Crítica | Amistad: Steven Spielberg achou uma história real que ninguém conhecia. Filmou um libelo às liberdades individuais

Cena do filme Amistad
Amistad: filme dirigido por Steven Spielberg

EMOCIONA E PROVOCA REFLEXÕES

Amistad, filme dirigido por Steven Spielberg em 1997, é baseado em fatos. Revela o triste drama real vivido em 1839 por um grupo de homens e mulheres, cidadãos da tribo Mende, que habitavam Serra Leoa. Feitos escravos, eles se revoltaram e conseguiram assumir o controle do navio espanhol La Amistad, onde viajavam amontoados. Liderados por Joseph Cinqué (Djimon Hounsou), queriam voltar para a África, mas como dependiam dos navegadores, pouparam-lhes as vidas. Os pobres foram enganados: deram na costa leste dos Estados Unidos, onde foram detidos pela marinha americana.

Na verdade, era um navio negreiro

        Navio negreiro é uma expressão que nós, brasileiros, conhecemos muito bem. É indissociável do nome Castro Alves, o poeta dos Escravos. Ele tinha apenas 22 anos, em 1869, quando escreveu O Navio Negreiro, um poema construído em seis partes, inserida na sua obra intitulada Os Escravos. Dizer que o poema é sobre os horrores vividos pelos negros escravizados, torturados e vilipendiados enquanto eram transportados feito animais pelos aterradores mares revoltos é uma simplificação tosca. Os versos de Castro Alves evocam emoções as mais diversas.

Cena do filme Amistad
Amistad: Spielberg encontrou a história dos sobreviventes de um navio negreiro

Versos que evocam imagens cinematográficas

        Em seu poema, Castro Alves encontra beleza no oceano, no firmamento e na bravura dos que ousam navegar. Reverencia a bagagem cultural que imagina ser transportada e se aproxima do navio feito um pássaro curioso, apenas para presenciar a cena mais funesta de todas: uma dança macabra executada em nome do próprio satanás. O ritmo é regido pelas chibatadas e as notas musicais ressoam dos ferros em fúria. “Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”. Castro Alves implora ao Criador que ponha fim a tanto sofrimento, enquanto fala de humanidades e desumanidades, até se dar conta de que a bandeira que tremula no mastro do tal navio negreiro é a nossa! É a bandeira do Brasil! Que vergonha, meu Deus!

No filme, uma abordagem mais realista

        No filme Amistad, dirigido por Steven Spielberg em 1997, não é nossa a bandeira que tremula no mastro do navio negreiro, mas os horrores que cabem na embarcação espanhola são os mesmos. São universais! O longa do diretor americano, entretanto, não segue uma narrativa poética. É construído como um drama de tribunal. Repleto de passagens emocionantes, vem para cutucar temas sempre atuais, como o preconceito racial e a luta pelas liberdades individuais.

Cena do filme Amistad
Amistad: um filme de tribunal em defesa dos direitos individuais

Uma disputa acirrada

        Levados a julgamento, os africanos precisaram provar que eram homens livres – e não meras mercadorias. Numa época em que a escravidão ainda era o modelo econômico dominante, esse foi um desafio e tanto. Foram acusados de pirataria e assassinato. Foram tratados como meros objetos de um litígio de propriedade. De um lado, a Coroa Espanhola reclamou a posse de todos, baseada em tratados comerciais. Do outro lado, estavam os navegadores feitos prisioneiros dos africanos, que tinham o recibo de compra. Além deles, os próprios oficiais da marinha americana, que os salvaram, aproveitaram para se apresentar como litigantes. Acontece que Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey), o advogado contratado pelos abolicionistas Lewis Tappan (Stellan Skarsgård) e Theodore Joadson (Morgan Freeman), assume a representação dos africanos e fará de tudo para defendê-los. Provará aos juízes que decidirão o destino de cidadãos livres, merecedores de reparação.

Uma história que ninguém conhecia

        O ponto de partida para a realização de Amistad foi a indignação de Debbie Allen, atriz, diretora, roteirista e produtora, que dez anos antes havia se deparado com um ensaio sobre o caso e descobriu que ninguém o conhecia. Para ela, essa história real tinha todos os ingredientes para virar um grande filme. Por anos tentou emplacar o projeto junto aos estúdios, mas sem sucesso. Depois de assistir ao filme A Lista de Schindler, Allen decidiu que deveria persuadir Spielberg a realiza-lo. Bingo! Ela conseguiu uma reunião com o cineasta e conseguiu impressioná-lo.

Cena do filme Amistad
Amistad: a aparição de Djimon Hounsou para o mundo do cinema

Críticas às imprecisões históricas

        O roteiro de Amistad ficou a cargo de David Franzoni – mais tarde ele escreveria o roteiro de Gladiador. Ele contou com a ajuda não creditada de Steven Zaillian. A inspiração foi o romance Black Mutiny: The Revolt on the Schooner Amistad, escrito por William A. Owens. A dramatização construída no script forneceu matéria-prima para o competente elenco, que contou com a participação de Anthony Hopkins no papel do presidente John Quincy Adams. As licenças poéticas, porém, fizeram brotar críticas quanto às imprecisões históricas, especialmente relacionadas ao labirinto jurídico que o caso precisou percorrer. Mais tarde o roteiro de David Franzoni passou por uma transposição literária e foi convertido em um romance, assinado por Alex Pate, que recebeu o título de... Amistad!

A estampa poderosa de Joseph Cinqué

        Outro ponto vital para a realização de Amistad foi uma descoberta de Steven Spielberg: o ator Djimon Hounsou! Com sua estampa majestosa e carismática, ele conseguiu expressar toda a altivez, a fúria e a amplitude heroica de Joseph Cinqué. Ele encarnou à perfeição o líder que, mesmo em um país desconhecido e sem falar uma única palavra no idioma inglês, conseguiu levar sua gente até o fim de uma árdua batalha judicial. O resultado final é que Amistad se tornou mais do que um filme de tribunal. Por meio dele, Steven Spielberg mostrou genuína veia dramática e nos entregou uma verdadeira ode em favor das liberdades individuais.

Veredito da crônica de cinema

★★★★☆(4 / 5 estrelas)

O que brilha: a direção segura de Steven Spielberg, o roteiro preciso de David Franzoni, as atuações de Djimon Hounsou e Matthew McConaughey e o refinamento da produção audiovisual.

O que surpreende: ainda que o filme abra espaço demais para enaltecer as tentativas dos americanos de corrigir suas instituições racistas, as oportunidades dramáticas para mostrar o drama dos personagens foram bem aproveitadas.

Acima da média. É cinema de qualidade.

Ficha técnica do filme Amistad

Data de produção: 1997
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Franzoni

  • Elenco:
  • Djimon Hounsou
  • Matthew McConaughey
  • Anthony Hopkins
  • Morgan Freeman
  • Nigel Hawthorne
  • David Paymer
  • Pete Postlethwaite
  • Stellan Skarsgård
  • Razaaq Adoti
  • Abu Bakaar Fofanah
  • Anna Paquin
  • Tomas Milian
  • Chiwetel Ejiofor
  • Derrick Ashong

Comentários

  1. Maravilhosa resenha pra um espetácular filme! Fabio, tal como Spielberg, nunca decepcionam!

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    1. Ah, muito obrigado! Fico feliz que tenha gostado. Abraços!

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