O Caso de Richard Jewell

QUEM É ESSE SUJEITO? O VILÃO RETRATADO PELA MÍDIA OU O HERÓI ADORADO PELA MÃE?



O Caso de Richard Jewell: filme dirigido por Clint Eastwood

            Diretor: Clint Eastwood. Assim que li essas três palavras, apertei o play. Não deixaria passar a oportunidade de assistir ao filme O Caso de Richard Jewell, de 2019, que acabara de entrar num dos serviços de streaming que costumo acessar. Já tinha lido comentários em alguns sites de cinema, que vieram com ressalvas ao filme, acusando-o de ser raso e recheado de clichês. Precisava ver isso com meus próprios olhos e agora posso afirmar: não é nada disso!
            Antes de assumir a defesa do filme, deixe-me situar o leitor: Richard Jewell foi o agente de segurança que encontrou uma bomba no Centennial Park de Atlanta, sede dos jogos olímpicos de 1996. Ela explodiu e matou duas pessoas, ferindo outras 100. Graças à ação de Jewell, um incontável número de vítimas foi salvo e o sujeito virou herói nacional. Porém, uma reviravolta o converteu em vilão. Investigado pelo FBI, tornou-se suspeito de ter sido ele mesmo o autor do atentado. É essa história verídica que Clint Eastwood nos apresenta, valendo-se da sua reconhecida fluência na arte de contar boas histórias.
            O roteiro, escrito por Billy Ray, foi baseado num artigo publicado em 1997 na revista Vanity Fair e assinado por Marie Brenner. Seguindo uma estrutura linear, ele apresenta o protagonista anos antes do fatídico evento, mostrado seu relacionamento com Watson Bryant, o advogado que viria a assumir sua defesa no caso. É da interação entre esses dois personagens que Clint Eastwood extrai o tempero para o seu filme e consegue emocionar o espectador. Para tanto, as ótimas atuações de Paul Walter Hauser e Sam Rockwell são decisivas.
            O Caso de Richard Jewell não é um filme documental ou um thriller de ação. Nem mesmo é um filme de tribunal. Seu objetivo é mostrar o modo como a opinião pública se apressa a fazer julgamentos, mesmo sem ter conhecimento de todos os fatos. Assim como virou herói, o protagonista foi crucificado sem piedade. Bastaram especulações. Clint Eastwood consegue nos envolver nessa premissa por meio de um recurso narrativo habilidoso. O Richard Jewell que ele nos apresenta está longe de ser heroico. É um sujeito esquisito – um loser obeso e desengonçado que ainda mora com a mãe. Apesar de cultivar valores familiares e patrióticos, os assume com certa obsessão e os coloca na frente de tudo o que faz.
            – Ah, um sujeito assim é altamente... suspeito! – É o que somos levados a pensar.
            Por outro lado, os adversários de Jewell são duas instituições normalmente reconhecidas por seus feitos heroicos: a imprensa e o FBI. Porém, aqui elas agem de forma inescrupulosa e falam com o sotaque dos vilões. A jornalista que simboliza a arrogância da mídia, interpretada por Jessica Meier, é caricata. O agente que simboliza a prepotência do FBI, vivido por Jon Hamm, parece movido por pura implicância. Mas ambos os personagens cumprem a função de personificar a força descomunal que massacrou o protagonista dessa história real.
            Quando o advogado Watson Bryant – seguro, habilidoso e imbuído de um forte senso de justiça – interfere na trama, o filme caminha assertivo na direção escolhida pelo diretor: o que interessa são os direitos individuais de Jewell. Não importa o quão obeso e conservador ele seja. Não importa a quantidade de armas que possua – todas adquiridas legalmente e usadas para caçar. Se o FBI e a imprensa fazem a sua caveira, retratando-o como suspeito de um atentado terrorista, precisam ao menos apontar indícios, apresentar provas.
            Quem conhece a história de Richard Jewell e já sabe qual é o seu desfecho, certamente compreenderá as premissas do diretor e entenderá os vários pontos que ele procura enfatizar no primeiro ato. Aqueles que, como eu, assistem ao filme sem saber se ele terminará como herói ou vilão, precisarão chegar ao terceiro ato para tirar uma conclusão. Porém, todo espectador ficará com uma certeza: aos 90 anos, Clint Eastwood continua em plena forma, fazendo cinema de altíssima qualidade. 


Fabio Belik é autor do livro Ventania

Um romance com sotaque de cinema. Em 278 páginas narra a história de Daniel, um garoto de 9 anos que em 1969 se vê às voltas com o abandono, vivendo momentos de amadurecimento e superação. À venda no Clube de Autores.




Filme: O Caso de Richard Jewell

Ano de produção: 2019
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Billy Ray
Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm e Olivia Wilde

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