Crítica | Gladiador: imprecisões históricas e muita dramatização

Cena do filme GladiadorGladiador: filme dirigido por Ridley Scott

OS FATOS HISTÓRICOS FICARAM MAIS PALATÁVEIS

Nos anos 1960 e 1970, as histórias de gladiadores eram um filão bastante explorado pela indústria do cinema; incontáveis filmes B foram produzidos e depois exibidos na TV. É claro que tivemos a felicidade de assistir a grandes clássicos do gênero, como Ben-Hur, de Willian Wyler e Spartacus, de Stanley Kubrick. Ambos serviram de modelo para este Gladiador, dirigido em 2000 por Ridley Scott. Aqui, personagens fictícios e situações inventadas convivem com acontecimentos reais e vultos históricos, só para criar um caldo denso de divertimento e distração. O objetivo dos realizadores é entreter a plateia com uma história emocionante e envolvente, contada com a mesma solenidade dedicada aos episódios cruciais da história. Muitos cinéfilos, todavia, reclamam da falta de compromisso com a realidade. Esquecem que, quando se trata de fatos históricos, a realidade nem sempre é favorável ao espetáculo. O cinema precisa lançar mão de certas licenças poéticas.

Uma história de vingança

        O filme de Ridley Scott nos traz de volta ao ano 180 d.C, quando Maximus (Russel Crowe), o general da Espanha, conduz o exército do imperador Marco Aurélio (Richard Harris) a mais uma vitória. O imperador tem Maximus como um filho e deseja fazê-lo seu sucessor, mas Cómodo (Joaquin Phoenix), esse sim o filho legítimo, não permite que isso aconteça. Mata o pai, assume o poder e ordena a execução do general, junto com sua mulher e filho.

Cena do filme Gladiador
Gladiador: parceria de sucesso entre Ridley Scott e Russel Crowe

        Maximus sobrevive e termina como escravo, comprado por Proximus (Oliver Reed) para integrar suas fileiras de gladiadores. Depois de encantar as plateias das arenas do império com sua coragem, força e ferocidade, o outrora general da Espanha agora vai lutar no Coliseu, mas tem um único objetivo: encontrar o Cómodo e matá-lo, para vingar a morte da família, que espera reencontrar na vida pós-túmulo.

Era para ser realista

        Ridley Scott planejava apresentar em Gladiador um panorama crível e realista da cultura romana na antiguidade, com uma imponência que jamais havia sido produzida pelo cinema. Contratou vários historiadores como consultores, mas logo esbarrou em problemas estruturais. Ele conta que antes de aceitar a direção do filme, os executivos do estúdio mostraram a ele um famoso quadro de Jean-Léon Gérôme, retratando um gladiador vitorioso num Coliseu majestoso. Foi quando teve o estalo criativo que definiu o conceito do filme. Só depois de aceitar o projeto é que foi ler o roteiro escrito por David Franzoni.

Cena do filme Gladiador
Gladiador: visual realista em contraponto às licenças poéticas

Um roteiro bem lapidado

        Conforme o projeto foi se desenvolvendo, ficou claro a necessidade de alterações na trama. Russel Crowe, o ator com quem Ridley Scott mantinha uma ótima parceira criativa, considerou o roteiro muito ruim e fez várias interferências nas linhas de diálogo. Os roteiristas John Logan e Willian Nicholson assumiram a reescrita do roteiro, que foi feita na medida em que o filme era produzido. Pesquisaram bastante, mas também se deliciaram com as licenças poéticas que puderam inventar, para deixar o filme mais palatável ao público. Ainda assim, Gladiador está repleto de personagens amargos, vingativos e ferozes. A magia digital trouxe uma atmosfera realista, mas sonegou aquela sensação de violência extrema, que encontrávamos nas cenas dos filmes antigos, feitas na raça por dublês destemidos.

Cinema imponente e vistoso

        Depois de tanta luta, Gladiador se tornou um sucesso retumbante. Levou cinco Óscares: melhor filme, melhor ator para Russel Crowe, melhor figurino, melhores efeitos visuais e melhor som. Quanto ao público, adorou a história, mas as pessoas saíram das salas de exibição dispostas a desvendar os acertos, os erros, os exageros e as imprecisões históricas cometidas em nome do bom entretenimento. Pelo menos todos concordaram num ponto: o Coliseu e a própria Roma nunca ficaram tão imponentes no cinema! Se você quer mais dicas de bons filmes como esse, encontrará nos artigos exclusivos que publico semanalmente na minha newsletter. Para recebê-la gratuitamente por e-mail, basta se juntar à comunidade da Crônica de Cinema. Inscreva-se grátis clicando aqui!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de ridley Scorr, o roteiro bem costurado, a atuação magnética de Russel Crowe, a fotografia impecável, a concepção visual bem elaborada e a trilha sonora envolvente.

O que surpreende: Ridley Scott não teve pudores com a verossimilhança, mas ao enfatizar o drama dos personagens bem construídos, conseguiu elevar o nível dos filmes de gladiadores.

Acima da média. É entretenimento de qualidade.

Resenha crítica do filme Gladiador

Data de produção: 2000
Direção: Ridley Scott
Roteiro: David Franzoni, John Logan e William Nicholson

Elenco:
  • Russell Crowe
  • Joaquin Phoenix
  • Connie Nielsen
  • Oliver Reed
  • Richard Harris
  • Derek Jacobi
  • Djimon Hounsou
  • David Schofield
  • John Shrapnel
  • Tomas Arana
  • Ralf Möeller
  • Spencer Treat Clark
  • David Hemmings
  • Tommy Flanagan

Comentários

  1. Sua digressão sobre história e estória me trouxe a lembrança de alguns bons 30 anos quando esse binômio era muito usado nos meios culturais. Depois sumiu. Mas isso é outra “estória “ Quanto à sua abordagem sobre o filme, como sempre didática e perfeita!

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