Crítica | Gran Torino: ao 79 anos, Clint Eastwood faz um filme sobre a disposição de aprender. E dá uma aula de cinema!

Cena do filme Gran Torino
Gran Torino: filme dirigido por Clint Eastwood

O VALOR DA TOLERÂNCIA

Quando Clint Eastwood dirigiu e estrelou o filme Gran Torino, em 2008, estava com 78 anos. Seu filme anterior, Menina de Ouro, havia sido um enorme sucesso de crítica e bilheteria. Também contabilizava o notável feito cinematográfico que o consagrou como diretor, o  excelente Os Imperdoáveis. Por que raios, então, decidiu flertar com o experimentalismo? Por que aceitou se arriscar em aventuras e complicar sua vida nos sets de filmagem? Para fazer cinema de qualidade, oras! Para explicar esse ponto, precisarei apresentar a sinopse do filme:

Um velho rabugento e intolerante

Gran Torino conta a história de Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia que se aposentou como trabalhador da Ford. Acaba de enviuvar e está mais interessado em viver sozinho os anos que lhe restam, de preferência sem ser perturbado pelos filhos e netos – que o consideram um velho ranzinza. Na garagem, guarda seu Ford Gran Torino 1972, que passou por suas mãos já na linha de montagem. Na varanda, monta guarda protegendo seu gramado dos vizinhos estrangeiros, que tomaram conta do bairro.

Cena do filme Gran Torino
Gran Torino: Clint Eastwood tem mais um ótimo roteiro nas mãos

        A Detroit retratada em Gran Torino é aquela desolada e decadente, que faliu com a crise financeira de 2008; as gangues de asiáticos disputam espaço com as demais gangues de negros e latinos. Intolerante e xenófobo, Walt assiste indignado à ocupação da casa ao lado da sua por uma família de imigrantes hmong oriundos do Laos. É com essa família, mais precisamente com a jovem Sue e seu irmão Thao, que o velho Walt terminará envolvido, criando improváveis laços afetivos.

Todos os personagens se transformam

        Grand Torino é sobre a disposição e a capacidade de aprender; não importa a idade, a vida sempre aparece com lições valiosas. Walt descobre nos jovens orientais o sentido de família que ele há muito desprezava; Thao aprende com o velho ranzinza o valor do trabalho e de ter uma profissão digna; Sue encontra a segurança que precisa para integrar-se à cultura do seu novo país. Todos os personagens terminam transformados e o fio condutor dessa história está no reluzente Ford Gran Torino 1972 que Walt conserva com capricho em sua garagem.

Cena do filme Gran Torino
Gran Torino: ator ainda tem a estampa de um Dirty Harry

Narrativa simples e linear

        O roteiro assinado por Nick Schenk é muito bem escrito. Segue uma narrativa linear, intercalando as inevitáveis cenas de violência que retratam as tensões sociais e raciais numa América em crise econômica. O experiente Clint Eastwood realizou Gran Torino com objetividade, em cores desbotadas e realistas, mantendo as lentes focadas principalmente no seu personagem, para registrar seu arco de transformações.

Decidiu escalar atores amadores

        E eis que nos deparamos aqui com um diretor ousado e disposto a experimentalismos. Para retratar a família de orientais e captar o exotismo da cultura hmong, Clint Eastwood optou por um elenco de autênticos laosianos, todos atores amadores e sem experiência diante das câmeras. Essa escolha trouxe ao filme Gran Torino uma atmosfera quase... documental – guardando-se todas as proporções, próxima àquela que respiramos em Cidade de Deus, filme realizado em 2002, onde Fernando Meirelles dirigiu atores recrutados nas localidades onde filmou. Ah, tenho certeza que cutuquei um vespeiro, ousando comparar Gran Torino com esse grande filme brasileiro. Fiz isso apenas para ressaltar o estranhamento causado em algumas cenas – em ambos os filmes – quando nos deparamos com problemas de dicção em diálogos, ou gestuais demasiado espontâneos. Atores profissionais fariam diferente!

Cena do filme Gran Torino
Gran Torino: aposta certeira para um diretor disposto a inovar

A força de uma boa história 

        Mas a verdadeira força do filme Gran Torino está na história envolvente e edificante que nos conta. O velho conservador e intolerante aprende a lição e se torna tolerante! Os jovens amedrontados e vulneráveis encontram nos valores familiares as forças para seguir, destemidos. Há pitadas de humor, aqui e ali, mas o filme está longe de poder ser exibido na seção da tarde. Há pitadas de violência aqui e ali, mas nada que abale a sensibilidade dos cinéfilos acostumados aos filmes de Clint Eastwood.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção certeira de Clint Eastwood, o roteiro excelente de Nick Schenk e a atuação do astro à frente de um elenco de atores amadores.

O que surpreende: Clint Eastwood mantém a pose de um Dirty Harry aposentado, mas ganha credibilidade na medida em que contracena com atores que irradiam expontaniedade.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Gran Torino

Ano de produção: 2008
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk 

Elenco principal:
  • Clint Eastwood
  • Bee Vang
  • Ahney Her
  • Christopher Carley 

Comentários

  1. O confronto de valores e de culturas na vida do veterano empregado da Ford e soldado condecorado que não mais se adapta a sua nova situação de vida : família distante de si como longe e seus novos vizinhos assim como a proliferação de gangues periféricos de várias etnias cujo motem é as drogas. Seu único precioso símbolo de uma época está no veículo irretocado que guarda na sua garagem : gran torino, um Ford por ele mesmo montado em tempo áureo.
    Vejo como um conto em os personagens se encontram para se completarem nos mostrando o que a vida tem de maior importância, um "pai" passa para o "filho" sua experiência e seus conceitos assim como os conceitos orientais vai influenciar o primeiro abrindo seus olhos para todos encontrando a si mesmo e consequentemente tomar uma decisão de vida e morte. Pois como dizem, os filósofos "a morte liberta, não aprisiona"
    Belo filme. Mas sempre tenho impressão que após o final contundente, o fechamento ficou piegas. Mas que fazer? Nada é perfeito.
    Condução firme do astro-cowboy com roteiro simpático e realístico. Mais palmas pro velho Clint.

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