foi brutal; saí impressionado com tanta violência psicológica. Desde então já assisti a muitos filmes violentos e me imaginava calejado o suficiente, a ponto de subestimar uma história contada há décadas. Nada disso! Ela continua perturbadora.
Remake de clássico
Cabo do Medo é uma refilmagem de Círculo do Medo, dirigido em 1962 por J. Lee Thompson e baseado no romance The Executioners, escrito por John D. MacDonald. A película em preto e branco foi estrelada pelos astros Gregory Peck e Robert Mitchum; apresentava a estética clássica dos thrillers hollywoodianos que reverenciavam as fórmulas de Alfred Hitchcock. Martin Scorsese resgatou essa atmosfera, mas apimentou a história com boas doses de violência gráfica e escavou com mais profundidade a psique dos seus personagens.Gosta de analisar os filmes em profundidade?
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Cabo do Medo: remake de um clássico de 1962
Um psicopata vingativo
Antes de continuar, vamos a uma rápida sinopse: Max Cady (Robert De Niro) acaba de sair da prisão, após cumprir 14 anos pelo estupro de uma garota de 16 anos. Está obcecado em se vingar de Sam Bowden (Nick Nolte), o advogado que o defendeu e a quem atribui a culpa por ter sido condenado. Com requintes de psicopatia, vai perseguir e aterrorizar Sam, sua mulher, Leigh (Jessica Lange) e sua filha, Danielle (Juliette Lewis) de apenas 15 anos.Protagonista e antagonista repaginados
Para esse remake, o roteiro original escrito por James R. Webb foi adaptado por Wesley Strick. Aqui, Sam Bowden não é o advogado exemplar que sua estampa de bem-sucedido deixa transparecer. Ele burla o sistema e oculta informações relevantes, para deixar Max Cady – um estuprador violento que espancara sua vítima até quase matá-la – ter a pena aumentada. Acontece que o criminoso, que entrou analfabeto na prisão, aprendeu a ler; na verdade, tornou-se um leitor compulsivo. Saiu de lá “praticamente um advogado”, conhecedor dos trâmites legais e ciente da injustiça cometida por quem deveria defendê-lo.
Cabo do Medo: Robert De Niro assustador como um psicopata violento
Fora dos tribunais
No filme de Scorsese a sede de vingança do psicopata Max Cady encontra um Sam Bowden impotente, incapaz de apelar para o sistema judiciário que conhece na profundidade; a pendenga terá que ser resolvida entre os dois. Nada de polícia, nada de tribunais. O embate entre o bem e o mal respingará violência física e psicológica para diversos personagens.
Um elenco afinado, diretor criativo
Robert De Niro, numa de suas caracterizações mais elaboradas e memoráveis, está assustador. Nick Nolte, ótimo dentro dos ternos impecáveis, é um misto de medo, culpa, raiva e desorientação. Jessica Lange, elegante, passa da futilidade ao desespero e convence. E a jovem Juliette Lewis já se mostrava uma atriz experiente. O filme está, enfim, ancorado em um elenco competente. Quanto ao diretor Martin Scorsese, já tinha seu nome escrito no panteão do cinema com títulos como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros; agora estava interessado em aprimorar sua performance nas bilheterias. Cabo do Medo, um clássico com grande potencial comercial, mostrou-se um projeto oportuno; o diretor o abraçou, consciente de que precisaria imprimir sua marca: impôs uma movimentação peculiar para a câmera e encontrou planos que não vemos nas produções convencionais de Hollywood.
Cabo do Medo: Scorsese de olho na bilheteria
Trilha sonora ao estilo Hitchcock
A trilha sonora de Elmer Bernstein, trabalhada a partir da música original que Bernard Herrmann criou para o filme de 1962, funciona como um elo de ligação com o filme original; causa certo estranhamento, provoca tensão e nos remete aos filmes de Hitchcock, enquanto intensifica o sentimento de desorientação que toma conta dos personagens. Aliás, Scorsese parece se divertir ao salpicar seu filme com inúmeras referências ao mestre do suspense, realizando um thriller fora das convenções.Um sistema judiciário inútil
A violência que recai sobre a personagem da filha de Sam é de arrepiar; o diretor abre e encerra o filme com ela narrando a traumática experiência que viveu. Isso traz para o remake uma perspectiva que não aparecia no filme original. Scorsese, porém, manteve a essência do enredo: um advogado flexível, habituado a circular pelos labirintos do sistema, depara-se com a terrível certeza de que o sistema, em si, é uma construção artificial. Não poderá valer-se dele para vencer seu embate; terá que lutar com as próprias mãos, longe da lei, da polícia, do estado...

Cabo do Medo: cenas patéticas desnecessárias
Justiça com as próprias mãos
Talvez Scorsese se incomodasse com uma abordagem tão... anarquista; por isso incluiu algumas cenas desconcertantes no seu filme, como aquela em que Sam escorrega numa poça de sangue, ou a que mostra um detetive particular inepto cometendo erros primários num filme de suspense. Talvez quisesse caracterizar como patéticos aqueles que não acreditam na justiça estatal e se metem a fazer justiça com as próprias mãos. Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(4 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de Martin Scorsese, o roteiro bem costurado, a atuação engajada de todo o elenco, com destaque para Robert De Niro, a trilha sonora envolvente e a concepção visual estilizada.
O que complica: Scorsese tenta contornar a questão das limitações e vícios do sistema judiciário, jogando toda a culpa da violência na incompetência e inépcia dos personagens. Poderia ter avançado na direção da polêmica para e ampliado o escopo do seu filme.
Acima da média. É cinema de qualidade.
Ficha técnica do filme Cabo do Medo
Título original: Cape FearAno de produção: 1991
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: James R. Webb e Wesley Strick
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: James R. Webb e Wesley Strick
Elenco principal:
- Robert De Niro
- Nick Nolte
- Jessica Lange
- Juliette Lewis

Tenho minhas reservas comparado ao original
ResponderExcluirUma homenagem a película de 62
Um exercício cinematográfico como confessou o próprio Scorsese usando pontos em abordagem nesse remake que não estavam e ou não foram aprofundados e explorados, mas por isso mesmo não supera nem surpreende, ficou como um show particular de De Niro.
DE resto no mais um razoável filme.
Tenho minhas reservas comparado ao original
ResponderExcluirUma homenagem a película de 62
Um exercício cinematográfico como confessou o próprio Scorsese usando pontos em abordagem nesse remake que não estavam e ou não foram aprofundados e explorados, mas por isso mesmo não supera nem surpreende, ficou como um show particular de De Niro.
DE resto no mais um razoável filme.
Quando eu vi no cinema, eu nem sabia que era remake.
ResponderExcluirExcelente filme, só não gostei do exagero no final, errou só na dosagem.
Ah, Jorge, suspeito que esse exagero tenha a ver com o desejo de Scorsese de impor seu estilo.
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