Crítica | Menina de Ouro: Clint Eastwood pôs as mãos num ótimo roteiro e realizou seu melhor filme

Menina de Ouro: filme de Clint Eastwood
QUANTO PODER EMOCIONAL!
O mundo do boxe é para poucos; muitos consideram o esporte violento demais e preferem buscar divertimento em outras modalidades. O que dizer, então, do boxe feminino? Ah, esse é para muito poucos! Só lembramos que a modalidade existe durante as Olimpíadas, quando “lutadoras turbinadas" enfrentam as mulheres no ringue. Agora, pense num filme que visita esse território árido do boxe feminino e flagra seus habitantes nos momentos de maior sofrimento e tristeza. Minha aposta era que um tema tão pesado afugentaria o público.O sucesso improvável de uma história triste
Nada disso! Menina de Ouro, filme de 2004 dirigido por Clint Eastwood, conseguiu o improvável: saiu-se bem nas bilheterias, conquistou prêmios e se tornou uma das melhores realizações do diretor. Por quê? Nos trouxe uma história emocionante, costurada com sólidos elementos dramáticos e focada no arco de transformação dos seus personagens.
Menina de Ouro: ainda hoje, o filme emociona nas plataforma de streaming
Personagens embriagados de esperança
Menina de Ouro não é o que parece à primeira vista. Muitos acreditam que o filme se baseia em fatos, mas isso não é verdade. A história é fictícia. Começa leve, como uma daquelas produções confinadas em estúdio, que Hollywood fabrica em série desde sempre. Então, finge que nos trará uma versão feminina de Rocky - Um Lutador, onde a tal menina de ouro precisará se empenhar para entrar em forma e finalmente conquistar algum título importante. De repente, somos golpeados no estômago e vemos uma reviravolta acontecer diante dos nossos olhos; hipnotizados pelo brilhante trabalho dos atores, mergulhamos num caldeirão de emoções verdadeiras e somos levados às cordas. Pontos para a sétima arte!Todos se agarram nas esperanças que surgem
O tema principal de Menina de Ouro é a busca por uma segunda chance na vida. O filme nos lembra que as pessoas se agarram às oportunidades de um novo recomeço, mas nem sempre estão preparadas para as desilusões, ainda que elas sejam prováveis. Todos os personagens se embriagam de esperança e vivem tudo o que podem, antes que venha a ressaca. O enredo começa inspirador: fala de amizade, confiança e paixão pelo esporte... Mas não se anime! Assim como na vida real, haverá espaço para a melancolia. Vamos examinar a sinopse:
Menina de Ouro: Clint Eastwood e Morgan Freeman em atuações poderosas
Sinopse: a história de Maggie Fitzgerald
Menina de Ouro conta a história de Frankie Dunn (Clint Eastwood), um velho treinador de boxe que já conheceu momentos de glória, mas agora vive do que ganha com os poucos frequentadores do seu ginásio. Solitário, afastado da única filha por desavenças, convive apenas com o velho amigo Eddie Scrap (Morgan Freeman), um ex-lutador que trabalha para ele como zelador. Quando Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), uma garota pobre e solitária aparece para treinar, Frankie não vê nela nenhuma razão para sair do buraco onde se entocou; porém, quando descobre que a menina tem na cabeça uma única ideia fixa, a de vencer, o velho treinador se dispõe a ensiná-la.

Menina de Ouro: agarrados a uma segunda chance na vida
A soma das duas solidões resulta numa parceria sólida. Ela é a segunda chance de Frankie para reviver seus tempos de glória e descobrir como é que se relaciona de verdade com uma filha. Ele é a segunda chance de Maggie para desenvolver seus talentos e lutar pelo que deseja, dessa vez ao lado de gente que acredita nela e reconhece seus esforços. E como essa dupla vai longe!
Uma adaptação inteligente e criativa
Menina de Ouro nasceu porque o roteirista e diretor canadense Paul Haggis descobriu um livro inédito com seis contos, intitulado Rope Burns: Stories from the Corner, escritos por um tal de F.X. Toole – pseudônimo do empresário de lutas Jerry Boyd. Haggis se inspirou no conto Million Dollar Baby para desenvolver seu roteiro, mas isso exigiu mais do que uma mera adaptação. Tudo o que havia no texto original era o relacionamento entre Frankie e Maggie e a narrativa da trajetória que percorreram. Haggis então criou o personagem Scrap, dotou Frankie de uma forte crença no catolicismo e deu a ele um relacionamento conturbado com a filha afastada; ou seja, enriqueceu a história com elementos dramáticos, que expuseram as decisões emocionais dos personagens e os caracterizaram em profundidade, para que pudessem ganhar vida nas telas.
