Crítica | 15h17: Trem Para Paris: Clint Eastwood recruta os próprios personagem para encenar a história que viveram. Perdeu força dramática!

Cena do filme 15h17: Trem Para Paris
15h17: Trem Para Paris: filme de Clint Eastwood

PERSONAGENS E ATORES NA MESMA DRAMATIZAÇÃO

Imagine que você está conduzindo uma reconstituição policial. Depois de ouvir as testemunhas, colher depoimentos dos criminosos e estabelecer com precisão as ações que afetaram as vítimas, você vai encenar os fatos de acordo com as diferentes versões. Coloca todos os envolvidos de volta na cena do crime e revive os acontecimentos na presença de peritos e autoridades. Seu objetivo é descartar as versões improváveis e ficar com a única que, de acordo com as evidências, reflete a verdade.
        Como diretor da reconstituição, você não está interessado em expressar significados, muito menos em extrair relevância artística da encenação – muito embora isso seja inerente a qualquer interação entre seres humanos. Tudo o que você quer é realizar um procedimento burocrático.

Clint Eastwood filma uma reconstituição

        Acabei de descrever aqui um modelo narrativo ao qual o grande público jamais tem acesso. O arcabouço documental que ele gera é imenso: fotos, vídeos, relatórios, laudos, depoimentos... Tudo fica restrito às esferas judiciais; se traz alguma função estética, apenas os advogados, juízes e policiais podem apreciar. Não sei se Clint Eastwood pensou em tudo isso quando filmou 15h17: Trem para Paris, seu filme de 2018. mas foi exatamente o que terminou por realizar: uma reconstituição!

Cena do filme 15h17: Trem Para Paris
15h17: YTrem para Paris: personagens de volta à cena do crime

        Esse seu longa conta a história real de como três jovens americanos evitaram um atentado terrorista em Amsterdã e conseguiram salvar muitas vidas. Acontece que o diretor teve a ideia ousada de convocar os três rapazes que protagonizaram a história, para interpretar a si mesmos numa produção hollywoodiana. Pareceu uma tentativa de recriar a cena do crime! Seu filme virou um híbrido de documentário e drama; ficou com cara de procedimento burocrático.

Não são atores, são os próprios personagens!

        Nós, espectadores, somos pegos de surpresa. Diante de 15h17: Trem para Paris, não assistimos a atores em pleno exercício de dramatização; o que vemos são os três rapazes em carne osso, reconstituindo a história incrível que viveram. É preciso estar cientes disso para entender as limitações na dramaturgia proposta pelo diretor. De um lado, ficamos com a impressão de estar muito mais próximos dos acontecimentos reais, quando os três dominaram um terrorista armado até os dentes e impediram um verdadeiro massacre. De outro, nos sentimos reféns da opinião de algum perito, incumbido de explicar o que de fatos testemunhamos.

Cena do filme 15h17: Trem Para Paris
15h17: Trem para Paris: heróis de verdade, mas atores precários

        A história real reconstituída em 15h17: Trem para Paris certamente renderia um ótimo documentário, ou um ótimo thriller; em vez disso, Clint Eastwood optou pelo experimentalismo. Ele nos mostra como Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, tornaram-se grandes amigos ainda crianças, quando frequentavam a mesma escola. Anos depois, Spencer ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais e acabou destacado para atuar numa base europeia. Alek entrou para o exército, foi servir no Afeganistão e resolveu encontrar a namorada na Europa quando ganhou uma licença. Anthony, estudante universitário, também saiu de férias para a Europa. Os três decidiram se encontrar na Alemanha para depois conhecer Amsterdã; de lá, resolvem ir para Paris. Quando pegam o trem, não passam de três jovens americanos comuns; mal sabem que estão na iminência de um massacre terrorista. Os três se agigantam e realizam um notável ato heroico.

Dramatização, realidade, documentário... Tudo no mesmo pacote!

        A decisão surpreendente de Clint Eastwood de não usar atores profissionais, em grande medida, tirou a força dramática dessa história eletrizante. O filme é baseado no livro The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes escrito por Jeffrey E. Stern em conjunto com Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos. Quem escreveu a versão para as telas foi a roteirista iniciante Dorothy Blyskal, que havia trabalhado com Clint Eastwood como assistente de produção no filme Sully – O Herói do Rio Hudson. Três semanas antes do início das filmagens, o diretor veio com a decisão de escalar os três protagonistas reais da história; a roteirista viu sua adaptação ser transmutada para uma espécie híbrida de realidade, documentário e dramatização.

Cena do filme 15h17: Trem Para Paris
15h17: Trem para Paris: documentário encenado?

Um diretor disposto ao experimentalismo

        Os três rapazes podem ser heróis, mas não são atores. E para complicar, Clint Eastwood também colocou nos sets vários outros protagonistas reais, como Mark Moogalian, o homem ferido por um tiro durante o atentado; além de vários funcionários do trem, policiais e socorristas que atenderam a ocorrência. Deve ter sido um reencontro catártico para todos eles!
        Com 15h17: Trem para Paris Clint Eastwood vem novamente empenhado em nos contar uma boa história, só que, dessa vez, decidiu experimentar algo novo. Considero louvável para alguém que, na época, já estava com quase 90 anos, gozando de plena forma física e artística. É difícil segurar o ímpeto juvenil desse grande diretor! Infelizmente, este não está entre os seus filmes mais inspirados.

Veredito da crônica de cinema

★★★☆☆(3 / 5 estrelas)

O que brilha: o tratamento realista da produção e a atmosfera de suspense que Clint Eastwood consegue impor.

O que decepciona: falta de impacto dramático e ausência de gatilhos que gerem empatia para com os personagens.

Vale a pena. Pela curiosidade e pela contundência da história.

Ficha técnica do filme 15h17: Trem Para Paris

Data de produção: 2018
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Dorothy Blyskal

Elenco:
Spencer Stone
Anthony Sadler
Alek Skarlatos
Mark Moogalian
Isabelle Risacher Moogalian
Judy Greer
Jenna Fischer
Ray Corasani
Chris Norman
P. J. Byrne
Tony Hale
Thomas Lennon
Jaleel White
Vernon Dobtcheff
Matthew Barnes

Comentários

Confira também:

Crítica | Faces da Verdade: Rod Lurie entrega um thriller político ágil e envolvente, onde a verdade tem valor absoluto

Crítica | Escritores da Liberdade: Richard LaGravenese encontrou o tom certo para contar essa história edificante

Siga a Crônica de Cinema