Jogador Nº1: ficção científica embriagada de nostalgia

Cena do filme Jogador No 1
Jogador N⁰1: direção de Steven Spielberg

UM ÉPICO FUTURISTA ENVOLTO EM MELANCOLIA

Os cinéfilos costumam reservar seus adjetivos mais suntuosos para a sétima arte: imersiva, simbólica, elevada, envolvente, reflexiva... Mas quem acaba roubando a cena é mesmo a paixão pelos filmes. São eles que guardamos na memória e revisitamos sempre que precisamos fruir algumas doses de regozijo. Geralmente empregamos a palavra filme para nos referir a um longa-metragem, porém, há mais de um século o cinema vem se expressando por meio de outros formatos: curtas, seriados, comerciais de TV, telenovelas, videoclipes, reality shows, histórias em quadrinhos e... videogames. Os cinéfilos também têm olhos para esses outros formatos, afinal, todos empregam linguagens derivadas do cinema. Em todos, o imperativo é a narrativa, mas nos videogames, a interatividade coloca a narrativa nas mãos do jogador!
        As últimas gerações testemunharam o crescimento exponencial da indústria dos videogames, cuja receita já é maior que a do cinema. Aliás, ambas se mesclaram, de tanto se debruçar sobre os mesmos produtos. Filmes viram jogos, jogos viram filmes e assim vão deixando marcas definitivas na cultura pop. Era de se esperar, portanto, que tais marcas virassem objeto de culto. Mas o interessante é ver como elas terminaram compiladas em um... livro! E um livro de ficção científica! Falo de Jogador N०1, publicado em 2011 pelo americano Ernest Cline. Trata-se de um romance futurista, cuja trama se passa em 2045, quando a Terra superpopulosa está em ruinas e as economias em frangalhos. As pessoas encontram refúgio em uma simulação de realidade virtual, onde podem interagir por meio dos seus avatares, para levar uma vida mais divertida, criativa e repleta de novas possibilidades.
        No futuro imaginado por Cline, as interfaces disponíveis para os usuários privilegiarão todos os sentidos, tornando o videogame um meio muito mais realista – e favorável ao escapismo! Isso tem um impacto profundo no modo de vida das pessoas, que apesar de viverem em uma realidade amparada pela tecnologia, carregam as marcas de milênios de evolução – continuam lutando pela sobrevivência, competindo, cooperando, cultivando nostalgias, aprendendo e se esforçando para deixar um legado. Continuam sendo exploradores!
        Além de ser um profundo conhecedor dos videogames e sua história, Ernest Cline viveu intensamente os desdobramentos da cultura do entretenimento – a tal cultura geek. Em seu livro, decidiu prestar uma homenagem a esse caldo cultural, incorporando um sem número de referências a filmes, músicas, jogos, quadrinhos e programas de TV que fizeram sucesso a partir dos anos 1980. Para aglutiná-las, criou uma trama envolvendo uma caça mundial a easter eggs, cujo prêmio seria o pleno domínio da própria simulação de realidade virtual. Narrado em primeira pessoa, na voz do adolescente Wade Watts, o livro mirou certeiro no público apaixonado pelo tema, mas um ano antes de ser publicado, alvoroçou os estúdios de cinema. Já em 2010, os direitos de adaptação do livro foram leiloados e acabaram nas mãos da Warner. Jogador N1 nasceu destinado a virar filme!
        Antes de seguir em frente, porém, gostaria de estabelecer a sinopse. Acompanharemos no filme a história de Wade Watts (Tye Sheridan), enquanto vaga pelo universo virtual, batizado de OASIS por seu criador, o excêntrico James Halliday (Mark Rylance). Antes de morrer, Halliday queria encontrar um herdeiro à altura, então criou um concurso em três etapas, onde o vencedor ficará com sua imensa fortuna. Toda a humanidade entra na disputa, mas é Wade, em seu avatar, Parzival, quem reúne todos os requisitos para ser o campeão. Enquanto se esforça para decifrar os enigmas e encontrar os easter eggs, ele faz alguns amigos e aliados, como a sedutora Art3mis (Olivia Cooke), o engenhoso Aech (Lena Waithe) e os guerreiros Daito (Win Morisaki) e Sho (Philip Zhao). Mas os cinco terão que enfrentar a fúria e a prepotência do desleal Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), CEO de uma grande corporação concorrente que deseja controlar o OASIS.
        O próprio autor do livro, Ernest Cline, escreveu o roteiro de Jogador N1, onde incluiu novos desafios para surpreender os leitores do livro – as referências ao filme O Iluminado e as desavenças que gerou entre Stanley Kubrick e Stephen King são um exemplo. Mas, então, algo de inesperado aconteceu: Steven Spielberg entrou de cabeça no projeto e assumiu a direção do filme. É claro que a presença do cineasta, conhecido por seu perfeccionismo e sua habilidade como contador de histórias, mudou os rumos da produção. Lidando com cenários abstratos, num espaço vazio de 13 mil m2, onde todos precisavam usar óculos de realidade virtual para se localizar, ele se divertiu durante quatro anos, mergulhando num mundo imaginário, veloz e frenético – enquanto isso também realizou os filmes Ponte dos Espiões e The Post – A Guerra Secreta.
        Spielberg percebeu de imediato que precisaria fazer mudanças no roteiro de Jogador N1. De nada adiantaria destacar a enxurrada de referências à cultura pop – algumas aludindo aos seus próprios filmes – se elas distraíssem o espectador na hora de acompanhar a história vivida pelos personagens. O diretor então chamou o experiente roteirista Zak Penn para escrever um novo tratamento. Exigiu que os personagens aparecessem em um maior número de cenas no mundo real, diminuindo o tempo de animação. E fez questão de que as referências culturais fossem usadas com critério e pertinência, sem atrapalhar o desenvolvimento da história.
        Zak Penn teve que enfrentar um grave obstáculo: a necessidade de reescrever o roteiro várias vezes, porque a quantidade de referências culturais era enorme e o estúdio mobilizou um exército de advogados para obter os direitos de utilização. Tiveram sucesso inesperado com algumas, mas outras não puderam entrar no filme. No mais, o roteirista seguiu uma linha criativa consagrada: narrou a clássica jornada do herói e deu mais visibilidade aos amigos do protagonista, que passaram a compor seu exército. O vilão da história também ganhou contornos mais definidos, conduzindo a narrativa para o embate final no último ato.
        Jogador N1 vem envolto por uma certa aura de melancolia. O mundo virtual que o filme nos apresenta é nostálgico e escapista, criado por um designer de jogos frustrado e metido com dilemas existenciais. Além do mais, a ficção científica que experimentamos, apesar de bem fundamentada, está mais focada em aparatos de realidade virtual, que provavelmente estarão disponíveis em poucas décadas. Já os aspectos comportamentais, bem, estes nem parecem ficção científica! É triste ver como muitos jovens já vivem tal realidade nas redes sociais, sucumbindo às tendências escapistas e se apegando às futilidades como forma de atenuar as contrariedades que experimentam na vida real. A única diferença é que ainda não podem assumir seus avatares.

Resenha crítica do filme Jogador No1

Título original: Ready Player One
Ano de produção: 2018
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg, T. J. Miller, Lena Waithe, Hannah John-Kamen, Win Morisaki, Philip Zhao, Ralph Ineson, Susan Lynch, Clare Higgins, Perdita Weeks e Mark Stanley

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