Hilary Swank: coragem e determinação nas cenas de luta
Era inevitável: Clint Eastwood decidiu dirigir
Paul Haggis, um produtor e diretor experiente, passou quatro anos tentando realizar o filme. Já havia conseguido o engajamento de Hilary Swank e Morgan Freeman, mas ainda precisa de alguém para interpretar Frankie Dunn. Quando sondou Clint Eastwood, o inevitável aconteceu: o atro não só aceitou atuar como decidiu dirigir o filme. Haggis abriu mão da direção, certo de que a grife Clint Eastwood faria muito bem a Menina de Ouro – o diretor já havia conquistado o público e a crítica com seu filme anterior, Sobre Meninos e Lobos, e trazia no currículo o magistral Os Imperdoáveis. Que decisão acertada! Valeu os Óscares de melhor filme, melhor diretor, melhor atriz para Hilary Swank e melhor ator coadjuvante para Morgan Freeman.
Todos saem transformados, inclusive o espectador
O roteiro de Menina de Ouro é uma peça concisa. Paul Haggis economizou nas cenas expositivas e deixou nas entrelinhas um bom tanto de informações, as quais o próprio espectador deve preencher. Clint Eastwood reconheceu a excelência do roteiro e o filmou na íntegra; não mudou uma vírgula. Paul Haggis foi indicado ao Óscar na categoria de melhor roteiro adaptado, mas não levou; no ano seguinte, lá estava ele novamente entre os melhores: venceu o Óscar de melhor roteiro original por Crash - No Limite.
Menina de Ouro: Clint Eastwood não mudou uma vírgula no roteiro
Todos deixamos o cinema transformados
Menina de Ouro é um filme triste, mas verdadeiro. Clint Eastwood aproveitou todos os ganchos dramáticos e nos entregou uma atuação sólida. Hilary Swank e Morgan Freeman, bem... não foi à toa que levaram seus óscares para casa. Quanto a nós, os espectadores, depois de passar o filme inteiro com a incômoda sensação de que a vida dos personagens mudará para sempre, também deixamos a sala de cinema transformados. Que grande filme!
Veredito da crônica de cinema
★★★★★(5 / 5 estrelas)
O que brilha: o roteiro conciso de Paul Haggis, a direção objetiva de Clint Eastwood e a força de uma história triste, mas transformadora.
O que surpreende: a habilidade do elenco em lidar com os elementos dramáticos, sem cair no melodrama ou no sentimentalismo.
Imperdível. É cinema de alta qualidade.
Ficha técnica do filme Menina de Ouro
Título original: Million Dollar Baby
Ano de produção: 2004
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Paul Haggis
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Paul Haggis
Elenco:
- Clint Eastwood
- Hilary Swank
- Morgan Freeman
- Mike Colter
- Jay Baruchel
- Brian F. O'Byrne
- Anthony Mackie
- Margo Martindale
- Michael Peña
- Ned Eisenberg
- Riki Lindhome
- Marcus Shait
- Tom McCleister
- Erica Grant
Belo texto, sobre o filme e os envolvidos no mesmo! Gosto desse Filme! E ... Parabéns 🎉 Feliz Aniversário 🎂❗
ResponderExcluirAh, Fátima, muitíssimo obrigado! Também gosto demais desse filme, apesar de tristíssimo.
ExcluirExcelente avaliação e crítica
ResponderExcluirMuito obrigado!!!
ExcluirMaravilhoso, já assisti mais de uma vez. Belo texto!
ResponderExcluirAh, muito obrigado pelo feedback!
ExcluirBoa crítica. Mas é um dos raios filmes do Clint que assisti uma vez só. É dolorido demais.
ResponderExcluirAh, é triste demais!! Já revisitei o filme, mas tratei de prestar atenção mais no cinema do que nos ganchos emocionais, mesmo assim saí com escoriações.
ExcluirRaros
ResponderExcluirParabéns. É muito triste. Gostei muito do filme.
ResponderExcluirTriste porque ela morre
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