Crítica | Os Bons Companheiros: conheça o mafioso real que inspirou esse filme
Os Bons Companheiros: filme dirigido por Martin Scorsese
LINGUAGEM INOVADORA E AUTENTICIDADE
Quando Martin Scorsese filmou Os Bons Companheiros, em 1990, o retrato da máfia já estava nítido no imaginário popular, pintado em detalhes por Francis Ford Coppola na sua trilogia O Poderoso Chefão. Entretanto, a linguagem crua e autêntica, trazida quase duas décadas depois por este diretor nova-iorquino, soou como um sopro de renovação no gênero; o público teve a sensação de que, agora sim, iria bisbilhotar o verdadeiro mundo do crime organizado em sua intimidade mais reveladora.
Um autor íntimo do assunto
O mérito de tão significativa proeza, antes de ser creditado a Scorsese, deve ir para Nicholas Pileggi, autor do livro Wiseguy, no qual o filme Os Bons Companheiros se baseou. O livro foi um verdadeiro achado para o diretor, pois forneceu o material inédito e original que precisava para dar início à sua reputação de “cineasta especializado em filmes de gângsteres”. Outro grande achado de Scorsese foi o próprio Nicholas Pileggi: ele é o tipo de escritor que nasceu para alimentar a indústria do cinema; natural do Brooklyn, no seio de uma família de imigrantes italianos, cresceu observando a máfia. Pileggi foi repórter policial por 30 anos; passava os dias em delegacias de polícia. Conviveu com policiais e detetives, circulou pela cidade com eles, falou a língua deles e foi apresentado a todos os personagens que ocupariam as páginas das suas reportagens e livros. Foi assim que desvendou a história real de Henry Hill, um membro da máfia que terminou seus dias como informante, depois de dedurar seus bons companheiros.
Os Bons Companheiros: Scorsese realizou um dos melhores filmes sobre a máfia
Indo pelo mau caminho
Os Bons Companheiros é narrado em primeira pessoa pelo protagonista Henry Hill, interpretado por Ray Liotta. O vemos ainda garoto, quando sonha em ser um gangster e se esforça para entrar na carreira. Acompanhamos seu envolvimento com Jimmy Conway (Robert De Niro) e Tommy DeVito (interpretado por Joe Pesci, que recebeu o Óscar de melhor ator coadjuvante pelo papel), ambos criminosos hábeis em conduzir o rapaz pelo mau caminho. Testemunhamos seu casamento com Karen (Lorraine Bracco) e o vemos se afundar nas drogas. Ao longo de três décadas, Henry Hill e seus companheiros roubam, matam, acumulam bens, gastam muito dinheiro e não se arrependem de nada.
Uma adaptação a quatro mãos
O livro Wiseguy, lançado em 1986, já apresentava uma estrutura praticamente cinematográfica. Scorsese percebeu que seria fácil adaptá-lo para o cinema, mas preferiu fazer isso em parceria com o próprio Pileggi – ainda que o escritor jamais tivesse escrito roteiros para filmes. Cada um escreveu um primeiro tratamento, onde excluíram as passagens que julgaram desnecessárias na adaptação. Quando compararam as duas versões, viram que ambos chegaram a uma mesma visão da narrativa para o enredo.
Os Bons Companheiros: um estilo que inspirou outros cineastas
Prevaleceu a linguagem do cinema
Nos tratamentos seguintes, a visão de Scorsese acabou se impondo nos detalhes; o cineasta seguiu abordagens que resultariam em cenas mais apropriadas para as telas. Planos-sequência, stills, passagens com narração, exposições rápidas, uso da trilha sonora para gerar reações emocionais... No filme Os Bons Companheiros, o diretor empregou uma linguagem que seria reproduzida nos anos seguintes por diferentes cineastas dedicados a explorar o mundo dos gângsteres. A própria abertura do filme, que mostra o momento em que o personagem Billy Batts é brutalmente assassinado pelo trio de companheiros, foi uma invenção de Scorsese. Depois dela, ele volta à infância de Henry Hill e segue sua trajetória até retornar, na metade do filme, para a exata cena de abertura; um truque narrativo que podemos apreciar em outros filmes posteriores – Pulp Fiction, realizado por Tarantino em 1994 é um bom exemplo.Irradiando autenticidade
Apontado pela crítica como um dos melhores filmes sobre a máfia já realizados, Os Bons Companheiros é construído por uma série de episódios conectados, que expõem a trajetória do crime organizado na cidade de Nova Iorque. Martin Scorsese – o mesmo diretor do aclamado Taxi Driver – realizou um filme vigoroso, onde abriu espaço para as improvisações e privilegiou a autenticidade. É assim que consegue passar verdade em seus filmes, ainda que ela venha manchada de violência e mau-caratismo. Para muitos, o diretor quase ultrapassa os limites da apologia ao crime! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: a direção criativa de Martin Scorsese, o roteiro bem costurado, a atuação de um elenco afinado, a trilha sonora envolvente e a concepção visual elaborada.
O que surpreende: a narrativa de Scorsese comunica verossimilhança e autenticidade, cristalizando a a noção de como se comportam as famílias mafiosas em Nova Iorque.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Os Bons Companheiros
Ano de produção: 1990Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese
Elenco:
- Ray Liotta
- Robert De Niro
- Joe Pesci
- Lorraine Bracco
- Paul Sorvino

Filme injustiçado na noite do Oscar
ResponderExcluirAcademia preferiu dança com lobos, pois mostrava algo bonito dentro de uma tragédia do conflito de culturas mais ao paladar do público que uma descrição sem molduras do submundo mafioso americano num ritmo frenético quanto agudo da trajetória de um membro cuja narrativa nos prende do começo ao fim.
Scorsese, o cineasta maldito da Academia.
Aula de cinema
Esse mesmo estilo seria repetido em Cassino e o Irlandês.
Mas voltando ao passado do Cineasta ele já havia experimentado numa produção barata nos anos 70 antes do reconhecimento internacional : caminhos perigosos, com um desconhecido Robert de Niro e Joe Pesci.
Recomendo uma análise crítica deste último também.
Filme injustiçado na noite do Oscar
ResponderExcluirAcademia preferiu dança com lobos, pois mostrava algo bonito dentro de uma tragédia do conflito de culturas mais ao paladar do público que uma descrição sem molduras do submundo mafioso americano num ritmo frenético quanto agudo da trajetória de um membro cuja narrativa nos prende do começo ao fim.
Scorsese, o cineasta maldito da Academia.
Aula de cinema
Esse mesmo estilo seria repetido em Cassino e o Irlandês.
Mas voltando ao passado do Cineasta ele já havia experimentado numa produção barata nos anos 70 antes do reconhecimento internacional : caminhos perigosos, com um desconhecido Robert de Niro e Joe Pesci.
Recomendo uma análise crítica deste último também.
Cassino e O Irlandês já ganharam comentários aqui na Crônica de Cinema. Já estão na lista de filmes por ordem alfabética.
ExcluirDepois de TAXI DRIVER meu Scorcese favorito. Obra prima absoluta. Joe Pesci monstruosos em todos os sentidos.
ResponderExcluirÉ difícil ranquear os filmes de Scorsese. Todos são peças de alta qualidade.
ExcluirObrigado pelo belo texto.
ExcluirSou eu quem agradece, Ademar. Um abraço!
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