Crítica | Thelma & Louise: Ridley Scott conta a história de duas mulheres encurraladas pelo machismo e reflete o zeitgesist do final do século XX

Cena do filme Thelma & Louise
Thelma & Louise: filme dirigido por Ridley Scott

ESPÍRITO DO TEMPO VEM SE MANISFESTAR

Ao examinar os filmes, percebemos a mentalidade reinante que os produziu. Ao olhar para Thelma & Louise, realizado em 1991 por Ridley Scott, é fácil perceber como o filme foi bem-sucedido em capturar o ZeitgeistEssa palavra do idioma alemão é traduzida como “espírito do tempo” e designa o ambiente intelectual, social e cultural de uma determinada época ou lugar. O conceito surgiu no final do Século XVIII, quando o romantismo alemão rompeu com a hegemonia do pensamento racional iluminista; deu voz aos sentimentos, à individualidade e às experiências pessoais nas reflexões filosóficas. A literatura, a música, as artes visuais e a cultura ficaram mais arrebatadoras e atormentadas!

Refletindo e reforçando a mentalidade da época

        As pessoas iam assistir a Thelma & Louise para ver um road movie protagonizado por duas mulheres; queriam  para vê-las atropelando os imperativos masculinos que sempre comandaram o mundo do cinema. Nas salas de exibição, encontravam um espelho que refletia não apenas os penteados, os figurinos, a estética musical e as gírias da época, mas enquadrava uma atitude que abria espaço para o feminismo e repudiava o sexismo. O filme falava de amor, amizade, individualismos, desejos e angústias, mas mantinha o pé de igualdade entre homens e mulheres.

Cena do filme Thelma & Louise
Thelma & Louise: Susan Sarandon e Geena Davis numa selfie antológica

Tudo começou com a roteirista

        Em Thelma & Louise, o Zeitgeist começou a se manifestar primeiro em Callie Khouri, a roteirista que concebeu a história. Ela criou as duas personagens centrais e as dotou com tamanha profundidade que arrebatou o público. Foi hábil em caracterizá-las como mulheres fortes, identificadas com o seu tempo e agarradas na realidade. Ambas irradiam credibilidade e verdade emocional; quando colocadas diante de situações limites, fazem as escolhas que as mulheres do seu tempo escolheriam fazer. Antes de continuar a divagação, porém, talvez seja mais apropriado lembrar a sinopse!

Duas mulheres em fuga

        O filme nos conta a história de Thelma Yvonne Dickinson (Geena Davis) e Louise Elizabeth Sawyer (Susan Sarandon), duas amigas que vivem no Arkansas. São mulheres comuns, de classe média baixa, metidas em relacionamentos imperfeitos. Thelma é dona de casa, casada com o vendedor Darryl Dickinson (Christopher McDonald). Louise é garçonete e namora o músico ausente Jimmy Lennox (Michael Madsen). As duas decidem dar um tempo na mesmice e partem de carro para uma cabana nas montanhas, onde passarão férias.

Cena do filme Thelma & Louise
Thelma & Louise: confrontando o sexismo da época

        No meio do caminho, numa parada de beira de estrada, as duas tomam uns drinques e perdem o controle da aventura; é quando um sujeito tenta estuprar Thelma. Louise interfere e atira no sujeito. O sujeito morre instantaneamente. Dali em diante, tudo se transforma! A vida que Thelma e Louise levavam deixa de existir. Agora só o que há é a fuga, as estradas empoeiradas e a polícia implacável no encalço das duas.

Manifesto feminista e Brad Pitt

        Essa história toda rendeu a Callie Khouri o Óscar de melhor roteiro original. Tal sucesso transformou Thelma & Louise num notável manifesto feminista, que passou a ser cultuado como uma das obras mais marcantes da década de 1990. Curiosamente, a presença de Brad Pitt vivendo o andarilho J.D. ficou igualmente gravada na memória do público – seria o primeiro papel do futuro astro de Hollywood. Mas há outro elemento que se sobressai no filme: a direção de Ridley Scott!

Cena do filme Thelma & Louise
Thelma & Louise: a primeira aparição do astro Brad Pitt

Ridley Scott expandiu o conceito do filme 

        O diretor vinha de três grandes sucessos: Alien – O Oitavo Passageiro, Blade Runner e Chuva Negra, nenhum deles era, digamos... feminista! Ao contrário, os filmes de Ridely Scott sempre tiveram afinidades com o universo machista. Ao decidir realizar Thelma & Louise, ele conseguiu expandir os conceitos iniciais da obra e a livrou do estigma de manifesto; filmou como se tratasse de um épico, uma saga pelas pradarias americanas, onde as duas personagens brilham em contraste com a paisagem árida. Soube reconhecer o Zeitgeist que se insinuava feito assombração.

Esforço criativo coletivo

        O espírito do tempo, no cinema, é algo que se manifesta na criação coletiva, afinal, a sétima arte é resultado do trabalho de vários artistas, de diferentes áreas, que se esforçam para fazer arte. Seja na fotografia impecável de Adrian Biddle, seja na trilha sonora de Hans Zimmer ou nas interpretações de Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen e Brad Pitt, o que vemos em Thelma & Louise é um esforço criativo que influenciou os costumes de toda uma geração. Ridley Scott era o sujeito certo para comandar esse feito? Ora, não nos esqueçamos de que o diretor é oriundo da publicidade e antes de dirigir longas, já havia assinado milhares de comerciais de sucesso para as TVs da Europa. Nesta história de capturar e influenciar o espírito do tempo, ele já era um experiente protagonista!

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção criativa de Ridley Scott, a atuação de Susan Sarandon e Geena Davis, o roteiro bem costurado e a atmosfera de modernidade irradiada ao longo de todo o filme.

O que surpreende: as protagonistas confrontam o universo machista, mas o filme não assume uma postura panfletária. Em vez disso, focaliza os dramas pessoais.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Thelma & Louise

Ano de produção: 1991
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Callie Khouri

Elenco:
  • Susan Sarandon
  • Geena Davis
  • Harvey Keitel
  • Michael Madsen
  • Christopher McDonald
  • Stephen Tobolowsky
  • Brad Pitt
  • Timothy Carhart
  • Jason Beghe
  • Marco St. John

Leia também as crônicas sobre outros filmes dirigidos por Ridley Scott:

Comentários

  1. Lindo filme, linda crônica, lindo re-viver!!! O Zeitgeist fica como tempestade e ímpeto!!! Parabéns, Fábio Belik! Texto necessário, filme necessário, porque verdadeiros... num Brasil raso e medíocre!!! Reitero: PA-RA-BÉNS!!! Quem quiser, que veja e/ou reveja o filme! Você/seu texto apatecem-nos!!!

    ResponderExcluir
  2. Lindo filme, linda crônica, lindo re-viver!!! O Zeitgeist fica como tempestade e ímpeto!!! Parabéns, Fábio Belik! Texto necessário, filme necessário, porque verdadeiros... num Brasil raso e medíocre!!! Reitero: PA-RA-BÉNS!!! Quem quiser, que veja e/ou reveja o filme! Você/seu texto apatecem-nos!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Alex! O filme é mesmo muito marcante e pode ser revisitado sempre!

      Excluir
    2. Uma crônica perfeita, à altura deste filme extraordinário

      Excluir

Postar um comentário

Confira também:

Crítica ! Sleepers: A Vingança Adormecida: Barry Levinson filma uma história que Lorenzo Carcaterra jura que é real, mas não muito

Crítica | Alexandre: o projeto ambicioso de Oliver Stone falhou nas bilheterias, mas venceu no streaming com um corte impecável

Siga a Crônica de Cinema